4 Cantos (Rua Direita com São Bento), 1902


Ladeira Porto Geral, 1909


Rua XV de Novembro, esquina com Praça da Sé, 1904


Viaduto do Chá, 1917

São Paulo por volta de 1900

Extraído do livro "Cesário Mota e seu tempo", de Cássio Mota, publicado em 1947

"A cidade de São Paulo, no tempo nosso de Escola Modelo, nos primórdios do Brasil-República, era pequena, pouco progedira e, muito embora tivesse fama de uma grande cidade, movimentada e barulhenta, tinha na realidade o tamanho e a vida de várias das nossas atuais cidades do interior.
Mas, o que a destacava profundamente das demais cidades do interior e a tornava objeto do justo orgulho dos paulistas, era o fato de possuir, já naquela época, um bom número de melhoramento fruto tanto da energia oficial como do esforço dos particulares: casas assobradadas de um e dois andares, os primeiros degraus dos futuros arranha-céus; ruas e casa com iluminação a gás; bondes atração animal; carros de praça e particulares, de vários formatos e tamanhos; alguns palácios como o palácio Presidencial , o palácio da Escola Normal, o palácio de Ipiranga; lindas chácaras particulares, como a de D. Veridiana Prado, a do Cel. Rodovalho, a do Dr. Domingos Jaguaribe e outras; a Santa Casa, ocupando dois quarteirões quadrados; o Viaduto do Chá, a Ponte Grande, o Jardim da Luz, etc.
Era tudo isto, repito, que deixava aturdido, boquiaberto, deslumbrado, o pessoal do interior que vinha pela primeira vez a São Paulo, e criava na imaginação dos que a não conheciam, as mais fantásticas idéias sobre a nossa Paulicéia de então!
Mas, se São Paulo da nossa infância não possuía a beleza e o esplendor do São Paulo de agora, tinha o encanto jovial do coração em flor que se abre para a vida.

Cidade

A cidade de São Paulo, no começo da República, era pequena, ruas estreitas e tortas, sem calçamento, algumas mal calçadas com pedras irregulares, raras, a paralelepípedos; largos e praças entregues á própria sorte, no mais completo abandono, apresentando aqui e ali touceiras de gramas e algumas plantas de mato; casas na maioria feitas de pau a pique ou taipa, telha vã e chão batido; cassa de tijolos, forradas e assoalhadas, nos bairros melhores e em geral nos bairros novos, em formação; iluminação, nas ruas, a gás, bicos simples e bicos com camisa incandescente; das casas, a gás, querosene, velas de sebo e espermacete, candeeiros; água de encanada, em certo perímetro da cidade, no resto água de poço; rede de esgotos pequeníssima; instalações higiênicas inteiramente sem higiene, quase todas nos quintais sob a forma de fossas, poucas dentro de casa e ligadas á rede de esgotos, mictórios públicos erguidos nos pontos mais movimentados do centro da cidade e espalhados pelos bairros, a atrair a concorrência masculina e as moscas varejeiras; e os célebres quiosques, feitos de madeira e de formato cilíndrico, espécie de 'cafés-bares', cravejados de moscas, onde, além do popular café com leite, pão e manteiga, encontravam-se refrescos diversos preparados com xarope, entre os quais os mais procuradores eram a groselha e o capilé; vinho, cerveja. Conhaque. Artigos para fumantes tais como: cigarros de papel e palha, charutos, quase sempre marca- barbante, fumo de corda e palhas para cigarros; vidros com biscoitos, balas de açúcar cândi, para o regalo da meninada, jornais do dia, bilhetes de loterias, latas de graxa e cordões para sapatos. Os quiosques eram, alguns, providos de pequenas rodas que facilitavam o seu transporte de um para outro ponto.

Melhoramentos

Já naquele tempo o gênio progressista do bandeirante, sempre em ebulição, sem descansar nunca, evidenciava-se em iniciativas oficiais e particulares, a algumas de grande monta. Entre os melhoramentos principais iniciados ou ultimados naquela época, citaremos; o Jardim da Luz, freqüentado pelas melhores famílias da Paulicéia, com o seu célebre canudo- João Teodoro — o Martinelli de então, a atrair visitantes do interior e daqui, para apreciar o panorama, lá de cima; o Palácio do Governo; o Edifício da Escola Normal, o Edifício do Ipiranga; a nova Estação da Luz, o Viaduto do Chá, o primitivo, hoje transfigurado numa das belas obras de engenharia brasileira; a Caixa D'água da Cantareira, recreio preferido pelo povo paulista para passeios e piqueniques; a Ponte Grande antiga, transformada hoje na belíssima Ponte dos Bandeirantes, e que naquele tempo era o passeio obrigatório dos moradores do interior.
Dentre todos esses engenhos da iniciativa paulista, merece especial menção o primitivo Viaduto do Chá, fruto da energia particular, que mais tarde passou a pertencer ao governo e que muito beneficiou o urbanismo paulista.
O Viaduto do Chá foi na realidade um empreendimento gigante para aquela época. A sua inauguração deu-se az 6 de novembro de 1892,na presença do dr. Bernardino de Campos, presidente do Estado, tendo o bispo diocesano, D. Lino realizado o seu benzimento. Antes de pertencer ao Governo, pagava-se para atravessá-lo; três vinténs ou 60 réis era a cota para os pedestres, as carruagens pagavam mais.
Em cada extremo do Viaduto ficava um guarda com o relógio registrador, marcando o número de pessoas de pessoas que passavam pela roda giratória por ele movida; a entrada se fazia pela calçada do lado direito e a saída pela do lado esquerdo.
N centro havia um grande portão que era aberto de manhã e fechado á noite. Cada carro ou carroça que tinha de passar, parava ao portão para pagar a cota estipulada.
Depois que ficou pertencendo ao Governo, o trânsito pelo Viaduto do Chá foi franqueado ao público.

Urbanismo

A feição urbana de São Paulo, naquela época, embora fosse uma perfeita miniatura da atual, tinha o encanto especial, um que de pitoresco e de ingenuidade própria de tudo que começa, que inicia e que é novidade.
E' que São Paulo de então era uma cidade em pleno renascimento, que desabrochava, graças ao regime republicano que acabava de ser inaugurado no Brasil, pondo abaixo a antiga monarquia, inteiramente incompatível com o espírito democrático e progressista do nosso povo.

Vida diurna e noturna

A vida diurna quase toda era no Centro, conhecido por Cidade, como ainda hoje o é. A vida era intensa no Centro, e daí, o movimento das ruas do Triângulo: Direita-15 de Novembro-S. Bento.
Indo à cidade, era forçoso percorrer essas três ruas. Ir à cidade e não fazer essa trajetória, era o mesmo que ir à Roma e não ver o Papa.
A cidade era o chafariz, o ponto de atração do povo paulista.
Ia-se à cidade para compras, negócios, encontro de conhecidos e simplesmente para passeio, apreciar o movimento, ver as vitrinas e também conhecer e lanchar nas confeitarias, das quais a mais em moda era a " Paulicéa" e mais tarde o ''Progredior''.
Era a cidade que havia o verdadeiro comércio, o alto comércio, o comércio de tudo e para todos.
Nos bairros o comércio deixava muito a desejar, era pequeno, muito espalhado, não satisfazia em absoluto às necessidades da população.
Os bairros eram quase 90% residenciais; havia ruas e ruas sem uma casa de comércio.
O comércio do bairro compunha-se de algumas lojas de fazendas, mal sortidas, um ou outro armarinho, algumas farmácias pequenas, padarias, vendas, raros armazéns de secos e molhados, vidraceiro, folheiro, especializado no fabrico de baús de folha de todos os tamanhos e pintados a óleo, alguns tendo como ornamento, também a óleo, grotescos ramos de rosas; vários ferreiros, cujo trabalho principal era fazer ferraduras, serviço esse em grande escala naquela época.
Ir à cidade, para as famílias do interior que vinham conhecer São Paulo, era um acontecimento, um dia de festa.
E também para os moradores daqui, não era menos agradável e divertido, levar à cidade um parente, um amigo que não conhecia São Paulo.
E daí, os freqüentes gracejos e piadas em família:
- Olhe, cuidado, não vá deixar cair o queixo!
-Cuidado, não vá ficar tonto com o povo na rua!
-Mamãe, eu quero ir na casa de brinquedos.
-E', mas não atormente a sua tia, não tem que pedir nada, nem mexer em nada, ouviu?!
E era assim nessa atmosfera singela de curiosidade, alegria e bom humor que se faziam as freqüentes visitas à cidade para conhecer São Paulo de perto.
Com relação à vida diurna da cidade, não podemos deixar no silêncio os tipos de rua, peculiares aquela época, alguns desaparecidos hoje, outros ainda existentes, porém melhorados, tais como: o mascate turco, depois sírio, com o seu práquepráque monótono, em peregrinação paciente pelas ruas e bairros da cidade; o folheiro a chamar a freguesia com o seu tímpano metálico; o vidraceiro carregando vidros para janelas e quadros; o peixeiro carregando cestas com peixes e fazendo o reclame pela boca: peixe do mar, tainha fresca, camarão fresco, o vassoureiro carregando vassouras, cestas de vários tamanhos, vasculhadores, etc.; o homem do realejo, um italiano bigodudo , recentemente vindo da terra, com brincos de ouro em forma de argola e um chapéu atravessado por uma pena, carregando um pesado realejo e um macaquinho preso por uma correia, a atrair a atenção da garotada com as sua freqüentes macaquices; o homem do urso, fazendo o animal dançar ao som de um pandeiro, para em seguida coletar os vinténs e 40 réis de cobre tão em uso naquele tempo, fornecidos pelos curiosos que logo afluíam para apreciar o, animal de perto; o homem do Divino, que levava a bandeira do Divino de casa em casa, a angariar esmolas para a respectiva paróquia; os baleiros vendendo balas em uma bandeja, sustentada por uma correia de couro passada pelo pescoço; o amolador, transportando pelas ruas e pedra de amolar, num carrinho, fazendo da garganta a sua buzina: amolador, amolador! Mais tarde era com o pedaço de arco de barril que, agitado pela pedra, dava um som estridente. O vendedor de garapa e cana descascada, guiando uma carrocinha, fechada, puxada por um burro, dentro da qual havia um pequeno engenho movido a mão.
O pipoqueiro vendendo pipoca e amendoim torrado e que cantava esta e outras modinhas:
Se essa rua fosse minha
Eu mandava ladrilhar
Com pedrinhas de diamante
Para o meu bem passar!

Pipoca Yoyô
Pipoca Yayá
Pipoca, amendoim torrado!

O vendedor de batata doce, a gritar: 'batata doce assada forno, está quentinha!'"


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