Caminho do carro que vai para Santo Amaro

Em torno de 1560, o padre José Anchieta fundou um aldeiamento indígena numa região chamada de Ibirapuera, onde está hoje o bairro de Santo Amaro. O lugar era rico em madeiras próprias para lenha — Ibirapuera quer dizer o que foi pau, o que foi madeira — e isso constituiu-se em importante fator no seu desenvolvimento. Via de ligação entre a Vila de São Paulo e o aldeiamento, o "Caminho do Virapoeira" (sua primeira referência vem assim grafada) começa freqüentemente a ser citado nos documentos antigos da cidade, numa evidência do peso econômico que a região exercia.
Todavia, o Caminho do Ibirapuera, presume-se, já existiria mesmo antes da chegada do padre Anchieta e seus irmãos da Companhia de Jesus. Utilizavam-no, provavelmente, os índios que já habitavam os Campos de Piratininga.

Piratininga

Os primeiros viajantes portugueses chamavam de Campos de Piratininga as terras de serra acima (em relação a São Vicente, ponto de desembarque dos colonizadores) que viriam integrar São Paulo. Piratininga foi o primeiro nome dado ao rio Tamanduateí e significa "rio sinuoso".
A área denominada de Piratininga, pelos indígenas, era restrita apenas a uma região localizada entre os atuais bairros dos Campos Elíseos, da Luz e do Bom Retiro, segundo comprovou o historiador Afonso de Freitas, com documentos e deduções. Só com a chegada dos portugueses, Piratininga passou a ter significado mais amplo.
Distribuídos por todo o território do futuro Campos de Piratininga, os indígenas tinham como referência os seu três agrupamentos mais importantes: Inhapuambuçu, liderado por Tibiriçá, Ururaí, sob a chefia de Piquerobi, e Jeribatiba, do chefe Caiubi. Os três líderes eram irmãos.
Convertido ao catolicismo e batizado pelos padres Leonardo Nunes e José de Anchieta, Tibiriçá ganhou o nome do fundador de S. Vicente, Martim Afonso, e teve papel preponderante para a fundação de São Paulo. Também batizado sob o nome de João, Caiubi, auxiliou Tibiriçá na tarefa de criar a futura São Paulo. Todavia, Piquerobi rebelou-se contra os portugueses e foi chefes dos guaianases, carijós e tamoios que atacaram São Paulo em 1562. Nesse ataque, revelou-se especialmente feroz o seu filho Jagoanharo, "Cão Bravo", morto quando tentava forçar a igreja do pátio do Colégio, cheia de mulheres refugiadas. Não obstante tudo isso, uma filha de Piquerobi, recebeu o nome cristão de Antonia Rodrigues, pôr ter casado com Antonio Rodrigues, um dos primeiros povadores de S.Vicente.
Caiubi que, com outros indígenas, abandonou o sertão, em 1554, para morar ao lado dos jesuítas em Tabataguera (Tabatinguera), reinava às margens do Jeribatiba, nome do rio Pinheiros, na sua passagem por Santo Amaro, exercendo também domínio sobre as tribus entre a Serra do Paranapiacaba e o litoral. Piquerobi morava na serra Ururai, mais ao norte da futura cidade, e Tibiriçá era senhor do Inhapuambucu, proximidades da atual avenida Tiradentes.

Trilhas

Certamente, os indigenas usavam trilhas para a comunicação entre as tribus daqueles três polos, e o Caminho do Ibirapuera devia ter sua origem numa delas. Segundo o pesquisador histórico Nuto S´Antanna , o Caminho do Ibirapuera saía do ponto em que surgiu depois a rua da Cruz Preta (atual Quintino Bocaiúva, depois de ser também rua do Príncipe). Seguiria depois, de acordo com outro memorialista paulistano, Afonso de Freitas, pela atuais praça João Mendes rua Rodrigo da Silva, Liberdade, Vergueiro, Domingos de Moraes, entrando na Conselheiro Rodrigues Alves para atingir a av. Ibirapuera e Adolfo Pinheiro. Chamado depois de Estrada Velha de Santo Amaro, este foi, praticamente, o trajeto aproveitado pela linha dos bondes para Santo Amaro, quando de sua instalação ao alvorecer do século XX.

Santo Amaro

No lugar ainda hoje conhecido pôr Cupecê, região do antigo povoado do Ibirapuera, o padre Anchieta conheceu a portuguesa Susana Rodrigues, casada com José Paes. O casal cuidava de uma sesmaria outorgada a José Paes e tinha na propriedade uma capela sob a invocação de Santo Amaro, o que acabou por determinar a mudança do nome do povoado para Santo Amaro.

Caminho do Carro

O Caminho do Ibirapuera, em alguns pontos do morro do Caguaçu (regiões das atuais avenida Paulista, Vila Mariana e outros bairros vizinhos) atravessava a Lombada entre os córregos Anhangabaú, o que criava dificuldades para o trânsito. Assim, foi criado, em 1640, um novo caminho com o nome de Caminho do Carro que vai para Santo Amaro alusão clara ao seu tráfego de carros de bois alimentado pelo comércio de madeira.
A nova via tinha início onde hoje é a Praça da Bandeira e seguia, nos rastros das atuais rua Santo Amaro, avenidas Brigadeiro Luís Antonio, avenida Santo Amaro e avenida Adolfo Pinheiro para encontrar-se à frente com o antigo Caminho do Ibrapuera. Próximo aos seus duzentos e cinqüenta anos, o Caminho do Carro, a partir do seu trecho que compreende atualmente a avenida Brigadeiro Luís Antonio passou a chamar-se Estrada de Santo Amaro.

Baixada do Verde

A praça da Bandeira resultou da junção de três largos: Bexiga, Piques, e, separado deste pelo rio Anhangabaú, o minúsculo largo da Memória. Era no largo do Bexiga que, ao lado de um mercado de escravos, estacionavam numerosos carros de bois vindos da Vila de Santo Amaro para as feiras semanais de madeira e lenha.
Antes, porém, da abertura daqueles largos, a área já apresentava movimento pelo vai e vem de carros bois e de pessoas, já que pôr ali também tinham passagem outros caminhos para diferentes regiões de S.Paulo. Naquela época, denominava-se o lugar de Baixada do Verde e do Curral, porque, próximo, no espaço ocupado agora pelas ruas Condessa de São Joaquim, Conde São Joaquim e Humaitá, existiu, de 1853 a 1888, o famoso Matadouro Humaitá.

Rua Santo Amaro

Por aquela mesma razão, a rua Santo Amaro, que passava pelo matadouro, já se chamou de rua do Verde e do Curral. O nome de nossos dias é uma lembrança deixada pela Estrada de Santo Amaro.
Inicialmente a extensão da rua Santo Amaro correspondia à mesma de hoje. Chegou a ser bem maior, entretanto, já que em data aproximada a 1885, absorveu também o trecho da Estrada de Santo Amaro que ia da sua atual esquina com a Brigadeiro Luís Antonio até a avenida Paulista. A rua Santo Amaro passou, assim, a ter a honra de ser travessa da avenida Paulista. O privilégio, contudo, durou pouco. Em 1908,aquele trecho adotou o atual nome de Brigadeiro Luís Antonio.


VOLTA

Esta página foi produzida por Maturidade Vídeo e Editora