Eram quase três quilômetros no alto de um morro, o Caaguçu, que impedia a cidade de avançar rumo ao sul. Já havia uma trilha pomposamente chamada de rua Real Grandeza e casas que começavam a se adensar ao norte, na subida da Consolação. O resto era mataria e lá, no extremo, um caminho que trazia as boiadas do distante bairro de Pinheiros. Num abrir e fechar de olhos, virou a Paulista.
Uruguaio
O homem que imaginou a Paulista chamava-se Joaquim Eugênio de Lima. Uruguaio, viajado, exigente e de grande tino empresarial. Anteviu naquele espigão — divisor dos vales do rio Pinheiros e Tietê — uma bela oportunidade para um empreendimento imobiliário.
Plano
Joaquim Eugênio de Lima não voava baixo. Exigiu do agrimensor Tarquínio Antonio Tarant um projeto de avenida totalmente plana. Exigência cara. Toda a baixada que serviria ao leito da então futura 9 de julho, exigia também um gigantesco aterro.
Nessa altura, 1890, associado a dois outros capitalistas, Joaquim Eugênio de Lima já comprara os primeiros terrenos para o empreendimento, do fazendeiro José Coelho Pamplona. Faltava comprar uma chácara que estava dentro da área prevista para o projeto. Havia pressa, naquele mesmo ano também a Bela Sintra foi comprada.
Inauguração
Num prazo inacreditável, aterros e cortes sucederam-se. A 8 de novembro de 1891, inaugurou-se a Paulista.
Arborizada
De alto a baixo arborizada com plátanos e magnólias, a Paulista recém-inaugurada ostentava pedregulho branco, linhas de ferro para os bondes puxados a burro, duas pistas para carruagem e duas para cavaleiros.
Constituía-se num irresistível convite para os milionários. Eles não se fizeram de rogados. No início, mansões marcadas pela arquitetura provinciana ou simplesmente copiadas de fora. Mais tarde, trabalhos de arquitetos mais conceituados. O conde Matarazzo não deixou por menos. Importou da Itália o arquiteto preferido de Mussolini, Piacentini.
Sossego
Para sossego dos moradores, os enterros, com as exceções de praxe, não podiam passar. O bonde elétrico, esse sim, foi bem vindo. Chegou a 24 de junho de 1900, dois meses apenas depois da inauguração da primeira linha.
E linha quase exclusiva. No trabalho dos bondes, a nata da equipe. A rua Augusta, já um ponto chic, sinalizava o fim da linha. Dentro em pouco o cruzamento virou lugar de encontro e palco de eventos.
Trianon
Onze anos depois, surgiu na Paulista o Trianon. Pavilhão de dois

andares, abrigando o conjunto formado pelo "belvedere", bar, restaurante, salão de chá e jardins de entorno. Havia o salão de honra onde, "com pessoal habílissimo, o Trianon oferecia a vantagem de evitar às exmas. famílias a desorganização das suas residências para os dias de solenidade".
O Trianon ainda oferecia "às exmas. famílias um rende-vous inigualável, com serviço de refeições sob encomenda e magnífica adega onde se encontram as grandes marcas de vinho e as champagnas mais afamadas". Dirigia tudo o proprietário, sr.Luiz Rossati (foto), que ainda vai ter longa vida profissional na paulista. Estará à frente do Terraça Martini, (depois, Terraço Fasano) no futuro Conjunto Nacional da Paulista.
Fim
O Trianon morre cedo, não chega aos 40 anos.Enterra-o um baile carnavalesco realizado a 11 de fevereiro de 1950 sob o sugestivo nome de "O Triunfo do Mau Gosto".
Por esse tempo, uma nova Paulista está nascendo. Caotiza-se o trânsito. Em 1929, com a crescente industrialização de S.Paulo, sua primeira população começa dar lugar para os novos ricos, indo refugiar-se nos Jardins. Velozmente, caem as mansões de linhas ecléticas cedendo espaço aos arranha-céus. Algumas famosas casas de modas ainda encontram lugar na Paulista. Mme. Rosita, vinda da Barão de Itapetininga. A tradicional Sloper, transferindo-se em 64 da Direita. A Casa Vogue, nascida lá mesmo. Todas se finam na Paulista. No lugar do Trianon, ergue-se o Masp.