Sandra AramanEu ia com meu pai à sessão zig-zag de domingo, no cine Metro. Na rua D. José de Barros, perto da rua Sete de Abril, havia uma grande casa de chá,onde se servia chá mate com leite condensado. O leite não se dissolvia no fundo do copo e,quando o mate acabava,davam-nos uma colher comprida e fina, para aproveitá-lo. Nesse lugar era minha mãe que me levava.Acompanhada pelos dois, eu saía à noite especialmente para ver um veadinho empalhado que uma loja da galeria, acho que Califórnia, ostentava na prateleira. Aproveitávamos e tomávamos chocolate na Leiteria Americana, em frente à Light, rua Xavier de Toledo. Meu tio Joseph me levava para as aulas de sapateado e balé, na rua 24 de Maio, quase esquina com a Dom José de Barros. Meu professor era Cid Paes de Barros, diretor artístico da TV Tupi, canal-3.
Tudo isso fazia, junto com outras coisas como as aulas de piano eu, uma menina de 6 anos, moradora no centro da cidade. E, de repente, me vejo no meio do mato, numa rua barrenta, perto de uma avenida barrenta, que nem avenida era, e sim uma estrada.Nem me lembro se meus pais me comunicaram antes que íamos mudar de casa. E, se eu fui informada, certamente não me preocupei, nem cheguei a entender. Só me dei conta da situação quando, ao chegar ao bairro do Caxingui, vi mudar o meu estilo de vida, de um dia para outro. Adeus aulas de piano, adeus balé, adeus colher fina fina e comprida para degustar o leite condensado indissolvido no fundo do copo. Levava-se três horas do Caxingui ao centro, computado o tempo de espera no ponto pelo ônibus de Vila Sônia. A atual avenida Francisco Morato não passava do trecho inicial da recém- construída Br-2 (hoje, Br-116), ainda barro puro. No começo da avenida Francisco Morato, bem em frente à casa de Nhô Totico, famoso radialista para crianças na época, havia uma paineira que assinalava o começo da área rural de São Paulo. A menina moradora da região central da cidade passara assim a ser uma caipira. Nosso bairro, há pouco, deixara de ser uma fazenda de propriedade do dono da Fábrica Regência de roupas para homens. Lá, ainda estavam de pé o casarão da fazenda e sua capela. Fomos morar na rua 2. Só quatro casas habitadas, incluindo a nossa, a compunha. Os moradores: o sr.José, que trabalhava na Casa Pequena em Pinheiros, e sua esposa,dona Idalina;o sr. Mário, feirante, japonês e sua família; o sr.Paschoal, com fábrica de caixas de televisão na rua Três Irmãos, onde hoje é a Faculdade Leonardo Da Vinci, sua esposa Madalena,e seus filhos. Duas outras casas estavam em construção. Sessões zig-zag de cinema? O Caxingui já tivera um cinema, no mesmo lugar da avenida Francisco Morato onde depois se instalou o depósito da Kitano. Quando chegamos ao bairro, porém, o cinema já estava fechado porque, segundo contou a mulher do dono para minha mãe, numa conversa de ponto de ônibus, deixava entrar menores em filmes proibidos. Mais tarde, ganhei uma máquina Barlan, que era uma caixa de baquelite com uma lente, um carretel e uma manivela. A gente girava a manivela e o carretel desenrolava o “filme”, um papel transparente com desenhos. O programa se repetia sempre, porque eu só tinha um filme. Apareceu também um exibidor ambulante. Na esquina da rua Progredior (hoje José Janareli), sobre um muro branco, ele projetava gratuitamente, os filmes para as crianças. Isso tudo, entretanto, foi depois, com a chegada de novos vizinho e seus filhos. No começo, eu era a única da minha idade na rua. As duas casas em construção foram terminadas. Um dos novos vizinhos era o sr. Oswaldo Lopes, cuja filha, Ângela, de minha idade, desde então, seria minha amiga. O outro vizinho, o sr. Macedo, logo que mudou resolveu mudar o nome da rua. Fez ele mesmo a placa com a inscrição Blanche, que era o nome de sua mãe. Depois de oficializada, a rua Blanche passou a chamar-se Waldemar Blatskaukas, bi-campeão mundial de basquete. Pouco a pouco, adensou-se a vizinhança. Cresceu a freguesia do sapateiro Natal e do açougueiro Cosmo, ambos próximos. Veio a Padaria Almodóvar. Nós, os moradores da antiga rua Blanche, nos cotizávamos para as festas de São João e fazíamos doces, quentão, churrasco. Só o sr.Mário, o feirante,não gostava de participar. |