CONFESSO: EU MATEI O GENERAL.

Crime na TV: direto, ao vivo!

Carlito Maia*

Tenho uma tragédia atravessada na garganta — não dá mais pra segurar. O cisne canta antes de morrer, porque depois não dá pé .E estou entre a vida e a morte, como todo mundo (nunca se sabe,né?...) Então lá vai.
Personagens: Sérgio de Andrade, jornalista; Arapuã”, publicitário.Três em um. Maria Helena, sua mulher. Manuel de Nóbrega, o Boa Praça (da Alegria). Denner Pamplona de Abreu, estrela da alta costura. Miguel Costa, general revolucionário. ”Petico”, meu pai. W, eu.
Cenário: auditório (lotado) da TV Paulista, OVC, Organização Victor Costa, à rua das Palmeiras, Canal 5, hoje TV Globo. Data de setembro de 1959, 4a.feira, dia do programa semanal de desafios e prêmios (espécie de gincana), ”Não durma no ponto”,apresentado por Manuel de Nóbrega.
O que vou contar é a pura verdade, juro!
Sérgio de Andrade, jornalista consagrado, é um homem simples, modesto, nada afetado, mas além de ser humorista nº1 de S.Paulo, é também publicitário extremamente criativo, ganhador habitual dos maiores prêmios da Propaganda. Um grande cara, amado por todos. Amigo meu há mais de 30 anos — e esta história tem 32 — creio tê-lo conhecido antes até do nascimento do Arapinha (Sérgio Augusto Andrade, Jornal da Tarde), genial como o pai. (Quantos anos tem agora, ó rapaz?). Sérgio já era uma pessoa muito conhecida e respeitada na cidade, quando tudo o que se deu. Todavia,era mais conhecido como Arapuã,do que pelo nome do registro civil. Contudo — não querendo botar banca como os apelidos famosos — foi com ele que se dirigiu ao Dener e ao general Miguel Costa, recebendo negativas. E aí me propcurou para contar do seu “drama doméstico”: Maria Helena está participando do “Não durma no ponto” e me pediu para convidar o costureiro e o general para irem até lá, na 4a.feira. Ambos se recusaram e, se não forem, ela será eliminada do programa ocê os conhece? E eu: “O Dener só de vista, o Miguel, é padrinho da minha irmã mais moça. Eu falo com eles.
Como a recusa se dera por ignorância de “quem seria o tal Sérgio de Andrade, assim que revelei tratar-se de Arapuá, Dener topou na hora. Já o velho cabo de guerra relutou: ”Gosto muito do Arapuã, mas ando adoentado, nem tenho saído de casa”. Foi aí que parti para a apelação: ”Que pena, garanti a ele que o senhor iria, que somos amigos e vai ficar chato para mim, general. E ele entrou na minha. Petico ficou furioso quando soube. Na 4a. feira em questão, lá estavam eles, pontuais, atrás da tapadeira que dividia o palco em dois. Sentados na primeira fila do auditório, Sérgio e eu podíamos ver a estranha dupla lá no fundo. Dener, todo agitado, com um gato nos braços (angorá, ou persa, sei lá). E o general, alquebrado, arfante, largado na cadeira. Foi aí que Manuel de Nóbrega fez a primeira cobrança:
“A senhora trouxe o Dener...”? E ela, triunfante: ”É claro que sim “! O apresentador convoca o estilista, que surge diante do público feito uma doida. A malta não perdoou: perspegou-lhe um festival de fiu-fius, acompanhado do coro de hábito: ”bicha, bicha”. Isto no ar! O mestre de cerimônia não teve dúvida: deu o maior esculacho no pessoal que lotava a sala. Todos se calam, em segundos. Silêncio feito, pergunta à candidata: ”E o general Miguel Costa, veio também...?”, como se não soubesse de sua presença, lá atrás. Ouvindo a óbvia resposta, passa a exaltar a figura de Miguel Costa, elevando-o aos píncaros da glória, mensagem-bruxa para a turba. Esta, querendo redimir-se com o homem da “Praça da Alegria” aplaude o “herói ali presente”, como disse Nóbrega. E ele, fragilizado como estava, ao ouvir a chuva de aplausos que se seguiu, verdadeira consagração, sentiu o golpe. Arapa e eu percebemos o drama que se avizinhava, o que nos deixou preocupados.
O general, então, levanta-se, cambaleando, e vai para a frente do público, sob gloriosa ovação. Ali estaca, olhar perdido na distância e leva a mão ao coração. E teria caído não fosse Nóbrega tê-lo amparado, praticamente o carregando, a seguir, de volta para trás da tapadeira. Arapa e eu, incontinenti, pulamos para o paclo. Pegamos o general, já desfalecido e tocamos à toda para o Pronto Socorro do Hospital das Clínicas. Lá chegando, em minutos, os médicos confirmaram o que já temíamos: Miguel Costa estava morto. Que horror. ”O coração não resistiu”, disse um. ”Emoção demais dá nisso”, ouvi de outro. Eu me sentia liquidado: afinal, quem tirara o velho amigo de sua casa, com a saúde abalada para submete-lo àquilo. Só havia uma atenuante: o general morrera feliz, sob os aplausos do seu povo... De repente, lembrei-me: ”Meu pai”. Eu tinha dito a ele que não perdesse o programa, ainda ( nesse tempo não havia aqui vídeo-tape, era tudo ao vivo). MEU PAI  JÁ SABIA DE TUDO, SANTO DEUS ! Lá pelas tantas, tomei coragem (além de umas & outras) e fui à casa dele. Recebeu-me aos soluços: ”Viu o que fez, meu filho? Você matou o Miguel, Carlito!”. E pôs-se a chorar convulsivamente, coitado.


VOLTA - SÃO PAULO ANTIGO

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