Reminiscências de Viagens e Permanência no Brasil

Daniel Kidder

Depois de atravessar as planícies do Ipiranga, avistamos São Paulo, e, logo mais galgávamos uma rua estreita da velha cidade. Dirigindo-nos à única casa onde se pode obter hospedagem, instalamo-nos logo com muito conforto. Hospedaria esta sob a direção de um tal Charles, francês casado com portuguesa, e há muito que o casal reside no lugar. Soubemos, então, que quase todos os viajantes estrangeiros que nos precederam foram hospedados por ele. A experiência de Monsieur Charles levou a tomar cuidados extremos com os seus clientes. Tinha como norma não receber quem não trouxesse carta de recomendação. Conhecedor dessa exigência um cavalheiro de nossas relações forneceu-nos o documento necessário. Os naturalistas de nosso grupo não esperavam por tal formalidade, e, por cúmulo da má sorte nosso hospedeiro havia tomado uma terrível quizira contra os seus patrícios e alegando que "Les français m´ont toujours trompé.". Daí terem sido forçados, os nossos companheiros, a passar a noite numa miserável casa de pasto onde chovia tanto como na rua e onde havia toda a sorte de sujeira. Entretanto, no momento, foi a única que conseguiram. Devido à nossa intervenção e às informaçõesd que Monsieur Charles conseguiu obter com relações aos nossos amigos, foram eles admitidos em sua casa, e como nós confortavelmente instalados.
Passemos agora a descrição de São Paulo. A cidade está situada entre dois riachos e a cavaleiro de uma elevação cujo topo é bastante irregular. Suas ruas são acanhadas e construídas sem um traçado geral. Os passeios são estreitos e a pavimentação é feita com uma rocha ferruginosa que muito se assemelha à pedra arenosa vermelha, velha, diferindo, porém, a que se usa em São Paulo em que contém mais fragmentos de quartzo.
Alguns edifícios são de pedra, entretanto, o material geralmente empregado na construção de casas é a terra que, depois de levemente moldada pode constituir sólida parede. O sistema consiste em cavar uma vala com alguns pés de profundidade, como se fosse para uma fundação comum, de pedra; depois vão deitando terra e socando-a bem. Quando a parede excede o nível do chão, constróem uma fôrma de tábuas, para manter as mesmas dimensões inciais, armação essa que vai sendo transferida para cima, até que a parede atinja a altura desejada. As paredes assim construídas são geralmente muito espessas, principalmentae nos grandes edifícios. Prestam-se, contudo, para receber um bom acabamento tanto interno como externo e são, em geral, cobertas com amplos telhados que as protegem contra a chuva. Conquanto seja razoável essa precaução, sabe-se de muros assim construídos que permaneceram intatos durante mais de um século, sem qualquer cobertura. Sob a ação do sol eles se tornam impermeáveis à água, como único e sólido tijolo, e, a ausência de geadas aumenta-lhes a estabilidade.
As casas da cidade são geralmente de dois pavimentos, dotadas de sacadas que às vezes levam rótulas. As sacadas são os lugares prediletos, tanto dos homens como das mulheres que aí vão gozar do frescor da manhã e da noite ou assistir à passagem de procissões ou ainda qualquer ocorrência que desperte atenção.
No Brasil, em geral, quer sejam as casas construídas de pedra ou de terra (taipa) são comumente revestidas e caiadas. A brancura dos prédios contrasta admiravelmente com seus telhados vermelhos, e, uma das principais vantagens que tal pintura oferece é que pode ser facilmente renovada. Em São Paulo, a cor da pintura das casas várias em alguns casos entre o amarelo palha e o rosa pálido. No geral, o aspecto externo das casas é alegre e asseado.
Já que estamos no assunto descreveremos o arranjo interno das moradias paulistas, descrição eesa que se aplica também as de outras regiões de império. Varia muito a divisão das casas; quase todas, porém, são construídas de forma a deixar uma área interna que serve para arejar os dormitórios, sistema esse tanto mais indispensável quanto é hábito generalizado manterem fechadas com pesadas folhas, as janelas que dão para a rua. Nas cidades, o andar inferior raramente é ocupado para moradia; serve às vezes para casas de comércio, outras vezes para cochoeira ou estábulo. As dependências mais comuns, em cima, são: a sala de visitas e a de jantar, entre as quais existem, invariávelmente, alcovas que servem de dormitórios. A mobília da sala de visitas varia de conformidade com o maior ou menor luxo da casa mas, o que se encontra em todas elas é um sofá, com assento de palhinha e três ou quatro cadeiras dispostas em alas rigorosamente paralelas que, partindo de cada extremidade da primeira peça, projetam-se em direção ao meio da sala. Quando há visitas, as senhoras sentam-se no sofá e os cavalheiros nas cadeiras. Os subúrbios e os arredores de São Paulo são muito interessantes e neles encontram-se numerosas residências elegantes, cercadas de jardins. A cidade é o centro de convergências de toda a província.muitos dentre os fazendeiros mais abastados tem casas na cidade e só permanecem algum tempo na fezenda, pois, de S. Paulo podem melhor orientar a venda de suas safras, à medida que passam, serra abaixo em demanda do mercado.
Num dos sítios mais amenos do lugar, a cerca de uma milha de distância, fica o Jardim Botânico fundado há mais ou menos 10 anos. Seu plano geral é de muito gosto, dispondo de alamedas curvilíneas arbonizadas e um esplêndido lago artificial de água limpída. Suas dimensões são amplas, e, se for bem cuidado, poderá constituir magnífico lagradouro. Atualmente, porém, está um tanto abandonado pôr falta de recursos de tesouro provincial. Há nos arredores diversas residências finas, e, da elevação em que está situado, descortina-se esplêndido panorama da cidade.
Sendo domingo o dia subsequente ao de nossa chegada a São Paulo, visitamos diversas de suas 12 igrejas, aí concluídas as capelas dos conventos. A catedral diocesana é bastante ampla, e, por ocasião de nossa visita cerca de vinte clérigos cantavam a missa. Era grande a assistência, com acentuada predominância de mulheres. Notamos dois cavalheiros entretidos em animada palestra ajoelhando-se e levantando-se alternativamente, como se pudessem ao mesmo tempo orar e conversar. Em outra igreja de muito menores dimensões, havia também grande número de fiéis, e ainda aí tivemos ocasião de notar a mesma solenidade observada em todos os atos religiosos a que tivemos ocasião de assistir no Brasil. A cerimônia a que nos referimos era uma missa de réquiem.
A 25 de janeiro festejaram a conversão de São Paulo, padroeiro da cidade e da província. Diversos dias antes havíamos lido um edital do Bispo dando ordem das solenidades em comemoração ao "glorioso e maravilhoso acontecimento". Os atos principais eram: missa, sermão, procissão e exposição de relíquias. Voltamos, portanto, à catedral ao meio-dia, para ouvir o sermão. Consistiu apenas no elogio da vida e do caráter de S. Paulo, mas o orador não primou pela elegância da dicção nem pelo entusiasmo. Como sóe acontecer nos púlpitos brasileiros, o padre recitou um sermão decorado. Em outras ocasiões assistimos a declamações bastante expressivas, mas, na solenidade a eu nos referimos, o bom clérigo não deve ter tido tempo de se preparar bem ou então, era dotado de muito má memória, porquanto atrás dele havia outro, com o manuscrito na mão. Entre o orador e o "ponto" havia uma cortina que o escondia do público. Quando, porém, seu serviços se tornaram necessários, precisou de mais luz e, pondo de lado a cortina, apareceu em toda a importância de suas funções.
A construção dessa igreja, como em geral a das outras, no Brasil, não leva em consideração as conveviências do orador nem as do auditório. O púlpito fica de lado, e o fundo da igreja é invariavelmente ocupado pelo altar-mor. A assistência não tem onde sentar a não ser o piso de terra, de madeira ou de mármore, conforme a suntuosidade do tempo. O chão é às vezes juncados de folhas, outras vezes coberto com tábuas limpas, sendo que, em alguns casos, vimos transportarem cadeiras para a igreja. Pôr ocasião de nossa visita, a grande área que ficava para o lado de dentro das grades estava cheia de senhoras "a la Turque", todas juntas. Assim instaladas com frente para o altar onde estava sendo celebrada a missa, não podiam olhar para o pregador conquanto tivesse ele tido o cuidado de se colocar ao lado direito. Era realmente imponente o aspecto dessa parte da assistência. Quase todas as senhoras traziam graciosas mantilhas escuras que serviam ao mesmo tempo de chapéu e de chale. Os nossos amigos parisienses ficaram particularmente impressionados com esse detalhe, e, maior foi o seu espanto ao descobrir sob as mantilhas numerosos rostos de cor.
Como bons católicos não puderam deixar de observar que grande parte das músicas tocadas durante as cerimônias, eram conhecidas em França como peças licenciosas e profanas; nem mesmo isso, porém, os impressionou tanto como a decepção que tiveram com relação à compleição das senhoras. Devemos deixar aqui consignado o fato de não terem rivais no Império as paulistanas, quanto à beleza e aos dotes que as exortam, constituindo motivo de orgulho e pureza e a nobreza de sua linhagem. Não é, porém, numa reunião promíscura como a que acima referimos que se podem apreciar essas qualidades das filhas de São Paulo. Além disso o apuro do vestuário, não constitui no Brasil, índice de condição ou de nível social. As classes inferiores exaurem seus recursos em adornos domingueiros e as senhoras capricham em bem vestir suas escravas. Às vezes o ouro e a pedraria adquiridos para refulgir nos salões, são vistos cintilando pelas ruas, em curioso contraste com a pele negra das domésticas, efêmeras e humildes representantes da abastança da família.
Às 5 horas da tarde a procissão saiu da catedral e desfilou pelas ruas principais ao som de um constante repicar de sinos. Toda a cidade estava a postos para assistir ao desfile do cortejo e as janelas e sacadas regorgitavam de espectadores, enquanto das casas das famílias ricas, pendiam finos damascos em honra ao padroeiro da cidade. Duas irmandades, uma de pretos, outra de brancos, marchavam em alas, cada irmão levando uma vela de cera do comprimento suficiente para servir também ou amarela que indicava a ordem a que pertencia.
As imagens eram em muito menor número que de costume. De fato só havia três: a primeira representado a Virgem Maria com o menino Jesus; a Segunda, São Padro com as chaves e a terceira, São Paulo. Fechando o séquito marchava op Bispo, assistido, de ambos os lados pôr antigos sacerdotes cujos vistosos paramentos eram pouco inferiores aos do Bispo. Um turíbulo queimando incenso, precedia o venerando diocesano já curvado sob o peso dos anos. Ouro e diamantes cintilavam em sua mitra, e, sobre a cabeça abria-se o pálio de seda. Nas mãos levava um pequeno crucifixo contendo a hóstia á qual ele parecia orar devotamente. Em último lugar ía uma banda militar e cerca de cem simulacros de soldados em uniforme da Guarda Nacional.
Entre as execusões que fizemos pelas circunvizinhanças de S. Paulo, uma das mais interessantes foi às velhas minas de ouro do Jaraguá. Estão situadas a cerca de três léguas, no sopé da montanha que lhes dá o nome e que se avista distintamente da cidade, em direção Noroeste. Essas minas, de ouro lavado, foram as primeiras descobertas no Brasil. Produziram muito durante a primeira parte do século dezessete e, as grandes quantidades de ouro de lá canalizadas para a Europa grangearam para a região, o cognome do segundo Peru; tiveram, além disso, o mérito de incentivar a exploração do interior da qual resultou a localização de diversas zonas auríferas em Minas Gerais. Há muito que as minas do Jaraguá já não mais são trabalhadas com regulariedade, e, atualmente, pertencem a uma viúva que lá possui uma fazenda com a área aproximada de uma légua quadrada.
A Dona Gertrudes não possuía apenas essa fazenda, mas, seis outras de valor quase igual, das quais duas estavam situadas ainda mais perto da cidade sendo todas elas dotadas do competente número de escravos, cavalos, mulas etc. essa dama residia numa das melhores casas da cidade, e fazendo gosto em obsequiar os visitantes da província, convidou-nos a todos nós para passar alguns dias em sua fazenda do Jaraguá, para onde removeu temporariamente toda a sua organização doméstica. Várias bestas foram enviadas para transportar os hóspedes; como, porém, tivéssemos à nossa disposição um esplêndido cavalo que nos oferecera um amigo, e, não podendo partir com os demais companheiros na noite marcada, seguimos viagem pela manhã seguinte bem cedo e lá chegamos ainda a tempo para o almoço. Nessa refeição tomaram parte cerca de vinte de vinte pessoas, todas sentadas em bancos, ao longo de uma comprida mesa fixa no chão. A senhora sentia-se em poder servir ao smeus hóspedes exclusivamente


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