Tempos passados
Cícero Marques
O ''Castelões ''
O clube dos boêmios elegantes, naquele tempo era a ''Confeitaria Castelões ''. Estava situada no largo do Rosário, hoje Praça Antônio Prado, pegado à ''Chapelaria Alberto '', que fazia esquina com a ladeira de S. João, atualmente, chamada justa e pomposamente : ''Avenida S.. João ''.
Eu a conheço de nome desde 1896, quando o Tenente Marcondes, depois o Tenente Coronel Dr. Jayme César Marcondes de Brito, era o garboso ajudante de ordens do então presidente Campos Salles .
Na velha '' rodinha do Palácio '', composta do Paulo Ferraz de Campos Salles, digno filho do Pitre propagandista da República, Lelio e Marcello Piza, Ibanêz Salles e outros, o tenente Marcondes, em palestra conosco, a miúde, referia-se à velha casa comercial.
''Ontem, quando estive no ''Castelões'', ou então, eu agora devo sair porque tenho um encontro no Castelões, e uma locução adverbial que naquele tempo fazia éco, intercalava sempre, com sem propósito -'' circunsflauticamente falando ''-'' hoje , quando vinha para o Palácio, à porta do Castelões ''...de modo que de oitiva já o Castelões impressionava a minha imaginação de criança...
Mais tarde, por volta de 1910, (como passa o tempo !) há 23 anos, eu já frequentava, não que dele fizesse o meu clube. Geralmente eu ia à procura de amigos, ou então, acompanhava a qualquer um deles, pois, os frequentadores, na maioria rapazes, eram meus conhecidos, e muitos deles, meus ex-colegas de colégio ou consócios de clubes esportivos... E, que turma ''brava ' !...E grande! ...
A freguesia do ''Castelões'' compunha-se de duas turmas distintas: a da manhã e a da tarde, e esta prolongava-se até á noite, por volta das 8 horas. Depois deste horário, um ou outro retardatário aparecia, e por lá pouco se demorava, porque a velha casa, às 10 horas da noite, dava por encerrado o seu dia comercial. Tinha três portas, sendo duas pequenas e a do meio muito ampla, abrangendo quase toda a frente do prédio. À esquerda de quem entrava, quem não se lembra da ''bibóca'' do Guimarães, com a sua famosa Charutaria? O bondoso e delicado ''Caixeirinho'', que mais tarde, tal a quantidade do produto que apresentava, os deliciosos cigarros que marcaram época, foi forçado a desenvolver a sua manufatura, para dar lugar a uma grande fábrica, que lhe rendeu, não só avultada fortuna, mas também, a comenda portuguesa. E o Guimarães, ''o Guimarãesinho'', como lhe chamavam na intimidade, era estimado por todos, e porque não dizer, temido por muitos, tal a fama que trouxera do Rio, no seu tempo de moço, de resoluto e respeitado capoeira. E aqui, mais de uma vez, teve necessidade de confirmar o seu cartél, porém, graças ao ambiente encontrado, encontrado, e à mudança de seu estado civil, nunca mais recorreu aos seus dotes de Agilidade. Porém, isto ''já é outra história'', falemos da confeitaria.
São 10 horas da manhã.
Na caixa, lá está o Abel, e o Abel era, na verdade, tão bom quanto o irmão de Caim. Aos que vão cumprimentá-lo tem sempre uma palavra de carinho e, no olhar, tanta bondade que parece dizer:- '' Aqui está a gaveta''... se precisar... Em pé, passeando e fiscalizando os doces e as empadas - o querido Henrique Pecego, um dos gerentes.
No balcão, uma dobadoura, tal a chuva de pedidos. O Pascoal, o chefe da copa, é auxiliado eficazmente por um portuguesito simpático e diligente: o Porfirio.
- ''Pascoal! Um vermouth francês - italiano com um pouco de americon''.
- ''Porfirio! Dê-me uma dose de Madeira''.
- ''Que diabo, ''seu Pascoal... onde está o ''Xerez '' que eu já pedi...
Ainda um outro: - ''Pascoal! Sirva-me logo, ''do Reno'', que eu estou apressado"...
E, assim, nesta azáfama, o Pascoal e o Porfirio ficam até meio dia, servindo aos frequentadores que se alinham de pé, ao longo do balcão. Os outros caixeiros ocupam-se do interior da casa e da freguesia avulsa que aflúe para a a compra dos doces e psatelaria, tais sejam as empadas, os croquetes, coxinhas, ostras recheiadas, que jamais São Paulo provaria outras iguais... Lembram-se... Que delícia!...
E, ao recordar estes tempos, vejo-os em pé, sorrindo ao cumprimento dos amigos que entram, tendo á frente um copo espumante de cerveja, ou então, pela metade, o topázio liquecente de um velho Reno, ou ainda, um calix de old ton gin. Aqui, ao um canto, perto da porta, o querido Celso Amaral, boêmio impenitente, que deixou fama pelas suas estroinices e pela sua permanência, por mais de dez anos, no 5 ano de Direito, sem nunca querer prestar exame daquela disciplina, para conversar-se estudante, até que um dia, resolveu-se a colar grau... Lindo rapaz! Face moça, e a engrinaldar-lhe a cabeça, os ''raios brancos do luar''...
Vejo-o, na ''nonchalence'' de seu trajar: calças brancas, paletó de alpaca - e sempre acompanhado de seu ''cerne de alecrim''.
Espirituoso, inteligente, rivarí... Era delegado o ''célebre Major Novaes''...
Célebre pela sua energia e pela sua intransigência. O Vidigal da Paulicéia '', e por de seus pecados, naquela noite, era o Major Novaes que estava de plantão, e que por mais de uma vez já tivera ocasião de atuar o Celso...
E o Celso, apesar da inferioridade de preso e transgressor das leis, não se impressionava com a sua situação, e tão pouco, com o aspecto sombrio do longo corredor, e muito menos, com as salas dos delegados, sempre cercadas de bisbilhoteiros curiosos... Nada disto!... Aquilo tudo, para ele, era familiar, mesmo a catadura do delegado e as do secretas, - com força de expressão e sem trocadilho, ele, ali sentia, tal qual estivesse, em sua própria casa. Era com arrogância que tratava o delegado, especialmente o Major Novaes, por quem tinha uma solene antipatia. À certa altura do interrogatório, ambos se desavieram, e, claro que o delegado levou a melhor, mandando encarcerá-lo, depois de ouvir de Celso uma chuva de desaforos e uma praga que lhe saiu do fundo do coração: "Hás-de pagar-me, preto!.... Terei o gosto de vê-lo morrer na Cadeia"!...
Aconteceu que o Major Novais, meses depois, foi nomeado diretor da Cadeia Pública, e um dia uma síncope cardíaca prostrou-o sem vida, na cadeira de seu gabinete. De fato, a morte colheu-o dentro daquela casa de correção....
Celso, aos amigos que lhe vinham anunciar a morte do velho servidor do Estado, respondia: "Estou vingado... a minha praga pegou, eu não dizia que ele morreria na Cadeia"!
O Celso Amaral e seus irmãos Dario e Mário foram meus colegas no saudoso " Ateneu Paulista", no tempos dos Cônegos Ângelo, Manoel Vicente e Dr. Mário Bulcão.
Numa roda de velhos camaradas, lá está o Caio Egidio, que, ao ver-me, convida-me amável: "Vamos!... Sem cerimônia, o churrasco está na brasa "!.... Do grupo faz parte o "nosso ilustre amigo" Dr. Leopoldo de Freitas, Cônsul da Guatemala, que ao lado de José Maria do Vale. Excedendo-se em amabilidades com os seus conhecidos que eram quase todos os freqüentadores das duas sessões, ao avizinhar-se um amigo, deixa o grupo pôr um instante, e, solicito, cumprimenta o recém-vindo com aquela sua voz característica:
- "Como vai passando o meu ilustre amigo e como o tratam as damas* ".... E, à medida que as horas vão passando, - o grupo aumenta de pessoas que chegam...
Agora, quem surge à porta e se encaminha para um roda numerosa, distribuindo "bonjour" à direita e à esquerda, um andar gingado de marinheiro inglês, muito correto no seu fraque cinzento, tendo à lapela o cobiçado " ruban rouge" da legião de honra, é o avantajado Mr. Hollender, redator do Messager de Saint-Paul.
É recebido com simpatia e ouvido com atenção, graças á sua verve esfusiante e á inúmera anadotas que conta sempre a propósito, porém, reconhecendo que Filinto Lopes, um rival "hors concours" ....
Aproxima-se do grupo, uma figura que não dá " ponto". É o "Senhor Pereira"!... Muito alto, espadaúdo, correto no seu fraque escuro, calças à fantasias, listadas, constantemente a mastigar e sempre piscando, defeito provenientemente de um tic nervoso a repuxar-lhe a pálpebra direita. É famoso pelo seu apetite insaciável e pela consulta que fez o certo médico.
É o caso que uma vez foi ao consultório deste seu amigo, queixar-se de inapetência.
"- Senhor! Quero saber os seus hábitos de alimentação...
Senhor Pereira não se fez de rogado... Ao levantar-me tomo o meu café com leite, pão e manteiga.
Por volta das dez horas, vou ao "Castelões" e como uma seis empadas, devoro umas quatro coxinhas de galinha, engulo uns cinco croquetes, rapo, da concha, umas quatro ostras recheadas, como alguns sanduíches de presunto, uns cinco de queijo, não resisto comer uns três de lombo de porco, petisco uns doces, e "este material " é regado pôr uma meia dúzia de chopes simples. Almoço razoavelmente bem, porém, podia comer melhor .À tarde, volto ao "Castelões" e aí repito o que comi de manhã. Janto bem.. janto bem!...
O médico está visivelmente apavorado; o "Senhor não da mostras de perceber...
- E à noite, Senhor.
- " Á noite, vou ao Teatro.
- E depois do teatro, certamente vai dormir, diz-lhe o médico...
- " Não, responde-lhe Senhor... Depois do teatro se ceio um bife a cavalo!...
- Não me diga mais nada, Senhor! Não preciso examiná-lo... Já sei o que você tem... Você é um monstro, " seu" Senhor! Você precisa arranjar outro aparelho para descarregar o que você come. Um não basta!... Um só não vence.. Arranje aquilo duplo, " seo" Senhor... arranje aquilo duplo!...
Meses depois, em certa roda, um desconhecido de Senhor Pereira contava, pensando ser anedota, o caso acima referido...
Incidentemente ele se aproxima do grupo e ouve o fim da história... Qual não foi o espanto do narrador, que a ele se chegando, risonho, disse-lhe batendo amigavelmente nos ombros:
- "É autêntico.. - Este caso passou-se comigo, é verdade!...
Por volta das onze horas, toda a turma dá começo às partidas de dado, disputados com interesse, pois representavam o pagamento da dolorosa". Era sempre a ultima "rodada" .... Neste torneio, a agilidade e a força são fatores nulos... e nele tomam parte Mauro E. de Souza Aranha, Alberto Pinto e Silva, (Pinto Brado) sempre mal humorado, principalmente, quando perdia, - Capitão Cirino, Nhonhô Libânio que com muita calma, espirituoso ditos " agachados". Dario Amaral, Ângelo Mendes, Jaime de Campos, Rochinha (representante da Antártica), Câmara Lima, Giovanetti, do Fanfula, Joaquim Morse, Aristeo Seixas, Domingos Magalhães ( Mingote), Plínio Ramos, Laerte Assunção, Theseu Negraes, cuja expansibilidade era tão expressiva, que o alcunharam de " DR. Alegria, Caldas Barbosa, famoso pelo brilhante de 20 quilates que trazia no dedo mínimo, Adelino, administrador do Mercadinho S. João, Pedro Dente, Augusto Barjona, Capitão Zé Aníbal - ( Dr. José Aníbal de Azevedo). Adolfo Lapa, Lulú Tavares, Cnêu Ferreira, Luís Lins de Vasconcelos, Ângelo Araújo, Miguel Cardoso, Alípio Borba, Fiel Jordão, Alberto de Souza, Luiz Carneiro, Joãozinho Bolem, irmão de Antero, o brilhante poeta do " Cristo de Marfim", Dr. Emílio Ribas, Dr. Luís Silveira, Adaigiso Pereira e a dupla inseparável - o prof. Ribeiro e Januário Loureiro, Eduardo Martins Fontes, Mário Guastini, Horacio kiel, " General Faca", Rodolfo Mota, invariável no seu folgado terno de brim e chapeirão desabado.
Propositadamente, aqui destaco uma figura popularíssima da boêmia jornalística de S.. Paulo de 30 anos passados: Alfredo Silva, - o "Pipoca " da "Platéia".
Pequenino, enfezadote,- apurado no vestir com um par de olhos que jamais meus olhos viram em ser humano, enormes, olhos de quem se apavorou quando, ao nascer, viu, espantado, a luz do dia... E com a idade, eles cresceram, prejudicando o espaço vital dos outros órgãos dos sentidos, o olfato e o paladar. E cresceram... esbulharam-se, na iminência de estourar pôr se livrarem da prisão das órbitas, olhos martirizados que só encontravam repousu, quando o seu dono dormia. E, ao acordar, espiando a vida, começavam a peregrinar, desassossegados!... Finalmente, um dia, cerraram-se para nunca mais se abrirem, assim, de olhar as misérias do mundo que tanto os aterrorizaram!.
Positivamente, não foram eles que inspiraram a Felix de Otero para musicar a melodia de : "Olhos ... sei de uns".... Pobre Pipoca !... Aquela vontade louca de beber, insaciável, fazia-o esquecer da resposta que devia aos amigos, quando o cumprimentavam:
- " Pipoca, como vai essa bizarria" - A resposta natural, seria dizer que ia passando bem ou mal, porém, o nosso " Pipoca", obssecado pela bebida, fingia compreender que lhe ofereciam um "drink", e pegando a "deixam" atalhava de pronto: - "Aceito um " Madeira"!...
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