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Grito da Independência
Acompanhado de Francisco Gomes da Silva, o "Chalaça", seu secretário particular, Major Francisco de Castro Canto e Melo, (irmão da futura Marquesa de Santos) e de outras personalidades, D.Pedro deixou o Rio a 13 de agosto de 1822, com destino a São Paulo, onde vinha intervir na complicada situação política reinante na província paulista.
À medida que a comitiva do príncipe avançava, a ela foram se juntando integrantes da Guarda de Honra, corporação honorífica, com ramificações em vários lugares e integrada por pessoas que pudessem estar disponíveis, voluntariamente, para prestar qualquer serviço ao príncipe, a qualquer hora. Após permanecer em São Paulo por nove dias, D.Pedro seguiu para Santos, sempre acompanhado de sua Guarda de Honra.
No dia 7 de setembro de 1822, durante toda a sua viagem de Santos para São Paulo, D.Pedro suportou as dores de um desarranjo intestinal até que, ao chegar ao atual bairro do Ipiranga, entrou no mato para aliviar-se. Havendo demora em ser atendido no seu pedido de papel higiênico, conta a piada, o príncipe irritou-se e gritou: "Essa intendência é de morte!" Entusiasmados, os cavaleiros da Guarda de Honra arrancaram suas espadas e, em uníssono, repetiram a frase que pensaram ouvir: "Independência ou morte!"
A piada infame tem um fundo de verdade. A dor de barriga do príncipe e sua necessária entrada no mato realmente existiram, segundo o relato deixado por algumas testemunhas. Um destes relatos é do próprio comandante da Guarda de Honra naquela ocasião, o cel Manuel Marcondes de Oliveira e Melo. O comandante titular da corporação era o secretário de Estado, Luiz de Saldanha da Gama (futuro Marques de Taubaté), que, entretanto, ficara em São Paulo, durante a viagem a Santos. Seu substituto, o cel.Oliveira e Melo, barão de Pindamonhagaba, comandante da Guarda de Honra em Pindamonhagaba, hospedara o príncipe na sua cidade, por ocasião da passagem da sua comitiva, a qual se integrou, juntamente com mais 14 membros da Guarda de Honra local.. Eis seu relato do dia 7 de setembro de 1822 : "Ao romper do dia já lá estava a Guarda postada em frente ao palacete em que se tinha hospedado S.A aguardando suas ordens. Não partimos pela madrugada, mas saímos cedo. Montava D.Pedro uma possante besta gateada, sendo menos verdadeira a notícia, mais tarde dada pelos jornais, de que vinha em ardoroso cavalo de raça mineira.
Em toda a viagem mostrava-se S.A. muito satisfeito e expansivo. Trazia ao seu lado o padre Belchior, com quem mantinha animada conversação.
Já havíamos subido a serra, quando D.Pedro se queixou de ligeiras cólicas intestinais, precisando por isso apear-se para empregar os meios naturais de aliviar seus sofrimentos.
Observou-nos então que melhor seria a Guarda seguir adiante e esperá-lo na entrada de S.Paulo, se antes não fôssemos por ele alcançados. Efetivamente, aí o deixamos passando a caminhar como havia sido determinado.
Chegando ao Ipiranga, sem que ninguém aparecesse, fiz parar a Guarda junto a uma casinhola que ficava à beira da estrada, à margem daquele riacho. Para prevenir qualquer surpresa, mandei o guarda Miguel de Godoy Moreira e Costa, que era dos mais moços, colocar-se de atalaia em lugar de onde pudesse descobrir a aproximação, para nos avisar com o tempo de nos pormos em forma e escoltá-lo à entrada da cidade. Tomando esta providência apeamo-nos e nos pusemos a descansar, conforme era natural.
Pouco tempo, porém, se tinha decorrido, quando vimos chegar, dirigindo-se para o nosso lado dois viajantes, que logo reconhecemos serem pessoas de consideração. Eram Paulo Bregaro, oficial da Secretaria do Supremo Tribunal Militar, e o Major Antonio Ramos Cordeiro, que, a mandado de José Bonifácio, vinham do Rio apressadamente, procurando D.Pedro para lhe fazer a entrega de papéis de muita circunstância, que o governo lhe mandava.
Não podia este encontro deixar de impressionar a todos, curiosos por sabermos do que era que se tratava. Apesar, porém, dos repetidos e importunos pedidos de informações dirigidos aos emissários, na ocasião, nada mais conseguimos saber, senão que ao Rio havia chegado um navio trazendo despachos das Cortes de Lisboa, dos quais entendeu o Ministro dever dar conta imediata a D.Pedro.
Isso tudo passou em poucos momentos, continuando os viajantes a sua marcha ao encontro de .Pedro e ficando nós ansiosos por sabermos do motivo que determinara tanta pressa. Enquanto ali nos demoramos, formaram-se vários grupos, onde todos faziam suas conjeturas, procurando cada qual adivinhar o que seria. E é preciso deixar consignado para a honra daqueles rapazes que, embora naquele tempo se falasse muito em desembarque de forças portuguesas nas costas do Brasil, ninguém se mostrou assustado.
Poucos minutos poderiam ter-se passado depois da retirada dos referidos viajantes, e eis que percebemos que o guarda que estava de vigia vinha apressadamente em direção ao ponto em que nos achávamos. Compreendi o que aquilo queria dizer, e imediatamente mandei formar a Guarda para receber D.Pedro, que devia entrar na cidade em duas alas. Mas tão apressado vinha o Príncipe que chegou antes que alguns soldados tivesse tempo de alcançar as selas.
Havia de ser 4 horas da tarde, mais ou menos.
Vinha o Príncipe na frente. Vendo-o voltar-se para o nosso lado, saímos a seu encontro. Diante da Guarda, que descrevia um semi-círculo, estacou seu animal e de espada desembainhada, bradou:
— Amigos! Estão para sempre quebrados os laços que nos ligavam ao governo português! E nos topes que nos indicam como súditos daquela nação, convido-vos a fazerdes assim... E, arrancando do chapéu que ali trazia a fita azul e branca, a arrojou no chão, sendo nisso acompanhado por toda a Guarda, que, tirando dos braços o mesmo distintivo, lhe deu igual destino.
— E viva o Brasil livre e independente! — gritou D.Pedro. Ao que desembainhando também nossas espadas, respondemos:
— Viva D. Pedro, seu defensor perpétuo! E bradou o Príncipe:
— Viva o Brasil livre e independente!
— Será nossa divisa de ora em diante — Independência ou Morte!
Por nossa parte, com o mais vivo entusiasmo, repetimos:
— Independência ou Morte
Metendo, então, a espada na bainha, no que foi acompanhado por toda a Guarda, voltou D.Pedro rapidamente o animal para a estrada que vai a São Paulo, e a galope lá foi experimentar as fortes emoções que sua alma de moço devia estar sentindo, vibradas pela incomparável vitória que acabava de alcançar, vencendo os preconceitos e interesses da família, afrontando a animosidade de um povo de que estava dependente o seu futuro, só para elevar a nossa pátria à posição de país livre e independente.
— Foi um herói aquele D.Pedro".
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