Perdas e DanosTudo na vida podem ser lições. Experiências próprias ou alheias, para quem sabe aproveitá-las. Às vezes no ''fechado para balanço'' de certas memórias, fico a pensar nas lições de despojamento que a vida me deu. Um jeito de ficar sabendo de tudo que não é preciso para continuar vivendo. A fada da Riqueza nem olhou para o meu berço, levou sua cornucópia para outras bandas. Outras devem ter me olhado com certa simpatia.Não vou falar mal de fadas, que são boa gente. Diz a Bíblia que nunca se viu o justo mendigar o seu pão. Posso não ter reparado bem, mas acho que vi. Não sei se sou justa, mas não precisei mendigar o meu. Deu sempre para o gasto. Não sou muito de estatísticas, mas tenho tentação de fazer um "perdas e danos" pessoal de tudo o que me foi roubado ou perdido, numa vida de cigana sempre de mala às costas. Consigo inventariar, sem mágoa. O primeiro presente de um também primeiro namorado, que me deixou saudades, na parvoíce dos 15 anos. Era um pente de tartaruga loura com um pequeno elefante de ouro nele gravado. Coisa mais linda. Era mirá-lo e remirá-lo, sem nem coragem de desrespeitar aquele tesouro com meus cabelos curtos e lisos. Uma empregada de casa, fica o nome para a posteridade, Marcolina, gostou tanto dele como eu, levou-o. Esse ficou doendo, passei a vida a procurá-lo pelo mundo. Muito cedo me deliciei com os antiquários, na minha e em alheias terras. A graça das coisas que viveram, têm uma história, descobertas inesperadas. Aquilo com que sempre se sonhou, a mesa cancela de oito pernas, gravuras e quadros que foram ficando pelas paredes, caras que a gente já perdeu (só para as visitas se admirarem de que as tivéssemos tido), cuzqueños trazidos do Peru por mãos amigas, desenhos dos amigos Portinari, Di Cavalcanti, Burle Max, gravuras de Debret. Em 30 anos de Rio eu abria a porta e gostava de olhar para aquela casa. A cômoda de vinhático, marchetada de marfim, a marquesa antiga, cadeiras pé de cachimbo, a mesa de jantar com uma ''lazy Suzan'' já encaixada. Lembranças de viagem, os arraioles portugueses, louças de Coimbra, tudo no seu lugar, cada um contando uma história, aquela alegria da beleza que dura para sempre, de Keats. Neles a minha alma se comprazia. Um dia fechei as malas para um ausência de um ano que, não sei por que estranhas premonições, que seria para sempre. Minhas janelas viradas para o mar, tanta vida que ficava entre aquelas paredes caiadas, sem S. José de Azulejos. Em Londres fui para um mews já mobiliado em que aos poucos fui semeando compras de antiquário, lembranças de Portobello Road, foi ficando com jeito de casa da gente. O apartamentinho de Chelsea em pouco ficou com minha cara traduzida para o inglês. Bastava abrir os braços para quase abraçá-lo todo, em oito anos também ficou sendo a minha casa. Pratas de família, estanho, opalinas, a lareira antiga, livros que subiram pelas estantes já conversavam comigo. Com angústias da despedida da minha amada Londres, uma tarde enfio a chave na fechadura e encontro-a com a corrente de segurança do lado de dentro, na casa vazia. Quase literalmente. Os ''amigos do alheio'' como eram chamados nos jornais da minha infância tinham comparecido e levado tudo o que era possível. Gavetas e livros no chão, armários abertos. Dinheiro, pratos, jóias desaparecidas, a casa arrasada olhando a pedir desculpas. Foi difícil de dar. Das pratas sobrou uma sopeira no meio do corredor, que não coubera nas malas de que se serviram para abrigar todo o espólio. Ficou sendo ''o presente do ladrão''. Veio um Sherlock Holmes da Scotland Yard, a me explicar didático problemas sociais de emigrantes, preconceitos de raça que os obrigavam a se servir desses meios de sobreviver (misfits). Eu queria apoio psicológico? Dão. Preferi socorrer-me das minhas próprias fontes. Foi uma lição de despojamento. Roubaram-me tudo, mas me deixaram tanta coisa, das não passíveis de serem roubadas. Oito anos de ausência, já em Portugal, fui recolher no Rio os restos de naufrágio de uma vida inteira, no apartamento depredado. Aí já ninguém me oferecia ''apoio psicológico''. Fiquei só com as lições de "não ter". Ainda sobraram coisas. Ali em frente o cavalo de nome feio de uma gravura inglesa, ao lado do "Capitão de Mato" do Rugendas. Na janela, entre os verdes que sobraram em Cascais, o longe Atlântico, que nos une e separa, ora enriquecido de uma marina que trará mais gente para estragar o resto de bucolismo que restou no meu Portugal. Vêm buscar tudo o que vim eu buscar e que com nossa só presença acabamos por destruir. Andares, carros, estacionamentos, essa ''tanta necessidade aborrecida'' de que falava um certo senhor Camões. Despojada de tanta coisa, tenho pouco o que perder. O que já é uma vantagem.
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