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A 1ª diretora do Brasil (e a 3ª do mundo)

No dia 23 de maio de 1930, a Folha da Manhã publica com certo destaque uma notícia, segundo a qual, em Hollywood, uma senhora era objeto de muita curiosidade "por ser a única mulher do mundo a dedicar-se à difícil tarefa de dirigir filmes". Nesse mesmo ano, em São Paulo, uma jovem dona de casa incentivada e financiada pelo marido, começa a planejar o filme que irá dirigir.

Pelos seus contemporâneos, Cléo Verberena é lembrada apenas como uma linda mulher, de quem ninguém soube o nome verdadeiro e cujo pioneirismo parece não suscitar admiração. Os críticos da época receberam o seu filme com certa simpatia, mas, ao contrário do que certamente aconteceria anos mais tarde, a Imprensa não ressalta o fato de ele ser dirigido por uma mulher. Para os leitores dos livros sobre o cinema brasileiro, seu nome evoca certo fascínio, principalmente pela sua fotografia como o dominó negro do seu filme.

A maioria dos estudiosos do assunto exalta a atuação de Carmen Santos — produtora e não diretora — e concentra exclusivamente sua atenção em Gilda de Abreu, ao falar-se em mulher dirigindo filmes. Para os demais, Cléo Verberena não existiu.

Sonho

Jacyra Martins Silveira nasceu em Amparo, no dia 26 de junho de 1909. Aos 15 anos vem para São Paulo completar os seus estudos, não com o objetivo de fazer alguma carreira — algo bem distante das ambições familiares daqueles tempos — mas para adquirir certo requinte que lhe permita um bom casamento, preferencialmente, com um fazendeiro, o típico sonho dos pais interioranos para as suas filhas.

Em parte, a rota traçada pelos pais de Jacyra é cumprida. Dois anos depois, ela realmente se casa com um presumível futuro herdeiro de grandes terras. No meio do caminho, porém, há um desvio: por ele, adentram Jacyra e seu marido. As luzes dos refletores vão guiá-los ao cinema. Jacyra troca seu nome pelo de Cléo. Seu marido troca suas terras pelo sonho.

Tradição

César Melani nasceu em Franca, em 1902. De acordo com a tradição familiar, fatalmente, seria fazendeiro. Antes, e também ainda de acordo com a tradição familiar precisa, porém, ter um diploma de curso superior. Escolhe a Medicina e vem para a Capital estudar.

Começa o curso e, paralelamente, dá continuidade à herança familiar, negociando com terras. Inquieto, logo desiste do curso e vai gerenciar um banco. Com tanta demonstração de seriedade, seus pais não hesitam em adiantar-lhe a maior parte da herança. O dinheiro é depositado num banco que abre falência. César encerra sua carreira de homem de negócios, pelo menos, no sentido em que isso era compreendido.

Livraria

Empobrecido, mas não de tudo sem recursos, ele volta a ser o que hoje chamamos, um jovem empresário. Suas experiências, nos ramos tradicionais, todavia, não lhe satisfizera o gosto e, em contrapartida, só lhe dera prejuízos.

Por que não tentar, então, algo mais relacionado com o seu temperamento? César convive com intelectuais, é amigo de artistas, acompanha a Literatura francesa. Resolve por isso unir o útil ao agradável. Conhece outro jovem intelectual e com ele abre a Livraria Francesa, na rua Barão de Itapetininga. Não deu sorte outra vez. O intelectual sócio sabe também ser um homem prático e aplica um golpe que põe fim à livraria.

Greta Garbo

Corte para a jovem. Enquanto tudo isso acontece, a futura Cléo Verberena estuda piano, pratica bordados, tem suas lições de francês. E, sobretudo, frequenta muito o cinema.

Seu ídolo é comum a toda sua geração: Greta Garbo. Jacyra, digo Cléo, não se limita a admirar os belos traços de sua atriz preferida. Vai mais além: estuda-lhe a interpretação, capta as nuanças de suas reações e logo compreende que, atrás disso tudo, há uma série de fatores contribuindo para o fascínio de Greta: a iluminação adequada, os enquadramentos da câmera, alguém oculto dentro do filme, comandando as ações. Ao começar a namorar Melani, que conhece numa festa, discute com ele essas coisas. O fazendeiro dos sonhos da família é um empobrecido rapaz que, não obstante, tem grande imaginação. Nesta, não está incluído ainda o cinema, apenas um elemento a mais do cotidiano.

Casamento

Os dois se casam. Entre os convidados à modesta festa, alguém traz uma câmera cinematográfica para filmar o casal. Mera gentileza, disfarçada em brincadeira, que vai marcar o destino de ambos.

O cinema, como realização, começa a ser mais um sonho, considerado inatingível pelo jovem casal. Jacyra sente-se orgulhosa ao ser comparada a Greta Garbo, fato freqüente. Ao marido, entretanto, confessa que, em cinema, ela saberia bem o que fazer: ficar atrás das câmeras, dando vida às imagens, movimentando os técnicos, fazendo viver a história. E, claro, isso não eliminava a vontade também de aparecer na tela. O marido concorda nas divagações — ele também gostaria de ser alguém, não só fotografado, mas possibilitando igualmente a realização dos filmes.

Herança

Então, acontece algo digno mesmo de cinema. A avó de César morre, deixando-lhe largas terras de herança. O ex-fazendeiro voltará a ser fazendeiro, mas por pouco tempo. O cinema paulista ganha um novo produtor: O cinema brasileiro vai ganhar sua primeira diretora.

César aluga uma ampla casa na rua Tupi e, nos fundos, começa a construir o seu estúdio, grandiloquentemente batizado de Épica Filmes. A maioria dos produtores paulistas trabalham com câmeras caindo aos pedaços, algumas até com projetores adaptados. César entra no ramo, por cima, importando sofisticados equipamentos da França, junto com seus técnicos. Os fundos da casa da rua Tupi, enchem-se de arcos voltaicos, câmeras, peças de cenário. Para o pequeno César, filho do casal, aquilo é um enorme divertimento.

Troca

O mundo cinematográfico paulista é formado por grupos mais ou menos fechados entre si, que frequentemente se cruzam, mas raramente se misturam. Quando algum acontecimento notável sucede, porém, — como a criação de um grande estúdio — todos são atraídos pelo mesmo foco. A Épica Filmes começa a ser frequentada por Tártari, Antonio Medeiros, todos os velhos batalhadores da infância dos filmes paulistas.

E lá baixa também Nacaratto. César confia na habilidade técnica destes experimentados artesãos; desconfia, entretanto, de suas sensibilidades artísticas. Ao pensar no seu filme, conjuga a seu dinamismo de antigo empresário, os conhecimentos técnicos de Nacaratto e encarrega Jacyra das concepções das cenas. Pensando na sonoridade e no fascínio com que os americanos sabem dotar as suas estrelas, discute com Jacyra e decidem trocar-lhe o nome pelo de Cléo Verberena. Ele adota o de Lais Reni.

A filmagem

Antes de começares as filmagens, César, Cléo e os técnicos vêem dezenas de vezes, nos estúdios da Épica, um filme com a atriz Billy Dover, a pedido de Cléo. Ela manda voltar para traz a projeção, pede para parar e acender as luzes, toma nota de coisas num papel.

E finalmente dão o primeiro giro de manivela. Com Nacaratto do lado orientando e Medeiros na câmera, Cléo dita os enquadramentos, corrige os atores, faz perguntas contínuas sobre a iluminação. E, quando ela própria vai entrar em cena, deixa tudo antes detalhado para os técnicos.

O filme

Terminado o filme, começa a batalha para a exibição. Latas debaixo do braço, lá vai o jovem produtor atrás dos donos das casas. Consegue o seu intento algumas vezes, mas as receitas estão longe de cobrir os enormes gastos com as despesas feitas para a Épica.

Enquanto pensa em outras praças e outros filmes, César, aproveitando a popularidade que Cléo adquire, resolve ser empresário teatral, montando revistas com sua mulher. Todo o dinheiro que eles ganham — nesta altura, ela mais do que ele — é levado para a Épica, não só para cobrir os rombos, mas também para alimentar os sonhos de novos filmes.

Revolução

Mais de um ano se passa, com Cléo trabalhando intensamente, colocando todo o dinheiro que ganha no cinema. César mostra desânimo, começa a sofrer intensamente dos nervos — a mulher assume o comando da Empresa.

Suas esperanças renascem diante da possibilidade do filme se exibido no Rio e, em outros lugares. A diretora viaja para a antiga Capital Federal, com o filho, a fim de fazer os preparativos do lançamento carioca. Então, estoura a revolução de 32. A família fica separada, sem possibilidade de encontrar-se. Quando isso pode acontecer, César já é um homem totalmente aniquilado. Morre em sua cidade natal aos 35 anos.

Novo casamento

Com a perda do marido, Cléo abandona o cinema e a vida artística. Anos depois, volta a casar com um diplomata chileno e, com ele, viaja pelo mundo, levando o filho do primeiro casamento.

Continua, entretanto, amando o cinema. Durante o resto de sua vida, demonstra orgulho pelo seu pioneirismo. Ninguém, porém, se refere em notícias ou reportagens a isso. Só uma vez — seu filho não sabe como — alguém de um antigo programa de Hebe Camargo, procurou-a para levá-la a uma entrevista. Era tarde demais.


Nota: Este texto foi baseado nas informações do filho de Cléo Verberena, sr. César Melani. As referências feitas com relação ao fato de Cléo querer encaminhar todo o dinheiro que ganhava para o cinema foram feitas durante a entrevista com dona Vanda Marchetti.


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