Cláudio Willer

poema da antologia Fui Eu

Ninguém sabia mais nada, todos os relógios haviam parado,
o meu na antevéspera, o dela na tarde anterior,
havia fantasmas próximos demais, obsessões quase materializadas
no domingo interminável no campo
- incomodava-me a sensação lisérgica de estar aí
e de não haver nada além disso, o peso da imanência
e o surdo compasso das horas na tarde de chuva vagarosa
repetindo a ameaça do anoitecer
- no entanto, bastava olhar, continuar observando
o aparecer dos objetos do entardecer e seus pássaros,
sentir as dobras e rachaduras da áspera superfície do real,
a úmida opacidade da natureza, acariciar o próprio tempo
como se fosse um dorso recoberto de plumagem
sentindo suas falhas e descontinuidades
e admirar-me de por tanto tempo haver-me esquecido
de que tudo era assim mesmo

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