O esquecido inventor da 3DSebastião Comparato
O poeta Guilherme de Almeida assim saudava, em 1934, entusiasmado o surgimento da 3a. dimensão no cinema, a que assistira em casa do seu inventor, Sebastião Comparato, um italiano chegado ao Brasil com seis meses de idade e cujo maior orgulho era atribuir a invenção ao nosso país. Dois anos depois, já com patentes internacionais, Sebastião fez suas apresentações no Rio. Dezessete anos após essa exibição carioca, no antigo cinema metrópole, a 3D é anunciada, com estardalhaço, como última novidade do cinema norte-americano. Sebastião Comparato amargurado fecha o seu laboratório e não quer mais ouvir falar de cinema.
Homem voltado para a pesquisa, Comparato, formado na primeira turma de Medicina de São Paulo e que faleceu aos 87 anos, em 31 de janeiro de 1979, alternou seu trabalho de médico com o cinema. Produziu vários filmes de curta-metragem e inventou também um sistema de filme ao ar livre, mostrado ao público no começo da década de 30, na Praça da Sé. Apesar da relatividade notoriedade que conseguiu na época, seus filmes e seus inventos não conseguiram inscrevê-lo na história do cinema brasileiro.
Nem sequer os raros pesquisadores do cinema paulista registraram o trabalho pioneiro de Sebastião Comparato. Ele empregou grande parte de sua vida para inventar a terceira dimensão, ao mesmo tempo que a queria como uma invenção brasileira, recusando porisso um convite para ir trabalhar nos Estados Unidos.
Houve uma natural curiosidade, mas logo depois já ninguém falava no novo sistema, talvez porque a obrigatoriedade dos óculos limitasse sua aceitação. A invenção de Comparato, porém, apresentada quase duas décadas antes, podia perfeitamente ser apreciada a olho nu.
— Nenhum desses sistemas proporciona a humanização das cenas. Com qualquer um deles, o cinema será sempre uma fotografia em profundidade, ao passo que o meu sistema é a transformação completa do cinema como espetáculo para os olhos — dizia ele na entrevista.
O trabalho foi precedido de outras pesquisas com relação ao olho humano e, antes de chegar à terceira dimensão no cinema, ele se dedicara intensamente à estereoscopia (fotografia em relevo).
Parece que os esforços empreendidos, inicialmente, tiveram larga repercussão. As exibições especiais feitas em São Paulo e no Rio de Janeiro despertaram calorosos entusiasmos de intelectuais e jornalistas.
A hora em que ela surgiu, certamente, não era oportuna. Poucos anos antes, o cinema havia passado pela revolução do sonoro e esta inovação quase levara a industria especializada norte-americana à falência. Qualquer novidade não poderia ser, portanto, bem-vista, ainda mais que, já recuperada àquela altura, a indústria cinematográfica reinava absoluta no campo do entretenimento.
A luta maior de Comparato, porém, não foi para ser reconhecido pelos norte-americanos. Estes até que valorizaram o seu trabalho. Se, nos primeiros tempos não se interessaram, em 1945, quando procuravam técnicas inovadoras, não se esqueceram dele. A convite da mesma Warner, Comparato passou três meses nos Estados Unidos.
Sua recusa em permanecer definitivamente estava presa ao desejo de que a invenção fosse explorada por brasileiros. Para isso, tentou vários caminhos, mas nada conseguiu. A terceira dimensão lançada como invenção norte-americana deve ter-lhe sido uma pílula amarga.
|