O Cassino Paulista-Bijou

O Cassino Paulista, inaugurado em 1898, com o nome de Eldorado, foi também, durante algum tempo, conhecido por Eden. Ele ficava bem ao lado do teatro Politheama, na avenida São João, à altura da passagem de nível do trânsito (buraco do Adhemar). Ambos os teatros desapareceram num incêndio em 1914.

A aventura dos ambulantes no cinema

Quem berrou, torcendo pelo mocinho, nos antigos programas duplos dos cinemas populares, pode imaginar como eram turbulentas as sessões cinematográficas do começo do século em São Paulo. Recém-chegado, o cinema parece ter encontrado uma platéia disposta a tudo, menos a mostrar com um reverente silêncio seu pasmo diante da novidade.
Só que o cinema recrutara suas primeiras legiões de adeptos nas camadas para as quais os representantes da lei, inspiradores do mocinho, nem sempre encarnavam a Justiça e todos os aplausos iam para o bandido, conforme pôde verificar o cronista de O Alpha, de Rio Claro, assistindo a uma exibição realizada em 1909, num circo que ocupava a área onde hoje é a Catedral de São Paulo.
Grande algazarra e bater de bengalas e os gritos de "começa, está na hora". De repente, um sino detrás do pano, dá um sinal. Os espectadores irrompem numa salva de palmas. Alguém do galinheiro levanta e comanda: — " Maestro, toca a orquestra ". Os músicos obedecem e atacam a marchinha " Vem Cá, Mulata ", acompanhada pelas vozes e assobios da garotada. Cessada a música há outro toque de sino e as luzes se apagam. Começa o filme "As Aventuras de um Ladrão", em que um ladrão, após roubar a bolsa de uma senhora, foge dos soldados, usando muitas artimanhas. O público aplaude o ladrão e vaia os soldados.

As primeiras exibições

Coube ao fotógrafo francês George Renouleau, residente em São Paulo e genro de Jules Martin, o idealizador do viaduto do Chá, apresentar o cinema aos paulistanos, realizando uma curta temporada de exibições, em agosto de 1896, poucos meses depois de Paris mostrar ao mundo os primeiros filmes produzidos.
Após essa temporada pioneira, o cinema só volta a aparecer no noticiário dos jornais em fevereiro de 1898, quando se apresentava no Teatro Apolo (ficava onde, hoje, é o viaduto Boa Vista) o médico carioca Cunha Sales e seu projeto Lumière.

O vendedor de ilusões

Cunha Sales era bem o representante típico dos pioneiros da exibição cinematográfica, aventureiros nômades que se deslocavam com seus projetores e filmes para onde houvesse um potencial de público e cujo trabalho disseminou o cinema pelo mundo.
Ele se tornara famoso no Rio por ter lançado um discutido tônico, Vigolina, contra os males da velhice. Depois, trocou a mágica poção pelo negócio de entretenimentos, criando o Panteon Ceroplástico (ou seja, um museu de cera) que manteve acesas as chamas de sua fama. Finalmente, aderira ao cinema.

A lanterna mágica

Cunha Sales ficou algumas semanas em São Paulo e, ao ir embora, o cinema sumiu outra vez da cidade.
Talvez, esse aparente desinteresse pela diversão que viria arrebatá-la, anos mais tarde, seja explicado pela existência, à época, de aparelhos cujos efeitos, embora menos espetaculares, assemelhavam-se aos dos projetores cinematográficos. O historiador Nuto Santana refere-se ao alemão Benjamin Schalch, morador na antiga rua do Príncipe (Quintino Bocaiúva), que, desde 1889, fazia exibições aos amigos e conhecidos, com um desses aparelhos, a lanterna mágica, milenar invenção chinesa, predecessora dos atuais projetores de slides. A lanterna mágica de Schalch funcionava à base de um gás por ele próprio fabricado, já apresentava imagens com alguns movimentos, como " o bigodinho dorminhoco, engolidor de camundongos ".

Kinetoscópio etc.

Lanternas mágicas aperfeiçoadas, todas ostentando estranhos nomes, começaram a aparecer em São Paulo, propositadamente apresentadas como o cinematógrafo, projetor construído pelo francês Louis Lumière , e base do cinema, tão logo os jornais divulgaram a invenção chamando-a de " a maravilha do século ".
Da fama do aparelho criado por Lumière aproveitou-se também o Kinetoscópio , de Thomas Edison , que projetava filmes dentro de uma grande caixa, munida de uma lente para visão individual. O Kinetoscópio , apresentado como cinematógrafo, apareceu em São Paulo, pouco antes das exibições de Renouleau.

O homem do animatógrafo

Contudo, a partir de 1899, intensifica-se a concorrência entre os ambulantes. A Confeitaria Progredior, na rua XV de Novembro, 35 (correspondente ao número 240 atual, ocupado pelo Banco do Canadá), programa em abril uma série de projeções inaugurando uma tradição que, um pouco mais tarde, seria seguida por outras famosas confeitarias de antigamente.
Dois meses depois das exibições da Progredior , baixa em São Paulo um veterano empresário cujo trabalho animará a vida cinematográfica nos próximos três anos, para abrir ao lado da então redação de O Estado de S.Paulo na rua XV, o salão New York em São Paulo . É ele o italiano Vítor de Maio que, já em 1891, ao chegar ao Brasil, começara a explorar no Rio uma lanterna mágica aperfeiçoada, denominada por ele de animatógrafo .
Dotado de incrível gênio para reinventar nomes, Vítor, ao tornar-se exibidor cinematográfico em Petrópolis, conseguira aumentar, consideravelmente, o interesse do público pelos filmes, com o costume de rebatizar seus títulos. Arrivé d'un train , de Lumière, por exemplo, virara A Chegada de um Trem em Petrópolis .
O talento publicitário de Vítor de Maio também dá certo por aqui. Seu salão chega ao novo século, para desaparecer só em junho, quando ele o abandona, fugindo dos credores e da cidade. Mas, não por muito tempo. menos de três meses depois, Vítor está de volta para inaugurar, a 12 de setembro, o salão Paris em São Paulo. Sua nova casa resiste até 1902, uma longa duração pelos padrões da época. Foi responsável pelo lançamento em São Paulo da primeira tentativa de sonorização do cinema, chamado cinema-falante (conjugação de cinematógrafo e fonógrafo). A inauguração do cinema-falante , em 12 de junho, provocou enorme confusão na cidade. Usando mais um dos seus truques promocionais, Vítor de Maio resolveu franquear a primeira sessão ao público. Tamanha foi a multidão presente, que a polícia resolveu impedir a exibição, ocasionando revolta e corres-corres.

Na rota dos ambulantes

Também no último ano do século, o Interior conhece o cinema. A bordo do trem de ferro, o meio de transporte preferido dos primeiros ambulantes, o alemão Kahurt inicia a 8 de março, em Taubaté, o périplo que o tornará pioneiro das exibições em várias cidades paulistas. Kahurt atinge São Carlos em 11 de junho, de lá vai a Araras e desloca-se para o rico mercado de Ribeirão Preto. Para melhorar a performance, diante da frieza com que foi recebido nas cidades visitadas, Kahurt refaz sua estratégia: ao chegar a São José do Rio Pardo, em 29 de setembro, apresenta-se gratuitamente no teatro local, despertando o irônico comentário do correspondente de O Estado de S.Paulo: Sendo o quadro muito apreciado pelo público, que não deixou por tal preço de encher o teatro .
O fato é que o pouco sucesso da primeira viagem de Kahurt não o faz desistir. Durante vários anos, ele refará a rota, em várias viagens intermitentes, pelo menos até 1910, quando vamos encontrá-lo em Araraquara, na sua última aparição rastreada nos jornais. Outros ambulantes aproveitam a trilha aberta e vão alimentando o nascente gosto pelo cinema, entrecruzando-se num contínuo vai-e-vem, durante anos. Mesmo as cidades menores logo recebem a novidade. O sr. Miguel Rizzo faz projeções pioneiras no Teatro Municipal de Batatais e no Teatro São João , de São Roque, em dezembro de 1900. Barra Bonita vê as primeiras imagens em movimento pelas mãos do sr. Atílio Volpi, em julho de 1901. Não tarda e os ambulantes mais argutos já se apresentam como companhias: a Sul América , a Rosa Oliveira, a Pereira&Cia , a Menir&Cia .

O circo de cavalinhos

Na sua conquista do Interior, o cinema foi muito ajudado pelos circos de cavalinhos , diversão de remota origem, cujo nome derivava de sua principal atração, o carrossel de cavalinhos de pau.
Os primitivos circos de cavalinhos eram movidos a muque ou a tração animal. Por volta do começo do século, eles adotam o vapor d'água — ao lado ficava a caldeira alimentada por lenha, igual a antigas locomotivas. Na mesma época, os circos de cavalinhos incluem o cinematógrafo entre suas atrações.

O Paulicéia Fantástica

Enquanto isso, na Capital, um velho sobradinho existente no número cinco da antiga rua do Rosário (João Brícola), já se notabilizara por causa do cinema. Nele, funcionou, primeiro, o salão Paris em São Paulo , de Vítor de Maio, ambos nossos conhecidos. Vítor muda seu cinema para a rua São Bento, mas volta a ligar-se ao antigo endereço, fundando, num de seus andares, a Maison Modern e, casa de frios e bebidas finas.
A vocação do sobradinho para os filmes não fôra, entretanto, sufocada. Em dezembro de 1901, ele passa a ser sede de outro cinema de sugestivo nome: Paulicéia Fantástica, tendo como gerente certo sr. Francisco Matarazzo (seria o lendário industrial que, na década de 20, também se dedicaria à distribuição de filmes?). O velho sobradinho foi demolido para dar lugar ao prédio n.º 39 da João Brícola.

Primeiro cinema

O Paulicéia Fantástica foi o primeiro local de exibições a ser chamado de cinema pelos jornais. Teve, porém, funcionamento intermitente e vida curta (fechou em 1903), não chegando a inspirar o conceito da exibição cinematográfica como atividade fixa. Isso só vai acontecer em 1907, com a chegada de Francisco Serrador, o mais bem-sucedido dos primeiros ambulantes.
Serrador nasceu em Valência, Espanha, e chegou ao Brasil no ano de 1887, aos 16 anos. Durante algum tempo foi operário em Santos, mudando-se para Curitiba a fim de explorar um quiosque — primeiro de uma série — destinado à venda de café, bolinhos e outras guloseimas. Isso permitiu-lhe o contato com o cinema. Por volta de 1902, ele já fundara o Coliseu Curitibano , complexo de diversões, do qual fazia parte um cinematógrafo. Dois anos depois, nasce a Richembourg , sua primeira empresa de exibição, operando através de projetores e fitas levados por troupes ambulantes às cidades do Interior.
Ao trocar Curitiba por São Paulo, em 1907, Serrador, à semelhança dos outros ambulantes, vagou pela cidade, até fixar-se num pequeno teatrinho, o Cassino Paulista , que funcionava ao lado de outro famoso teatro da cidade, o Politheama . Serrador faz ampla reforma no Cassino Paulista e, em 16 de novembro, reinaugura-o com o nome de Bijou . Imediatamente, dezenas de outras casas semelhantes surgiram, marcando o princípio do declínio do cinema nômade .

Simbólica vingança

A esta altura, o cinema já não era só, há muito, o divertimento mais popular; convertera-se numa espécie de instrumento através do qual seu público — constituído, principalmente, da parte menos favorecida da população — exercia uma espécie de simbólica vingança contra o sistema vigente.
Protegidos pelo escurinho e incitados pela imagem, os espectadores chegavam a manifestações que não ousariam em outras situações. Logo, os políticos da época tornaram-se o alvo ideal de grandes vaias e o primeiro deles a mostrar a cara no cinema inaugurou o tipo de recepção que, até hoje, espera os figurões nos cine-jornais.

Obra aberta

Tivesse vivido em nossos dias, Campos Sales sentir-se-ia muito bem dentro dos moldes recomendados pelo atual FMI. Como presidente da República, ele adotou uma política recessiva, a fim de equilibrar as finanças, provocando numerosos problemas sociais e granjeando a antipatia de muita gente, prontamente refletida nas suas aparições cinematográficas (foi o primeiro dos nossos homens públicos a povoar os filmes). A confusão que armava ao aparecer nas telas era tamanha que, certa vez, um humilde ambulante, por causa dele, tornou-se o autor da provável primeira obra aberta do cinema brasileiro.
São José do Rio Pardo, novembro de 1901. O sr. Magno alcançou grande audiência com seu aperfeiçoado cinematógrafo. Do programa constava um filme em que iam se sucedendo os chefes da nação brasileira, enquanto a orquestra brindava o público com o Hino Nacional. Aclamações entusiásticas para o marechal Deodoro; o marechal Floriano e o dr. Prudente de Morais são acolhidos com uma prolongada salva de palmas. Finalmente, chega a vez de Campos Sales... e o constrangedor silêncio. No dia seguinte, repete-se o mesmo espetáculo, sendo do mesmo modo aclamados os diferentes chefes da Nação, menos o dr. Campos Sales, que não sabemos como nem por que foi substituído pelo glorioso artista brasileiro Carlos Gomes, que foi muito vitoriado, tocando a música, um trecho de O Guarani .

Semana Santa, 1901

A fórmula política no cinema mostrou-se muito mais explosiva ainda ao ser-lhe acrescentado o latente anticlericalismo da época, suscitando o primeiro grande conflito provocado por filmes em São Paulo, durante a Semana Santa de 1901.
As opiniões já vinha se exacerbando em dias anteriores devido a uma polêmica entre o médico positivista Tobias Barreto e o abade do Mosteiro de São Bento , Miguel Krause. Tobias escreveu uma série de artigos, nos quais acusava a religião católica de ser a causa de nosso subdesenvolvimento. O abade replicou-lhe e o monarquista Eduardo Prado veio em seu socorro. A coisa complicou-se, porque entre o médico positivista e o advogado monarquista também havia divergências pessoais. Barreto fôra dono de uma chácara na alameda dos Bambus (hoje, avenida Rio Branco) que, por dificuldades financeiras, parara nas mãos de dona Veridiana Prado , mãe de Eduardo .
O calor da polêmica energizou parte da população, surgindo manifestações contra uma exposição religiosa no largo de São Bento e uma peça encenada por uma companhia espanhola no teatro Santana (antigo Apolo) Há algum tempo, começara a funcionar, num sobrado da rua do Rosário, uma empresa de anúncios elétricos, que projetava filmes nos altos da casa Levy da rua XV (a casa ainda existe, funcionando em Pinheiros). No dia 9 de abril de 1901, a partir das oito horas da noite, uma pequena multidão postara-se em frente à loja para ver o espetáculo.
Entre os filmes exibidos, apareceram vários sobre a Inquisição. O público se dividiu: um grupo vaiava, outro aplaudia. Algumas dezenas de pessoas foram até a redação do jornal anticlerical A Lanterna , na rua do Comércio, para ouvir um pequeno discurso do seu diretor Benjamin Mota. A esta altura, já era muito grande o movimento das ruas centrais. Devido ao clima dos últimos dias, o largo de São Bento estava guardado por vários cavalarianos. Ao chegar ao largo, os manifestantes, impedidos de aproximar-se do mosteiro, prorromperam em intensa vaia contra os policiais. Quase vítima fatal dos incidentes: um humilde vigário da cidade de Santa Branca que, justo na hora das manifestações no largo, terminava a primeira viagem de bonde de sua vida, vindo do bairro do Bom Retiro. Foi intensamente vaiado e só se livro do linchamento através da proteção dos soldados. Teve de dormir sob a guarda dos cavalariços




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