Prá tudo terminar na quarta-feira

"Em certa época do ano, a vida austera e rotineira era esquecida, para ceder lugar às loucuras dos três dias de carnaval. Era sobretudo o desbragado divertimento do entrudo que empolgava a população brasileira. Desde o palácio do imperador, até a mais humilde habitação, grandes e pequenos, até mesmo pessoas idosas, todos dominados por insopitável frenesi, tomavam parte apaixonada nessas batalhas de água, até ficarem encharcados - ou, antes, até esgotarem todo o precioso líquido disponível.
Constituía essa folgança um rendoso comércio para as mulheres que preparavam as "laranjinhas" e que vendiam incontáveis tabuleiros daquelas lindas bolas de variadas cores, - feitas de cera finíssima e cheias de água, que se rompiam facilmente quando atiradas sobre um adversário. Alguns, mais exagerados, invadiam as casas dos parentes e amigos (e até mesmo de estranhos!), na ânsia de provocar batalhas. Acabadas as "laranjinhas" e impossibilitados de substituí-las, lançavam mão de canecas, bacias e jarros cheios de água, que atiravam nos amigos já molhados, sofrendo logo revides, até ficarem as salas inundadas. No entanto, bem pouco interessante era no dia seguinte o número dos doentes - o que não impediu que tal divertimento imperasse durante longos anos."

Memórias de Maria Paes de Barros. Livro: No Tempo de Dantes



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