O Roubo da Cruz PretaUm notícia eletrizou São Paulo em 1828. A grande cruz preta, que inspirara o nome de uma das vias mais movimentadas da cidade — a rua da Cruz Preta — fôra roubada. Ao pé da Cruz Preta, reuniam-se multidões de fiéis, e ela fôra roubada!"Quais seriam os responsáveis por tal ousadia?", perguntavam-se os atônitos paulistanos. A pergunta era feita no plural, já que o peso da enorme cruz impediria seu carregamento por uma, ou mesmo, duas ou três pessoas, o que levava à lógica dedução de ter sido a ousada ação perpetrada por uma quadrilha. Cogita-se daqui, intui-se de lá, chegou-se a uma conclusão: Seriam certamente os estudantes de Direito, os ladrões. O móvel do crime, porém, qual seria, pois estava afastada a hipótese de interesse econômico, achada, como foi, a cruz, inviolada, às margens do rio Anhangabau? Afinal, arrumou-se uma explicação. Estrategicamente plantada bem frente a uma casa, a cruz preta servia como meio de acesso de um felizardo ao quarto da jovem e bela moradora, que lhe favorecia com suas benesses, protegida pela noite e pelo sono da numerosa familia. Conhecedores do fato — e com inveja do rapaz — os estudantes resolveram dar sumiço ao conspurcado símbolo cristão. Estava-se no caminho da verdade, mas não ainda nela. Esta só apareceria totalmente, muitos anos depois, quando um dos cúmplices do roubo pos, indiscretamente, suas memórias em livro. Na obra intitulada Reminiscências e Fantasias, publicado em 1883, seu autor, Domiciano Leite Ribeiro, o Visconde de Araxá, não esconde pormenores sobre o caso. Ele começa contando: "Existiu em São Paulo uma rua com denominação de Cruz Preta. A rua de São Paulo tirava a sua denominação de uma grande cruz pintada de preto que existia em uma esquina, e cujos braços excediam à altura das sacadas do sobrado, ao qual estava encostado. O povo tinha grande fé com essa cruz, e aí rezavam à noite e faziam grande festa no dia 3 de maio. No meu tempo, morava nesse sobrado uma família numerosa, de que fazia parte certa moreninha de olhos vivos e buliçosos e que muito atraía as vistas dos que por aí passavam. Nunca aquela cruz teve tantos adoradores. Bem ou mal fundado, correu o boato de que um feliz maganão trepava todas as noites pela cruz, saltava sobre a janela da direita, e só se retirava ao romper do dia. Isso revoltou a estudantada. O estudante em geral bem pouco se importa com as teses da moral. e com as cruzes, brancas, amarelas ou pretas; mas naquele caso, onde entrava talvez alguma dosezinha de inveja, manifestou-se geral indignação contra o maldito que assim profanava o sagrado lenho." Os estudantes, então, conta o Visconde de Araxá, reuniram-se para combinar "sobre o melhor modo de por cobro àquele escândalo. O conciliábulo foi presidido pôr um estudante de vinte e tantos anos, que veio de Coimbra concluir os seus estudos em a nova academia, e que já era um oráculo para os outros, já pela idade, já pelo brilhante talento, e já por ser um laço de união entre a nova e a velha Coimbra. Este veterano tomou a si formular o plano e fê-lo com a mão de mestre, distribuindo os papéis, provendo e providenciando todas as minudências de modo a não haver hesitações no campo da batalha." Foram trinta ou quarenta alunos os cúmplices, incluindo ele próprio, segundo o Visconde de Araxá, que levaram a cabo intento. Uns subiram pela janela, ataram as cordas aos braços da cruz, enquanto outros serravam o pedestal rente com o chão. Após os de cima descerem a cruz com muito vagar e silêncio a conduziram à beira do Anhangabaú, para largá-la trajeto daquele rios, entre os antigos largo do Bexiga e da Memória (hoje englobados pela praça da Bandeira). O líder da empreitada chamava-se Inácio Manuel Álvarez de Azevedo, cognominado de Mãozinha, por causa de um defeito na mão direita. E — pasmaram-se os historiadores — era ele também o alpinista da cruz, o feliz favorecido das noites da jovem moradora. Todavia, registre-se, suas intenções não eram totalmente as segundas, já que se casou com jovem, de nome Maria Luísa Silveira da Mota. Da união, nasceu o poeta Álvares de Azevedo. Final feliz, pode-se dizer, teve igualmente a história da cruz. Morador na Ladeira do Piques (rua Quirino de Andrade), Manuel José da Pontes viu-a no largo da Bexiga, recolheu-a e erigiu-lhe uma capelinha que franqueou ao público. Quanto à rua da Cruz Preta, ficou com o nome de Cruz Preta por mais algum tempo. Trocou-o depois pôr rua do Príncipe. Agora é a rua Quintino Bocaiúva. |