Publicado na Revista Filme Cultura, da Embrafilme, edição comemorativa dos 100 anos do cinema. Agosto, 1986

Um documentário sobre a destruição dos cinemas

Abrão Berman(*)

Em meados dos 70 comecei a perceber que as salas de cinema que eu até há pouco freqüentava começaram a fechar. Eu via o Cine Regência virar primeiro auditório da TV Record e depois oficina mecânica; via o Cine Cosmos 70 virar estacionamento; via o cine Picolino virar buffet. via o Cine Paulista virar galeria comercial. Todos na Rua Augusta, rua onde me criei e atravessava duas vezes por dia para a ir à escola na Praça da República.
Ao assistir ao filme A Rosa Púrpura do Cairo voltou-me uma imagem que elaborara principalmente nas segunda-feiras, dia em que mudava o cartaz do Cine Paulista. À medida que o ônibus se aproximava (a parada era em frente ao cinema), eu ficava entusiasmado observando por rápidos instantes a troca dos cartazes. E minha imaginação fazia os atores saírem dos cinemas e vir até a calçada, malas e e casacos na mão, à procura de táxi.
Uma cobrança interna começou a então a me atormentar. Como se eu precisassse fazer alguma coisa, não para salvar os cinemas (já condenados) mas para, ao menos preservar uma lembrança de sua imagem.
A imprensa já começa chamar a atenção ao fato. Uma reportagem em um jornal carioca alardeava: ”Os cinemas estão fechando...mas o espetáculo continua”.
Munido com minha câmera Super 8 e muitos rolos de filme, iniciei uma peregrinação pela cidade, filmando todos os locais que haviam sido cinema e que tinham deixado algum vestígio. Uma marquise, uma moldura de cartazes, um detalhe de decoração na fachada etc. E à mesma medida em que filmava descobria que cidade perdias dezenas de salas a cada mês.
Com duração de 10 minutos, a primeira versão de Os cinemas Estão Fechando mostrava então 18 cinemas fechados e foi apresentado no V Super Festival Nacional do Filme Super 8, em 1977, com um corte na trilha sonora imposto pela Censura. Justamente no trecho em que eu culpava a Censura pelo rigor na proibição de filmes para menores de 18 anos, afugentando a nova geração de freqüentar as salas.
Acredito que ainda era bebê quando minha mãe me levava ao Cine Metro e às fantasias aquáticas de Esther Williams. Isso, sem dúvida, me influenciou não só a me apaixonar pela arte do Cinema como também a encarar a ida ao cinema como um ritual especial. Que sensação maravilhosa o escurecer gradativo da luz na sala, com o gongo anunciando o início da sessão. As cortinas se abrindo lentamente (no Metro eram em gomos e pareciam de seda) e as primeiras imagens na tela.
Em 1980 comprei uma máquina fotográfica profissional (Cânon) e decidi recomeçar meu trabalho do princípio também fotografando (em branco e preto). Nessa altura muitas salas já tinham sido demolidas como o imenso República, onde eu vi a 3a.Dimensão com O Manto Sagrado. A fase inicial de sua demolição pode ser vista no filme bem como o Metro Copacabana (Rio) e o imenso cine Tropical na Lapa. Circular pela cidade parecia uma verdadeira peregrinação. Ou uma aventura arqueológica. Eu saía de casa pela manhã com um mapa de indicações. Uma carta para não perder na cidade. E fazia descobertas incríveis. Como do imenso vazio do Cine Piratininga, no Brás, cuja fachada ostenta até hoje ostenta ainda os dizeres “O Maior Cinema do Brasil” e seu orgulho de ter 5.000 lugares à disposição dos espectadores. Caminhando entre os carros estacionados na imensa área da platéia eu tinha a impressão de ouvir vozes. Acabei incluindo essa sensação na nova versão do meu filme, feita em 82, com 30 minutos de duração e o registro de 35 cinemas fechados. O filme termina com minha câmara perambulando entre as gôndolas de um supermercado ao som fantasmagórico da trilha final de ...E o Vento Levou.
Quando em outubro de 1982, minha primeira exposição fotográfica ocupou uma das salas do Museu da Imagem e do Som, em São Paulo, eu me senti aliviado. Uma sensação também de posse de imagens, que me dava o poder de fazer permanecer para sempre. A exposição, com a projeção do filme, atraiu muita gente. E muitas reclamações pela ausência de outras salas de inúmeros bairros de São Paulo o que me ferz riniciar logo a caça às imagens. E enriquecer meu acervo atingindo quase 50 falecidos cinemas.
Tenho plena consciência dos motivos que provocaram tal situação. Que, aliás, é mundial. Reconheço que houve mudanças nos costumes. Só lamento que o fechamento continue. A maioria das vezes na calada da noite, não dando tempo para nenhum xereta registrar as imagens da sala. Pouco se faz para impedir que esse fechamento continue. Ouço falar apenas de discussões sobre o incentivo. Discussões.
Se o cinema ficar limitado a ser visto unicamente através de uma tela de televisão ele perderá justamente a sua essência: o clima mágico que envolve o espectador no escuro da sala.

(*)Abrão Berman, jornalista e cineasta faleceu em 1991.

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