Francisco Assis Bueno
Teu imenso progresso, na verdade,
A mente, Paulicéia me fascina; Mas de ti quando pobre e pequenina Jamais há de ter fim minha saudade
Quando era inda a beldade,
Hoje, de cada vez que te visito
Em que estava a casa apetecida
(*) O governador Gomes Freire de Andrade chamou "formosa sem dote" a povoação de São Paulo, quando a viu em princípios do século XVIII
As minhas mais remotas reminiscências da cidade deSão Paulo, onde nasci em 1816, remontam até 1822, começando pelas festas organizadas pela vinda do príncipe regente. A entrada solene desse personagem, que dias depois proclamava a Independência nos campos do Ipiranga, eu vi acompanhado por uma pessoa da minha família de uma das janelas da Ordem Teceira do Carmo. Ainda me recorda que, quando o príncipe, que pernoitava na Penha, subia a cavalo pela ladeira do Carmo, foi encontrado no meio da subida pelo bispo e pelo cabido, daí seguindo debaixo do pálio para a Sé. O bispo D. Mateus de Abreu Pereira, cujo vulto e rosto trigueiro ainda vagamente conservo na lembrança, habitava um sobrado justamente fronteiro à mencionada ladeira, contíguo àquele que modernamente habitava o marquês de Três Rios. Até agora se conserva ele, como era então, com suas janelas de sacadas de rótula. Daí foi que ele saiu, acompanhado pelo cabido, para descer ao encontro de D.Pedro. Tendo eu seis anos incompletos, a salva dada por uma bateria de pequenas peças postadas no largo do Carmo intimidou-me a ponto de me fazer chorar.
Mas o verdadeiro conhecimento da Paulicéia eu adquiri somente após1830, depois que conclui minha aprendizagem de primeiras letras no Seminário de Santana, passando a residir na cidade para frequentar a aula de latim. O Seminário a que me refiro teve por fundador um asceta pertencente a uma família distinta de Santa Catarina, de quem o "Plutarco Brasileiro" de Pereira da Silva faz honrosa menção. Chamava-se Joaquim Luís do Livramento, mas era conhecido por irmão Joaquim, porque vestia o hábito, e tinha longa barba de ermitão.
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O consumo das fazendas finas não podia deixar de ser restrito, em razão do singolo trajar geralmente usado.
Um homem abastado com robissão (sobrecasaca comprida) de pano encorpado (as fazendas eram de lei), calça de saragoça, ou de ganga amarela ou azul, trajava decentemente e com essa fato domingueiro varava muitos anos.
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A saudade me levou longe, rememorando esses pormenores que todavia não reputo descabido, pois dão a conhecer os costumes primitivos daqueles tempos, em consequência dos quais força era que a cidade de S.Paulo fosse ainda, quase disse, quase a de Freire de Andrade. E assim permaneceu ela ainda por algumas dezenas de anos, até que por ser a sede do governo de São Paulo se tornou o centro das vias férreas, recebendo assim, a infusão de sangue novo, tanto indígena como estranho, que lhe imprimiu o impulso desse imenso progresso, que hoje ostenta.
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O corpo mais compacto da cidade ocupava longitudinalmente planalto da colina, cuja escarpa descamba a leste para o Tamanduateí, e ao poente para o Anhagabaú, acabando para o sul no largo da chácara dos Ingleses, e no campo de Forca; para o norte no convento de S.Bento.
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O edifício em que foi instalada a faculdade de Direito, e no qual até agora ela funciona, é um antigo convento. Entre os três, do Carmo, de São Bento e o de São Francisco, o último de mais humilde aparência, porém, mais vasto, foi o preferido.
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Conquanto inferior aos outros dois conventos da cidade na arquitetura exterior, o franciscano era como edificação uma antiga relíquia notável por sua vastidão, atestando o fervor e a pereseverança dos antigos, pois somente delas uma ordem mendicante podia ter derivado o poder de erigir uma tão laboriosa construção. Antigamente a frente do convento ficava dentro de um quintal, que tomava todo o largo atual de S.Francisco, só deixando livre um pátio na frente da igreja e duas ruas laterais, que o isolavam. Encravado nesse quintal, com frente para o dito pátio, havia pegado ao vestíbulo da igreja um casebre, em que anualmente pelo Natal os frades expunham presépio muito visitado. Não sei precisamente, quando o largo de S.Francisco veio a ficar descortinado pela demolição dessas tranqueiras.
***** A cidade tinha poucas ruas empedradas, e o calçamento dessas era pésimo, por ser feito com pedras não aparelhadas; e além disso de má qualidade para semelhante aplicação por ser pouco resistente, e muito irregular na forma. |