Perigrinação pela província de São Paulo
Emílio Zaluar
Peregrinações ( 1860- 1861)
A capital de São Paulo
Eis-me finalmente na capital da província de S. Paulo, depois de uma tão longa e variada peregrinação!
Daqui a poucos anos, quando os trilhos de ferro e as locomotivas cortarem as planuras que acabo de atravessar e nivelarem esses terrenos, que parece estão já predispostos pela natureza para receberem este grande meio de comunicabilidade, outros viandantes virão depois de mim e realizarão em poucas horas o trajeto em que gastei tantos meses; mas não gozarão de certo, como eu, o encanto de quem gosta de descobrir e observar todos os dias um ponto, uma curiosidade, um acidente novo, nos domínios do que lhe era até então desconhecido.
Pelo que tenho contado aos meus leitores, terão eles sem dúvida feito desde já juízo do que são as aprovações do norte de S. Paulo, consideradas debaixo de seus pontos de vista mais importantes. Os elementos naturais de riqueza e de prosperidade abundam por toda a parte. A terra, vigorosa e fecunda, convida os homens à atividade e ao trabalho.
Estes, porém, nem sempre lhe respondem com a energia e a confiança que ela lhes requer. A indolência natural das raças semi-nômades, a falta absoluta dos conhecimentos mais rudimentares, o estéril afã dos mesquinhos interesses e das paixões ativadas pelo ócio e pela geral indiferença com que se encara o futuro desta terra, tudo isto concorre para o esperdício de forças que, aproveitadas utilmente, seriam de grande alcance na obra da civilização, mas que, desviadas deste caminho pela inércia, fraqueza e alguma vezes ignorância dos que poderiam imprimir-lhe um movimento salutar, se perdem, esgotam e e inutilizam, sem consciência do seu valor nem remorso da sua esterilidade.
Fazendo estas reflexões nas minhas últimas horas de viagem antes de chegar à capital, achei-me junto da pitoresca igrejinha de Nossa Senhora da Penha, pouco mais de uma légua arredada de S. Paulo, delicioso e poético lugar, onde o povo de todos estes contornos costuma fazer as suas devotas e aprazíveis romarias.
O dia estava delicioso, e a pureza do horizonte imaculado dava um brilho luminoso ao espetáculo que se desenrolava diante de nossos olhos.
No extremo de uma paisagem infinita, acidentada com a elevação das colinas e o leito de aveludadas planícies, viam-se transparecer por entre as verduras as torres das igrejas e as paredes alvas das habitações da cidade de São Paulo, reclinada aos pés do rio Tamanduateí e do ribeirão Anhangabaú, e envolta ainda nesse manto de ligeiros vapores com que a natureza desperta de seu sono nas primeiras horas da manhã.
Entramos finalmente em São Paulo pelo lugar chamado Brás. É um dos arrabaldes mais belos e concorridos da cidade, já notável pelas elegantes casas de campo e deliciosas chácaras onde residem muitas famílias abastadas, ao lado todavia de alguns casebres e ranchos menos aristocráticos, mas que nem por isso deixam de formar um curioso contraste.
Apesar da majestosa natureza que a circunda, da suave elevação em que se acha colocada e do ameno clima que a bafeja, a cidade de São Paulo é triste, monótona e quase desanimada.
Quando os estudantes da Faculdade de Direito vão a férias, então é que se reconhece melhor o que acabamos de dizer e tivemos ocasião de verificar. A mocidade acadêmica imprime à povoação, durante a sua residência nela, uma espécie de vida fictícia, que, apenas interrompida, a faz recair, por assim dizer, no seu estado de habitual sonolência.
A antiga cidade dos jesuítas deve ser considerada, pois, debaixo de dois pontos de vista diverso. A capital da província e a Faculdade de Direito, o burguês e o estudante, a sombra e a luz, o "estacionarismo" e a ação, a desconfiança de uns e a expansão muitas vezes libertina de outros, e, para concluir, uma certa monotonia de rotina do progresso encarnadas na população transitória e flutuante.
Apesar dos seus 46.000 habitantes, de ser assento da Assembléia Provincial e residencial do Presidente da província, de contar no número dos seus mais importantes estabelecimentos um magnífico ter em seu seio o Bispo Diocesano e em seus braços a Faculdade de Direito; de contar no número dos seus mais importantes estabelecimentos um magnífico jardim botânico, uma biblioteca notável e um seminário, o hospital da misericórdia, a casa da câmara, a cadeia, o palácio do governo, o hospital militar e o dos lázaros, a sé, de que é orago o apóstolo S. Paulo, a igreja de Santa Ifigênia, o convento do Carmo mosteiro de S. Bento, onde se homiziou Amador Bueno, o convento de S. Francisco, onde está academia, o convento das freiras da luz, os seus dois teatros, um a cair de velho e o outro a parodiar a eternidade das obras de Santa Engrácia; e finalmente de suas indústrias, de seu comércio, de seus capitais em circulação, de seus hotéis apinhados de viajantes; e cidade de S. Paulo é monótona, e nos seus dias de festas, em vez do riso jovial e franco, é taciturna e reservada, como uma beata que vai à missa das almas com o rosto escondido na mantilha e as contas do rosário a aparecerem por baixo das rendas de um mantelete de seda.
É que o antigo colégio da Companhia de Jesus, destinado depois à conversão dos índios, é que a povoação rival da vila de Santo André, a quem destruiu e aniquilou, conserva ainda hoje, em seus habitantes, em seus costumes e em suas usanças, alguns traços tradicionais, esse cunho de misteriosa concentração que os jesuítas sabiam imprimir por toda a parte, não só ao povo como aos edifícios, e, o que é ainda mais, à natureza e ao próprio ambiente que os rodeava.
Eis o primeiro aspecto de S. Paulo desperta no espírito de quem observa e estuda o caráter de seus habitantes, e a dupla fisionomia de sua população com verso e reverso, com uma esfinge .
|