Recordando... (Memórias)
Maria D'Aparecida Carneiro de Moraes

5 de junho de 1980

Na passagem desta data, evoquei o passado e... o presente. 80 anos!... Como ficou longe o meu bercinho!... Lembro-me bem dele pois foi usado por minhas irmãs Clotilde e Elena. Diva e Fernando vieram mais tarde.
Eu fui a primogênita do casal Gustavo e Glorinha. Meus pais diziam que eu era uma criança linda, porém mais tarde, ao consultar um espelho, já era uma menina feia. De meus pais conservo as mais doces lembranças.
Minha primeira infância eu a passei com minha avó materna, que em adorava. Eu vivia num mundo de fantasia ouvindo histórias de príncipes encantados, reis maus e rainhas generosas...
Meus avós paternos foram meus padrinhos de batismo: recebi o nome de Maria D'Aparecida em homenagem á santa desse nome cuja devoção começava a ser propalada.
O tempo passava. Minha avó já era viúva e quando ela faleceu, sofri a primeira dor de uma separação. A sua imagem e seus contos me ficaram gravados até hoje.
Afeiçoei-me então aos meus avós paternos. Vovó me descrevia a fina sociedade que ela freqüentava na sua mocidade: os saraus em salões bem iluminados, os pianos de cauda, exímios pianistas de família, as flores que se usava nos cabelos, as roupas elegantes e finas, as jóias caras, as valsas rodadas, os banquetes e recepções em sua casa...
Vovó me ensinava trabalhos manuais, boas maneiras, que eu já estava na idade de aprender. Já na fase escolar, queria aprender mais e mais... As professoras despertavam em mim o gosto pelos livros. Ainda recordo deles com saudade.
Cheguei à adolescência ainda com muito apego às minhas bonecas que eram feitas de pano mas que eram tão bonitas!...
Obedecendo à lei natural, que tudo transforma, fui ficando adulta. A juventude aprimorava meus sentimentos e na minha sensibilidade eu admirava as flores e seus perfumes, apreciava a sombra das árvores, o encanto do luar e as serenatas que muito me emocionavam; lia romances, gostava de poesias, música e bailes; comparecia e tomava parte nas festas religiosas da nossa igreja.
Entre os rapazes havia um que me chamava a atenção, o Jordãozinho como lhe chamavam. Tinha regular cultura, caráter reto, muito sensato, era sociável e romântico. Sua simpatia me atraía. Sem confiar meus sentimentos a ninguém, eu já notava que não lhe era indiferente. E assim, ia o destino aproximando duas almas nascidas uma para a outra até o casamento que se realizou a 31/07/1915 na residência de meus pais.
Vieram os filhos, um a um, em número de onze. Apesar de não esmorecermos na luta do dia a dia, nossos filhos não conheciam o conforto material, mas a esperança de vê-los um dia realizados, hoje está concretizada. Nossa vinda para São Paulo em 1940, muito concorreu para isso. Até aquele ano, respirávamos o ar puro do nosso rincão Xiririca, hoje Eldorado. Nossos filhos eram saudáveis, fortes, inteligentes e por que não dizer, bonitos. Aqui encontraram um campo favorável para trabalhar, estudar e vencer.
Ao completarmos nossas Bodas de Prata a nossa embarcação não singrava num manso lago azul como disse o poeta, mas Graças a Deus, não conhecíamos ainda o infortúnio. Em sentia ainda o mesmo encanto em ter minhas mãos entre as suas como no tempo de noivado. Agora, já nos faltavam Joel e Bartira nossos filhos que partiram tão pequeninos, deixando o pranto em nossos corações.
Apareceu então a Cidinha que, órfã de mãe, veio suavizar a nossa dor trazendo com sua presença de criança a alegria que nos faltava. Ela veio recém-nascida, crescia ao nosso lado cheia de graça e bondade. Mais tarde veio a Júlia que, órfã de pais encontrou em nossa casa seu novo lar. Passou a ser minha companheira nas horas de alegria e de tristeza.
Veio a viuvez. Foi para mim um golpe dolorido mas o carinho e o amparo que meus filhos me deram me ajudaram a conformar-me com a dura separação. Tenho pelos meus filhos, noras e genros, imensa gratidão. Os lindos netos e bisnetos me dão muita alegria e me orgulho deles.
Agora, voltando ao presente, posso dizer que não me sinto velha. Velhice não é ter cabelos brancos, rugas no rosto; velhice é ter perdido o ideal e esse eu não perdi. Espero ver meus netos e bisnetos realizarem seus sonhos e terem uma vida útil e feliz...
Tenho muitos parentes e amigos que eu considero e que sei, posso contar sempre. Sou madrinha de batismo de muitas criaturas que eu abençôo com muito amor e sei que também me estimam. Conto também com a amizade e consideração de vizinhos.
No presente, nosso ciclo familiar sente e sofre com a ausência dos entes queridos que partiram para o além mas eu os sinto sempre presentes. Sinto uma saudade imensa mas gratificante pelo muito amor que me fizeram conhecer. Os dissabores que passei, estão sendo colocados como degraus acima. Sinto uma grande paz de espírito e isso me dá força e coragem.
Diante dessas minhas reflexões, uma coisa é certa: desejo prosseguir e quem sabe, talvez, um tanto trêmula eu chegue a alcançar o centenário.