"A cidade de São Paulo, no tempo nosso de Escola Modelo, nos primórdios do Brasil-República, era pequena, pouco progedira e, muito embora tivesse fama de uma grande cidade, movimentada e barulhenta, tinha na realidade o tamanho e a vida de várias das nossas atuais cidades do interior.
Mas, o que a destacava profundamente das demais cidades do interior e a tornava objeto do justo orgulho dos paulistas, era o fato de possuir, já naquela época, um bom número de melhoramento fruto tanto da energia oficial como do esforço dos particulares: casas assobradadas de um e dois andares, os primeiros degraus dos futuros arranha-céus; ruas e casa com iluminação a gás; bondes atração animal; carros de praça e particulares, de vários formatos e tamanhos; alguns palácios como o palácio Presidencial , o palácio da Escola Normal, o palácio de Ipiranga; lindas chácaras particulares, como a de D. Veridiana Prado, a do Cel. Rodovalho, a do Dr. Domingos Jaguaribe e outras; a Santa Casa, ocupando dois quarteirões quadrados; o Viaduto do Chá, a Ponte Grande, o Jardim da Luz, etc.
Era tudo isto, repito, que deixava aturdido, boquiaberto, deslumbrado, o pessoal do interior que vinha pela primeira vez a São Paulo, e criava na imaginação dos que a não conheciam, as mais fantásticas idéias sobre a nossa Paulicéia de então!
Mas, se São Paulo da nossa infância não possuía a beleza e o esplendor do São Paulo de agora, tinha o encanto jovial do coração em flor que se abre para a vida.
Cidade
A cidade de São Paulo, no começo da República, era pequena, ruas estreitas e tortas, sem calçamento, algumas mal calçadas com pedras irregulares, raras, a paralelepípedos; largos e praças entregues á própria sorte, no mais completo abandono, apresentando aqui e ali touceiras de gramas e algumas plantas de mato; casas na maioria feitas de pau a pique ou taipa, telha vã e chão batido; cassa de tijolos, forradas e assoalhadas, nos bairros melhores e em geral nos bairros novos, em formação; iluminação, nas ruas, a gás, bicos simples e bicos com camisa incandescente; das casas, a gás, querosene, velas de sebo e espermacete, candeeiros; água de encanada, em certo perímetro da cidade, no resto água de poço; rede de esgotos pequeníssima; instalações higiênicas inteiramente sem higiene, quase todas nos quintais sob a forma de fossas, poucas dentro de casa e ligadas á rede de esgotos, mictórios públicos erguidos nos pontos mais movimentados do centro da cidade e espalhados pelos bairros, a atrair a concorrência masculina e as moscas varejeiras; e os célebres quiosques, feitos de madeira e de formato cilíndrico, espécie de 'cafés-bares', cravejados de moscas, onde, além do popular café com leite, pão e manteiga, encontravam-se refrescos diversos preparados com xarope, entre os quais os mais procuradores eram a groselha e o capilé; vinho, cerveja. Conhaque. Artigos para fumantes tais como: cigarros de papel e palha, charutos, quase sempre marca- barbante, fumo de corda e palhas para cigarros; vidros com biscoitos, balas de açúcar cândi, para o regalo da meninada, jornais do dia, bilhetes de loterias, latas de graxa e cordões para sapatos. Os quiosques eram, alguns, providos de pequenas rodas que facilitavam o seu transporte de um para outro ponto.
Melhoramentos
Já naquele tempo o gênio progressista do bandeirante, sempre em ebulição, sem descansar nunca, evidenciava-se em iniciativas oficiais e particulares, a algumas de grande monta.
Entre os melhoramentos principais iniciados ou ultimados naquela época, citaremos; o Jardim da Luz, freqüentado pelas melhores famílias da Paulicéia, com o seu célebre canudo- João Teodoro — o Martinelli de então, a atrair visitantes do interior e daqui, para apreciar o panorama, lá de cima; o Palácio do Governo; o Edifício da Escola Normal, o Edifício do Ipiranga; a nova Estação da Luz, o Viaduto do Chá, o primitivo, hoje transfigurado numa das belas obras de engenharia brasileira; a Caixa D'água da Cantareira, recreio preferido pelo povo paulista para passeios e piqueniques; a Ponte Grande antiga, transformada hoje na belíssima Ponte dos Bandeirantes, e que naquele tempo era o passeio obrigatório dos moradores do interior.
Dentre todos esses engenhos da iniciativa paulista, merece especial menção o primitivo Viaduto do Chá, fruto da energia particular, que mais tarde passou a pertencer ao governo e que muito beneficiou o urbanismo paulista.
O Viaduto do Chá foi na realidade um empreendimento gigante para aquela época. A sua inauguração deu-se az 6 de novembro de 1892,na presença do dr. Bernardino de Campos, presidente do Estado, tendo o bispo diocesano, D. Lino realizado o seu benzimento.
Antes de pertencer ao Governo, pagava-se para atravessá-lo; três vinténs ou 60 réis era a cota para os pedestres, as carruagens pagavam mais.
Em cada extremo do Viaduto ficava um guarda com o relógio registrador, marcando o número de pessoas de pessoas que passavam pela roda giratória por ele movida; a entrada se fazia pela calçada do lado direito e a saída pela do lado esquerdo.
N centro havia um grande portão que era aberto de manhã e fechado á noite. Cada carro ou carroça que tinha de passar, parava ao portão para pagar a cota estipulada.
Depois que ficou pertencendo ao Governo, o trânsito pelo Viaduto do Chá foi franqueado ao público.
Urbanismo
A feição urbana de São Paulo, naquela época, embora fosse uma perfeita miniatura da atual, tinha o encanto especial, um que de pitoresco e de ingenuidade própria de tudo que começa, que inicia e que é novidade.
E' que São Paulo de então era uma cidade em pleno renascimento, que desabrochava, graças ao regime republicano que acabava de ser inaugurado no Brasil, pondo abaixo a antiga monarquia, inteiramente incompatível com o espírito democrático e progressista do nosso povo.
Vida diurna e noturna
A vida diurna quase toda era no Centro, conhecido por Cidade, como ainda hoje o é.
A vida era intensa no Centro, e daí, o movimento das ruas do Triângulo: Direita-15 de Novembro-S. Bento.
Indo à cidade, era forçoso percorrer essas três ruas. Ir à cidade e não fazer essa trajetória, era o mesmo que ir à Roma e não ver o Papa.
A cidade era o chafariz, o ponto de atração do povo paulista.
Ia-se à cidade para compras, negócios, encontro de conhecidos e simplesmente para passeio, apreciar o movimento, ver as vitrinas e também conhecer e lanchar nas confeitarias, das quais a mais em moda era a " Paulicéa" e mais tarde o ''Progredior''.
Era a cidade que havia o verdadeiro comércio, o alto comércio, o comércio de tudo e para todos.
Nos bairros o comércio deixava muito a desejar, era pequeno, muito espalhado, não satisfazia em absoluto às necessidades da população.
Os bairros eram quase 90% residenciais; havia ruas e ruas sem uma casa de comércio.
O comércio do bairro compunha-se de algumas lojas de fazendas, mal sortidas, um ou outro armarinho, algumas farmácias pequenas, padarias, vendas, raros armazéns de secos e molhados, vidraceiro, folheiro, especializado no fabrico de baús de folha de todos os tamanhos e pintados a óleo, alguns tendo como ornamento, também a óleo, grotescos ramos de rosas; vários ferreiros, cujo trabalho principal era fazer ferraduras, serviço esse em grande escala naquela época.
Ir à cidade, para as famílias do interior que vinham conhecer São Paulo, era um acontecimento, um dia de festa.
E também para os moradores daqui, não era menos agradável e divertido, levar à cidade um parente, um amigo que não conhecia São Paulo.
E daí, os freqüentes gracejos e piadas em família:
- Olhe, cuidado, não vá deixar cair o queixo!
-Cuidado, não vá ficar tonto com o povo na rua!
-Mamãe, eu quero ir na casa de brinquedos.
-E', mas não atormente a sua tia, não tem que pedir nada, nem mexer em nada, ouviu?!
E era assim nessa atmosfera singela de curiosidade, alegria e bom humor que se faziam as freqüentes visitas à cidade para conhecer São Paulo de perto.
Com relação à vida diurna da cidade, não podemos deixar no silêncio os tipos de rua, peculiares aquela época, alguns desaparecidos hoje, outros ainda existentes, porém melhorados, tais como: o mascate turco, depois sírio, com o seu práquepráque monótono, em peregrinação paciente pelas ruas e bairros da cidade; o folheiro a chamar a freguesia com o seu tímpano metálico; o vidraceiro carregando vidros para janelas e quadros; o peixeiro carregando cestas com peixes e fazendo o reclame pela boca: peixe do mar, tainha fresca, camarão fresco, o vassoureiro carregando vassouras, cestas de vários tamanhos, vasculhadores, etc.; o homem do realejo, um italiano bigodudo , recentemente vindo da terra, com brincos de ouro em forma de argola e um chapéu atravessado por uma pena, carregando um pesado realejo e um macaquinho preso por uma correia, a atrair a atenção da garotada com as sua freqüentes macaquices; o homem do urso, fazendo o animal dançar ao som de um pandeiro, para em seguida coletar os vinténs e 40 réis de cobre tão em uso naquele tempo, fornecidos pelos curiosos que logo afluíam para apreciar o, animal de perto; o homem do Divino, que levava a bandeira do Divino de casa em casa, a angariar esmolas para a respectiva paróquia; os baleiros vendendo balas em uma bandeja, sustentada por uma correia de couro passada pelo pescoço; o amolador, transportando pelas ruas e pedra de amolar, num carrinho, fazendo da garganta a sua buzina: amolador, amolador! Mais tarde era com o pedaço de arco de barril que, agitado pela pedra, dava um som estridente.
O vendedor de garapa e cana descascada, guiando uma carrocinha, fechada, puxada por um burro, dentro da qual havia um pequeno engenho movido a mão.
O pipoqueiro vendendo pipoca e amendoim torrado e que cantava esta e outras modinhas:
Se essa rua fosse minha
Eu mandava ladrilhar
Com pedrinhas de diamante
Para o meu bem passar!
Pipoca Yoyô
Pipoca Yayá
Pipoca, amendoim torrado!
O vendedor de batata doce, a gritar: 'batata doce assada forno, está quentinha!'"