Chácara do Comendador Sousa Barros

Quando dona Maria Paes de Barros fez cem anos, em 1951, os jornais dedicaram-lhe grandes espaços para entrevistas. De extraordinária lucidez, ela conseguira notoriedade com a publicação de livros, já em idade avançada, e com atitudes políticas ousadas como as manifestações públicas de simpatias à extinta União Soviética, atitudes surpreendentes para quem pertencia a uma das mais aristocráticas famílias paulistas.
Aos 94 anos, d. Maria editara, Nos Tempos de Dantes, livro prefaciado por Monteiro Lobato. Era uma obra preciosa, pois continha suas memória de infância, plenas de revelações sobre os costumes familiares de São Paulo do século XIX.
Filha do comendador Luís Antonio de Sousa Barros, um dos mais ricos e famosos cidadãos paulistanos de sua época, d. Maria Paes de Barros passara os seus dias de criança numa luxuosa chácara no, hoje, centro da cidade. A chácara dos Sousa Barros tinha sua frente entre as atuais praça do Correio e Largo do Paissandu. Estes dois logradouros, inclusive chamados na época, respectivamente de Acu e Largo do Tanque de Zuniga, estavam dentro da propriedade.

Águas venenosas

Os fundos da Chácara estendiam-se até os limites do bairro de Santana. No Largo do Tanque Zuniga, tinha nascente o rio Iacuba, cujo nome, transformou-se por modificações e simplificações, na palavra Acu, denominação antiga da área ocupada pela praça do Correio e redondezas.
O riacho Iacuba, na sua rota para encontrar-se com o rio Anhangabaú, logo abaixo, passava próximo à confluência da rua Brigadeiro Tobias com a Ladeira Santa Efigênia. Ali a chácara do comendador Sousa Barros confrontava-se com a chácara do brigadeiro Tobias de Aguiar.
Casada, em segundo núpcias, com o brigadeiro Tobias de Aguiar, a Marquesa de Santos foi morar numa casa construída junto à esquina daquela duas ruas. Em frente à casa, ficava a Biquinha do Acu.
Iacuba quer dizer água venenosa. Em 1791, informa Afonso A. de Freitas, submetida a exame, a água da Biquinha do Acu revelou-se "muitíssimo férrea e fria, ácida vitriólica", com tênues partículas de arsênico e "sumamente saturada de gás metífico". No livro Nos Tempos de Dantes, ao falar no casarão em que passou sua infância, d. Maria Paes de Barros cita-o como "um grande sobrado, um tanto fora da cidade. Naquela época, São Paulo mal ultrapassara o seu núcleo original.
Em 1882, retalhada a chácara, demoliu-se o seu casarão. Sete anos depois, aos 78 anos, Antonio Luis de Sousa Barros morreu.
Ela era filho do Brigadeiro Luís Antonio de Souza Queiroz (o da avenida), irmão do Barão de Limeira (Vicente de Sousa Queiroz) e do Barão de Sousa Queiroz (cel. Francisco Antonio de Sousa Queiroz). Sousa Barros foi o primeiro prefeito de São Paulo, de 5 de maio a 21 de novembro de 1835. O cargo, após a passagem de alguns outros titulares, também de breves mandatos, foi logo extinto para ressurgir só vários anos depois.
Acostumada a conviver, na infância, com as grandes personalidades políticas, parentes e amigas do seu pai, Dona Maria Paes Barros casou-se com um primo, Antonio Paes de Barros que também tornou-se senador, já no período republicano. A carreira de Antonio Paes de Barros, porém, logo seria interrompida por uma doença que o afastou da vida ativa, e dona Maria foi obrigada a assumir a liderança da família.
Esvanecida a riqueza familiar, ela, em plena maturidade, encontrou forças para realizar alguns trabalhos significativos, entre eles, a publicação, em 1932, de uma História do Brasil. Foi ainda a fundadora do primeiro Tênis Clube de São Paulo, diretora da Maternidade de São Paulo e membro ativo da Igreja Presbiteriana de São Paulo.


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