A estrada do Limão (via para o bairro da Freguesia do Ó) praticamente virou um largo rio


As águas do rio Pinheiros, nos Jardins (Morumbi ao fundo). Tomada da rua Augusta


No atual Butantã, os habitantes recorrem às canoas


O Vale do Anhangabaú submerso


A atual ponte João Dias (rio Pinheiros) no ano das grandes chuvas

O longo temporal de 1929

A chuva choveu mesmo. Durante sessenta dias, de meados de dezembro de 1928 a fevereiro de 1929, começou uma chuva ininterrupta em São Paulo que culminou com o transbordamento do rio Tietê, que se assemelhou a um castigo divino. Avaliaram-se em milhões os prejuízos. Milhares de pessoas perderam seus lares e todos seus haveres.
A chuva já começou forte. No último dia de 1928, os trovões pareciam potentíssimos rojões explodindo para saudar o ano novo. O janeiro de 29 não teve um dia de sol. Engrossava o rio. Nos bairros ribeirinhos, já muita gente fôra obrigada a mudar de casa.
Alastravam-se as águas do Tietê. Invadiam as várzeas vizinhas. No dia 16 de fevereiro, cobriam toda a várzea, da Penha a Osasco.
Batelões começaram a ser usados como transporte urbano, já que as águas fizeram submergir os trilhos dos bondes. O transporte fluvial improvisado tornou-se altamente rentável. Cobrava-se 500 réis a passagem, contra os 200 do bonde. Transformara-se num lago, o Campo de Marte, em que funcionava o aeródromo da Força Pública (atual Polícia Militar).
Corriam perigo os aviões, sem que pudessem entrar caminhões para retirá-los do lugar. Levaram-se, então, grandes barcaças e em cima delas colocaram-se os aviões. Estes, com suas hélices, impeliam as barcaças, colocando-se fora da ameaça.
Os pequenos morros da várzea viraram ilhas.

Acossado pelas águas, os bairros mais altos pareciam arquipélagos.

Nas casas em pontos mais altos, protegidas da destruição, mas abandonadas pelas famílias temerosas, cães famintos mantinham a guarda. Da barcaça, os passageiros lhes atiravam pedaços de pão.
Espalhou-se, então, a notícia que Santos fôra tragada pelas águas. Trens e automóveis deixaram de circular entre as duas cidades. O telégrafo silenciara. São Paulo aterrorizou-se com a notícia.
Dois jornalistas resolveram averiguar. Foram de trem até o alto da Serra e de lá continuaram a viagem a pé até Cubatão. Tomaram aí outro trem para chegar a Santos. Repetiram a viagem em sentido inverso. Trouxeram jornais santistas do dia para mostrar a falsidade das notícias. Anselmo de Oliveira, repórter, e Benedito Duarte, fotógrafo, formaram a dupla de jornalistas. O último, mais tarde, tornou-se também cineasta.
Logo depois, o sol voltou a iluminar São Paulo.


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