O antigo DEOPS e suas
técnicas de torturas

Oswaldo Lourenço

Ex-líder sindical dos portuários santistas Fundador da Confederação Brasileira dos Aposentados-COPAB Presidente do Sindicato dos Aposentados e Pensionistasd,Ferroviários e Demais Categorias do Estado de São Paulo –SINDAFER-SP
(Este texto faz parte do livro de memórias COMPANHEIROS(AS) DE VIAGEM, que o autor lançará em breve)

Construído em 1914, pelo famoso arquiteto Ramos de Azevedo, o prédio do DEOPS, na rua Mauá, 60 e praça General Osório, 66, servira antes como um armazém da Estrada de Ferro Sorocabana. Em 1949, para lá se muda o Departamento de Ordem Política e Social, criado vinte cinco anos e mais tarde conhecido também pelo DEOPS.
Desde o seu início, o DEOPS dirigiu a maior parte de suas atividades contra os movimentos operários, primeiro contra os anarquistas e, logo depois contra os comunistas. Essa orientação só foi quebrada, em parte, durante o período da Segunda Guerra Mundial, quando os agentes policiais concentraram sua atenção sob os chamados “súditos do Eixo” (japoneses, alemães e italianos).
Com o golpe de 64, o DEOPS começaria a viver os seus dias mais “gloriosos”. Nas semanas seguintes, artistas e celebridades, como Maria Della Costa, seu marido Sandro Polônio e muitos outros seriam chamados para prestar depoimentos, sempre na presença de um grande número de jornalistas.
Logo depois do 1º de abril daquele ano, numa de suas dependências, a delegacia realizou uma mostra sobre o material apreendido em diligência recente. Na noite da inauguração, de que participou Adhemar de Barros, o governador do Estado de São Paulo na época, ao lado de revistas e livros ditos subversivos, o público pôde ver também pessoas presas durante as diligências, expostas ali como animais num zoológico.
Entretanto, nos primeiros anos do regime militar as torturas no DEOPS, pelo menos em relação aos abusos físicos, pouco ia além do esporádico. A prática só se tornaria rotina, após a decretação do Ato Institucional nº 5, em 13 de dezembro de 1968.
Transferido do DEIC para o DEOSP, o delegado Sérgio Paranhos Fleury trouxe com ele toda a equipe do Esquadrão da Morte, que chefiava no primeiro departamento. Sádico, Fleury, freqüentemente fazia questão que outros presos assistissem a sessão de tortura de um companheiro. Quando a pessoa tentava desviar o olhar da cena, Fleury a obrigava a desvirar o rosto e a encarar o corpo ensangüentado.
Os rapazes do Esquadrão da Morte introduziram no DEOPS as várias técnicas de torturas que já eram largamente empregadas contra os presos comuns. Algumas dessas técnicas:

Cadeira ou trono do dragão Amarra-se a pessoa numa cadeira com muitos eéltrodos.Com o corpo molhado,a intensidade dos choques torna-se mais forte.
Clister elétrico Descargas elétricas na região coccígea que provocam relaxamento dos esfíncteres
Corredor polonês Passagem forçada entre duas alas de torturadores que golpeiam a vítima
Ferrinhos Ferros que são enfiados sob as unhas
Galeto Vítima pendurada no pau-de-arara debaixo da qual se acende um fogo
Hidráulica Ingestão forçada de grandes quantidades de água
Latinhas Latas com as bordas cortantes sobre as quais a vítima é obrigada a ficar com os pés descalços até que as bordas penetrem na carne
Manivela Aparelho para choques elétricos, manobrado à manivela
Mesa elástica Mesa de tortura móvel e prolongável
Mesa operatória Mesa de tortura
Hóstia sagrada Descargas elétricas sobre a língua
Palmatória Instrumento de madeira, em geral furado, com o qual é golpeada a vítima
Pau-de-arara Pau que é enfiado debaixo dos joelhos dobrados da vítima, que passa entre os braços com os pulsos amarrados entre eles. A vítima é depois pendurada no pau apoiado em dois cavaletes
Roleta russa Revólver carregado somente com uma bala., com o qual se atira às cegas sobre a vítima
Submarino Imersão forçada e afogamento parcial
Telefone Golpes com a mão côncava nas orelhas para provocar a ruptura da membrana do tímpano

No DEOPS, a Cela 3 funcionava como a carceragem feminina. Para a prisioneiras políticas, a equipe de Fleury criou um método de tortura, ao que parece, até então, não aplicada a presos comuns: a injeção de éter nos pés. O procedimento provoca dores atrozes que demoram horas.
As sessões de suplícios diante de pessoas especialmente “convidadas” parece ter sido também uma inovação introduzida pelo pessoal do Esquadrão da Morte. Fleury sentia mais prazer quando se tratava de um casal envolvido conjuntamente no movimento. Nesse caso, a prisioneira era trazida para assistir à sessão contra o marido, ou namorado.
O não envolvimento de parentes com as atividades de um acusado, entretanto, nem sempre os privava de receber os “convites”. Realizavam-se, por exemplo, sessões de “pau arara”, com a assistência de familiares da vítima.
Às vezes, nessas sessões, além da conjugação dos dois métodos de torturas, o próprio “pau de arara” e a presença dos familiares, acrescentava-se um terceiro: os choques elétricos ou a introdução de objeto perfuro-cortante no ânus. No tocante às presas, havia ainda outro método, seu desnudamento diante dos torturadores. Entre eles, esta técnica era chamada de “strip-tease”.
Sistematizada pelo DEOPS, a tortura contra os presos políticos foi imediatamente adotada pela OBAN (depois DOI-CODI), e por seu intermédio, viria a tornar-se uma triste página na história das Forças Armadas Brasileiras. Com bases nas denúncias, uma organização internacional conseguir fazer um esquema dos métodos de tortura usado nas prisões e nos quartéis brasileiros.
1- Métodos biológicos: fome e sede; posições forçadas; isolamento total e prolongado; calor e frio; cheiros repugnantes, luzes contínuas ou ofuscantes; sons angustiosos etc.
2- Métodos físicos: a) mecânicos: parciais sufocamentos, estrangulamentos, afogamentos etc; esticões do corpo; torções; fraturas; desobturação dos dentes; perfurações; suspensões; compressões; traumatismos; cortes; queimaduras; castrações; violências sexuais; etc. b) elétricos: com eletrodos móveis no corpo; com aparelhos fixos etc.
3- Métodos químicos e farmacológicos: substâncias urentes ou dolorosas nas mucosas oculares, nasais, orais, anais e genitais, gases lacrimogêneos; substâncias derivadas do curare; substâncias psicomiméticas etc.
4- Métodos psíquicos: a) diretos: ameaças de morte; execuções simuladas; torturas morais; ofensas à honra e ao pudor; chantagem etc. b) indiretos: assistência forçada a torturas de outras vítimas; ameaças de violência sobre outras vítimas ou me pessoas que se quer bem etc.
5- Métodos microbiológicos: tentativas de transmissão de doenças contagiosas como lepra etc.
6- Métodos com o uso de animais: insetos que picam ou repugnantes, cobras, ratos esfomeados, jacarés, cachorros ou outros animais que mordem; animais perigosos colocados nas celas ou nos lugares de reuniões forçadas; cobras ou animais repugnantes colocados nas partes íntimas de pessoas amarradas etc.
Embora nem sempre os torturadores desejem deixar marcas mais visíveis nas vítimas, as seqüelas são inevitáveis: o “telefone” tende a causar lesões às membranas do ouvido;as práticas elétricas podem provocar a perda parcial,quando não total,da visão.o tempo pendurado no “pau de arara” tem como conseqüência o atrofiamento ou a paralisia muscular;a latinha, os ferrinhos causam lesões nos pés e nas mãos.
Dos danos psíquicos é praticamente impossível alguém escapar. Muitas pessoas ficaram para sempre com graves perturbações mentais. Foi o caso de Costa Pinto, um dos líderes sindicais dos jornalistas, preso pela mesma operação que me apanhou. Os horrores infligidos a Costa Pinto abalaram-no de tal maneira que seus algozes tiveram de atira-lo no manicômio do Juqueri. Costa Pinto jamais voltou a se recuperar completamente.


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