poema da antologia Fui EuNinguém sabia mais nada, todos os relógios haviam parado,o meu na antevéspera, o dela na tarde anterior, havia fantasmas próximos demais, obsessões quase materializadas no domingo interminável no campo - incomodava-me a sensação lisérgica de estar aí e de não haver nada além disso, o peso da imanência e o surdo compasso das horas na tarde de chuva vagarosa repetindo a ameaça do anoitecer - no entanto, bastava olhar, continuar observando o aparecer dos objetos do entardecer e seus pássaros, sentir as dobras e rachaduras da áspera superfície do real, a úmida opacidade da natureza, acariciar o próprio tempo como se fosse um dorso recoberto de plumagem sentindo suas falhas e descontinuidades e admirar-me de por tanto tempo haver-me esquecido de que tudo era assim mesmo |