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Cine-bares
No começo da exibição cinematográfica em São Paulo, alguns bares e confeitarias também exibiam filmes.
A PROGREDIOR
Na rua XV de Novembro, onde está o Banco do Canadá (número 240 atual) existiu até 1917, um prédio de três andares, construído dez anos antes de começar o nosso século e que, a partir de 1891, após uma ampla reforma, passou a ser a primeira sede do Jóquei Clube. O local pertencia à Sociedade Progredior, entidade criada para reunir a alta sociedade da época. Os dois salões do primeiro andar foram destinados a bares, confeitarias e restaurantes e receberam fina decoração — nas paredes cobertas de ricos espelhos e alegorias pintadas no teto — executada por Cláudio Rossi, arquiteto que colaborara com Almeida Jr. na decoração da antiga Catedral da Sé e viria associar-se a Ramos de Azevedo para a construção do Teatro Municipal.
Pela mesma época, havia no número 63 antigo da rua São bento, parede e meia com a litografia de Jules Martin — trecho movimentado este da São Bento, como já vimos e ainda veremos — uma casa térrea de quatro portas, que servira antes a uma confeitaria chamada Lunch Room e, depois a outra confeitaria, a Paulicéia.
Domingos José Coelho, primeiro presidente do Clube Ginástico Português, entidade fundada em 1878, na antiga rua Marechal Deodoro, hoje absorvida pela praça da Sé (do lado esquerdo de quem está de costas para a Catedral), há tempos vinha tentando entrar para o ramo dos restaurantes. Nos anais da Câmara Municipal, encontramos o seu nome, enviando em 1885, requerimento pedindo para cuidar do jardim da Praça Municipal (a João Mendes de hoje), em troca do direito de explorar um botequim. Coelho compra a Paulicéia e a transporta para as instalações da Progredior. Em 1897, ela se torna responsável pela única apresentação noticiada do vitascópio de Edison entre nós.
Mas com tudo isso, a Paulicéia vai à falência. Coelho desiste da vida de empresário a passa a cuidar se seu lado artístico, entrando para o João Minhoca, grupo teatral de fantoches.
O próximo arrendatário da confeitaria adota o nome da empresa proprietária do prédio — Progredior —, e abre o espaço para o cinema.
No dia 25 de março de 1898, vamos encontrar lá, o trêfego Vitor de Maio que, aproveitando a sua primeira estada em São Paulo e dias após uma apresentação no Eldorado, inaugura as tradicionais exibições cinematográficas da confeitaria.
A Progredior, com seus espelhos, vidros, decoração luxuosa, constituía ao lado da Casa Garraux, sua vizinha, motivo de orgulho para os paulistanos. Muito apreciada pela comunidade alemã, ela apresentava ambiente mais austero, cheia de famílias, contrastando com a frequência boêmia das demais confeitarias. Em 1917, mudou-se para a Direita, à altura de onde estão, atualmente, as Lojas Brasileiras, trocando o nome para Thebaida.
A CONFEITARIA FASOLI
A Fasoli viveu os seus primeiros anos no começo da atual rua XV de Novembro, ao lado de um antigo casarão cuja construção resultaria de um desafio de um vizinho. Ao mudar-se, em 1900 para um sobrado na rua Direita, número 5, exatamente onde fica agora a loja Lutz Ferrando, deixou o antigo endereço para um sofisticado clube, o Internacional, que dividia o coração dos grã-finos, com a Sociedade Progredior. Fundada por André Fasoli, a confeitaria passa às mãos dos srs. Pelegrini e Zanota, o fundadores do Chocolate Lacta.
Para recebê-la, o sobrado da Direita sofre algumas reformas, cuja importância pode ser aquilatada pelos nomes dos profisisonais encarregados de fazê-la: Cláudio Rossi, de que já falamos e Tomaz Bezzi, autor do projeto do Monumento à Independência.
Mesmo assim, três anos mais tarde, a Fasoli sofre outra recauchutagem, que a dota de decoração art-noveau, executada, novamente, por um artista de renome, Carlos Servi. Na reinauguração, o sr. Uomo, encarregado da charutaria, distribuiu cigarros Senador e Pedagogos aos ilustres representantes da Imprensa escrita (Pleonasmo dispensável: naqueles felizes tempos, só existia tal modalidade de imprensa).
Entretanto, apesar de todos os requintes, a Fasoli era, das confeitarias em moda, a mais barateira, permitindo o acesso de estudantes e segmentos menos endinheirados da população. Exibiu filmes durante muitos anos. Em 1916, quando as projeções já se limitavam só aos cinemas, ainda orgulhosa anunciava ser "o único restaurante com cinema".
A CONFEITARIA PINONI
Coube à Confeitaria Pinoni inaugurar, em 1896, a tradição da casa número um da rua São Bento, bem junto ao largo São Francisco, onde mais tarde iria alojar-se o Café Java e nos anos trinta o Café São Bento.
Nestes seus primeiros tempos, a Pinoni era apenas um restaurante rotineiro; sua fama viria com a mudança para as vizinhanças do Grande Hotel, na mesma rua São Bento.
O sr. Miguel Pinoni, proprietário da confeitaria, usando um intuitivo sentido de marketing, fechava sua confeitaria bem depois do horário dos outros bares, cafés e confeitarias — e assim, o pessoal egresso da Progredior, Guarani e outros bares. encontrava lugar para continuar a noitada. E seu Miguel foi mais longe: começou a exibir fitas.
Ao iniciar-se os anos 20, a Pinoni mudou-se novamente. O lugar onde estava foi demolido para a construção de um prédio até hoje de pé (São Bento, 349). Ela vai primeiro para a XV de Novembro. Volta para a São Bento, passando seus últimos anos num sobrado já demolido existente à altura do número 235 atual. Desaparece em 1937.
O ÍRIS THEATRE (CAFÉ GUARANI)
De 1900 a 1945, na XV de Novembro, à altura do número 306, onde hoje está o Banco Itaú, havia uma galeria que saía da rua Boa Vista, toda coberta de vidro. Por isso, apesar de seu nome oficial ser Webendoerf, São Paulo a conhecia como Galeria de Cristal.
Seu construtor, o alemão Cristiano Webendoerf, fôra proprietário, no século passado, da loja Ao Cosmopolitano, que funcionava no mesmo lugar. A Galeria de Cristal, uma pobre réplica da famosa Galeria Humberto IV de Milão, inaugurada a 14 de fevereiro de 1900, tinha quinze metros de altura, 72 de comprimento e cinco de largura, ampliando-se ao centro num octógono. Por causa dela, Cristiano, logo depois, abriu falência.
Bem na entrada da galeria, começa a operar, quase junto com ela, o lendário Café Guarani. A partir do dia 4 de abril de 1908, o Café Guarani cede uma boa porção do seu espaço para um dos mais bonitos cinemas que a cidade, até então, tivera, o Íris Theatre.
AU CABARET
As transformações sofridas por São Paulo, a partir de 1870, marco de ruptura com o passado modorrento da cidade quase limitada ao Triângulo, estavam sintetizadas no largo do Rosário e em seu apêndice, a rua do mesmo nome. O largo só começou a existir em 1872, ao serem desapropriadas e demolidas as casinholas em que ex-escravos africanos moravam. No mesmo processo, também desapareceu um cemitério contíguo à igreja. Decorridos dezoito anos, Alfredo Moreira Pinto chamaria o largo de "o cérebro e o coração de São Paulo", por causa do seu movimento.
E o Rosário adentraria o novo século com disposição redobrada. A desapropriação da igreja e sua posterior demolição deu maior amplitude ao acanhado lugar.
Os três mais prestigiadops jornais da cidade — Diário Popular, Correio Paulistano e O Estado de S.Paulo (foto) — mantinham ali suas redações.
O Diário Popular, no número 1 da rua do Rosário, continuaria a usar no seu expediente o nome Rosário, mesmo quando, em 1914, a rua mudou de nome para João Brícola. A cidade comentava que era uma imposição do diretor, José Maria Lisboa. João Brícola, ao morrer, teria legado sua fortuna para a Santa casa, deixando uma irmã na miséria. José Maria Lisboa não perdoara o fato; sua vingança era não estampar o novo nome da rua nas páginas do seu jornal.
No extremo do largo, esquina da São Bento, bem em frente onde o prédio Martinelli ainda era apenas um sonho, no começo do século, ergue-se um prédio que vai servir à Casa Selecta, tradicional charutaria. Sob o toldinho da Selecta, os estudantes de Direito costumavam reunir-se para bate-papos.
No mesmo prédio, em 1910, o sr. Vicente Rossati instala o seu bar Au Cabaret, que traz de volta para o largo as exibições cinematográficas. Os filmes não garantem muito sucesso ao novo bar. Ele desaparece cedo, nas mãos de outro proprietário, André Colas, que o compra em 1913. O sr. Vicente Rossati, porém, inicia uma próspera vida de empresário.
Em 1911, o Teatro Municipal é inaugurado. Do lado que dá para o Anhangabaú, garantindo uma bela vista do outro lado do Viaduto, a Prefeitura resolve explorar um bar e o sr. Vicente Rossati vence a concorrência.
Caberia também a ele abrir o bar do Trianon, na avenida Paulista.
O MEIA-NOITE
O 10 da Formosa brilhou, intensamente, na numerologia boêmia de São Paulo. Nele, teve um dos seus reinados a ilatiana Lina Angeleri, chamada de Perla Bianca, por causa da alvura da pele e da estonteante beleza. Abalando os corações de estudantes pobres e a fortuna dos ricos fazendeiros, Perla amealhou fama e fortuna. Em julho de 1915, a revista satírica O Gigolô dedica-lhe uma simulada entrevista, cuja abertura revela o que muitos pensavam a seu respeito:
— Ninguém é profeta em sua terra, parti da minha Itália, onde não é fácil a vida para as mulheres de vida alegre, em busca de terra de papalvos, deste Eldorado Paulista.
Coube a Perla a honra de tornar famoso o 10 da Formosa. Dali, a mariposa alçou vôo para a Xavier de Toledo — rua também marcada pelas alegres pensões — e cansada de só reinar, fundou um império. Nos anos posteriores, o império de Lina estende-se pela avenida Angélica, rua São Francisco, rua Conselheiro Crispiniano, além da sede administrativa da Xavier de Toledo.
Ao sair do 10 da Formosa, Perla passa o ponto para uma confreira, bem menos conhecida, Amélia Dora. E, daí, sem maiores explicações, o lugar vira, em 1928, um cinema-bar chamado Meia-Noite. Dele pouco se sabe; os jornais apenas limitam-se a dar sua programação. Uma carta à seção dos leitores da Folha da Manhã, entretanto esclarece-nos que o Meia-Noite parecia levar mais a sério a sua função de bar do que de cinema. O indignado leitor reclama que pediu uma cerveja e pôs-se a ver o filme. No auge da trama, chega o garçom e, sem outras palavras, avisa-o que, se não houvesse mais consumo, ele não poderia ver o fim.
O MODERNO DA MOÓCA
Quem quisesse beber, tranquilamente, o seu Barbera importado, apreciando o bucolismo da rua da Moóca (isto em 1911), podia dirigir-se ao Bar Moderno, dos srs. Falgetano e Maffi, no número 419 daquela rua (2241 atual). Afora so seus capitosos vinhos importados e as refinadas iguarias, o Moderno apresentava uma atração deveras irresistível: filmes.
A fórmula usada pelos dois proprietários do acreditado estabelecimento mostrou sua eficácia. Tanto é que, anos depois, exatamente no dia 3 de setembro de 1924, o bar Moderno virou um verdadeiro Palácio, o Cine-Teatro Moderno, também conhecido como Palácio Moderno.
Para a data que assinalou a metamorfose, foi marcada uma bonita festa, aberta com uma execução de O Guarani, a cargo da orquestra dirigida pelo insigne maestro Lahoz. Em seguida, a renomada companhia italiana de operetas Giordanino, tendo à frente o mavioso tenor Armando Boris, apresentou a opereta La Scunizza. Dando prosseguimento à festiva noite, na tela luminosa Maller, única em São Paulo, doi apresentado, em primeira projeção na Capital, o filme Mistérios e Aventuras. Cinqüenta e poucos anos depois, veio um banco e acabou com a alegria do supra-citado palácio. |