As atribulações de um carteiro nas ruas de Cerqueira César

"Às dez horas em ponto, Chocolate levantou-se e deu-me as últimas instruções.
—Tome o bonde "Pinheiros" e desça na rua Teodoro Sampaio. Quando chegar ao nº 83, volte pelo lado par até a rua Arcoverde; não se esqueça desta carta, que está de costas, pois a destinatária quer que seja entregue na quitanda defronte. Volte à rua Teodoro Sampaio e siga até Oscar Freire. Suba Capote Valente, pelo lado par, e desça pelo ímpar. Quanto a estas amostras e impressos, deixe tudo aí.
As cartas representavam três respeitáveis sanfonas. Agradeci e convidei Chocolate para uma média no Café Brasileiro, parada obrigatória dos carteiros, que ficava na esquina da rua 15 de Novembro com o largo do tesouro. Ao tomar o bonde, ainda ouvi uma voz estridente, que dizia:
—Avulso 7, boa viagem! Que truta, hein? Quá, quá, quá".
Era o avulso 3, que se ria da minha desgraça.
Para aumentar meu desespero, caía uma garoa fina, penetrante, gélida. E eu sem abrigo algum. Ao saltar na rua Teodoro Sampaio, a garoa progredira;agora era chuva, impertinente e compacta, acompanhada de um vento irritante, zunindo por entre os ramos das árvores. Abriguei-me por instantes, num bar. Os pensamentos mais desencontrados perpassaram-me pelo cérebro. Já estava com saudade da fábrica. Lá, o trabalho era duro, mas ao abrigo das intempéries.
Lembrei-me das palavras do avulso 3 e senti vontade de "enforcar" tudo e voltar dali mesmo. Quantos outros já não teriam feito isso? O anjo bom, porém, prevaleceu. Lembrei-me da ansiedade e simpatia com que eu aguardava cartas, lá em Barretos. Quantas mães e noivas estariam nessa situação, ali no distrito? Olhei para o trecho lamacento da rua Arruda Alvim e resolvi "entregar a mensagem a Garcia".
Duas horas mais tarde, ao alcançar a rua João Moura, já não mais se distinguia a cor dos sapatos, que produziam um ruído de seringa de borracha espremida. Arregaçara a barra das calças, para protegê-la, mas pouco adiantara. A água escorria pelo boné abaixo, descendo pela nuca, até a camisa e à camiseta. Além disso, era obrigado a aturar o mau humor e as reclamações dos destinatários:
—Antes desta carta, o remetente escreveu-me mais duas. Onde estão?
—Por que este jornal está assim molhado?
—Esta carta trazida por tartaruga teria chegado mais depressa!
Eu procurava conter-me, pois se fosse falar tudo quanto tinha vontade de dizer, talvez não voltasse, aquele dia, á repartição.
Quase no fim da desastrosa jornada, cheguei a uma travessa. Amparando-me numa cerca de arame farpado para não tombar, cheguei à última casa, onde se abriu, imediatamente, uma persiana e assomou à janela uma garota encantadora, toda trêmula, parecendo estar à minha espera.
—Senhorita Ivone de tal?— indaguei.
—Sou eu, sim, muito obrigada, "seu" carteiro! —disse, sorrindo com beatitude e estendendo sua bela mão.
Apanhou a carta, sempre sorrindo, e desapareceu por trás da cortina.
Satisfeito com a bela visão, uma réstea de sol naquela manhã tenebrosa, atravessei a rua, realizando prodígios de equilíbrio. A lama parecia sabão. Na casa fronteira, uma velhinha, de xale na cabeça e expressão de bondade no semblante, já me esperava no terraço. Foi com verdadeira emoção que recebeu a carta que lhe entreguei. Seu rosto iluminou-se, num suave sorriso, onde se misturavam as lágrimas de incontida satisfação.
—Ah! Graças a Deus! É do meu filho, do meu querido Joãozinho! Deus lhe pague, mocinho!
Desde esse momento, certamente devido aos dois episódios, que me tocaram realmente o coração, tudo pareceu transformar-se. A chuva continuava a fustigar-me, impiedosamente, mas já estava confiante e disposto em levar minha missão a bom término.

O texto acima foi extraído do livro "Memórias de um Postalista" de Jacob Penteado


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