Influência da religião católica.
Na formação do caráter e dos hábitos de morigeração dos primitivos paulistas, grande e salutar foi inquestionavelmente a influência da religião católica.
As poderosas massas de aborígenes, ainda mal submetidas, que rodeavam ameaçadoras a nascente Paulicéia, as agruras da luta pela vida num meio onde a civilização e o progresso apenas se iniciavam, teriam esmagado os primeiros rebentos da nossa raça se o paulista, embora pequenino e fraco pelo número, se não revestisse para logo da indômita coragem e da proverbial rijeza de ânimo que o caracterizou e o fez salientar-se ao defluir dos séculos.
Foi na sua suavização desse caráter, no aplainamento da agudeza de ação, no amoldamento da soberana independência do paulista que a religião interveio limando-lhe as arestas mais ásperas, admissíveis e necessárias na fareza da vida do sertão, mas nocivas nos centros civilizados.
Esse evangélico "desideratum", plenamente conseguiu o espírito religioso, empregando maios eficazes, embora nem sempre brandos.
Em todos os ofícios divinos era a população paulista chamada a compartir. Nas procissões numerosas que o clero punha à rua, os " homens bons", que eram as pessoas mais gradas da povoação, deviam comparecer para exemplo e estímulo do povo humilde, e a Câmara, reunindo em si todas as prerrogativas do Estado, punia, com multa e cadeia, a falta de comparecimento aquelas manifestações públicas de religiosidades.
Tamanhos eram o rigor e a intransigência na observância desse dispositivo de lei, que a um filho do próprio João Ramalho, então ainda no fastígio da sua indiscutível potência de régulo, foi ela aplicada, embora das iras do altivo patriarca pudessem sobreviver graves complicações na vida social da incipiente povoação.
A incansável persistência do clero em atrair ao seio da religião as massas populares, o relativo sossego que aos paulistanos adveio da gradativo agregação do elemento indígena ao grêmio da civilização, a carência quase absoluta de diversões mundanas, fizeram com que o povo paulista, ao dobrar do tempo, intimamente se associasse, independente das insinuações oficiais, a todas as comemorações religiosas: os folguedos populares foram surgindo aderidos e em complemento às festas da igreja.
Incorporados às manifestações externas do culto católico, os bailados populares, com seu descantes e mascaradas, iniciavam-se comumente com larga antecedência em anúncio às festividades rituais.
Manifestação coletiva popular dependeu, a princípio, a realização dos bailados, do assentimento dos poderes públicos, expresso para cada folguedo, mas de tal modo identificou-se com o viver local, que acabou por ser encampado pêlos governantes e incluída nos programas oficiais: já no princípio do século XVIII a Câmara Municipal ordenava " para todos os juizes dos ofícios serem notificados para darem suas danças às procissões", chegando mesmo algumas vezes a indenizar aqueles magistrados populares das despesas por eles realizadas na organização dos bailados.
O hábito das danças e cantigas religiosas teve indubitável origem em São Paulo, no método anchietano, seguido também por Montoya no Paraguai, de adaptação d0os bailados bárbaros às práticas religiosas e de se fazerem aos primeiros catecúmenos recitar, no idioma autóctone, versos a Jesus Cristo, ao ato da confissão, a Santo Inácio de Loiola:
Inácio xeruba, xerercoara.
Thira pupe anhanga omocem
Xeruba jupari mocembará
Santo Inácio iandeanga
Oimomoryiauçub
Vimuaé omoçacem.
O uso da Máscara
É interessantíssima, ainda que sóbria, a documentação por nós reunida relativamente a tais folguedos, principalmente a referente ao uso da máscara. "Com pouco menos antigüidade que a do descobrimento do Brasil festejavam nele, como padroeiras, as onze mil virgens, sendo os estudantes de S. Paulo, os que se empenhavam mais nos seus aplausos e desejos, e com a modéstia e regulariedade devidas, usavam das máscaras para melhor disfarçarem a galanteria dos bandos, danças e entremesses a alardes em que muitos dias antecedentes ao da festa das santas virgens costumam andar pelas ruas; e para poderem fazer pedem licença aos Governadores nas cidades em que há e nas mais vilas aos capitães-mores delas" - eis os informes preciosos que a respeito, repetindo dizeres de petição anterior, nos fornece o despacho de D. João, quinto nome, dado por carta do Conselho Ultramarino de 14 de junho de 1728, a uma consulta que lhe fizera Antônio da Silva Pimentel, Governador da capitania de São Paulo.
Grandes folias eram as festas anuais das 11.000 virgens em S. Paulo: ao celebrarem-se elas em 1705, tanto cresceu o entusiasmo que o " homem bom" Domingos da Silva Teixeira, então no exercício do respeitabilíssimo cargo de escrivão da "Câmara" fez papéis de comédias públicas, o que lhe valeu formidolosa catilinária de juizes e vereadores, os quais por aquelas e mais "Razões" o suspenderam do exercício do cargo.
Os arquivos ainda nos contam que não só nas festividades com que a 21 de outubro de cada ano se comemoravam as problemáticas 11 mil virgens, as quais, segundo versões aceitáveis, não teriam atingido ao número de uma dúzia, mas em todas as comemorações religiosas, nos aniversários natalícios da família real, nas datas nacionais da metrópole, era hábito do povo paulista mascarar-se nos folguedos de rua, mediante licença do Governador ou da Câmara, no primeiro caso impetrado pelo povo, nos demais determinados pela administração pública.
Não eram as mascaradas costume peculiar ao povo paulistano, embora fosse hábito desde todos os tempos, das populações indígenas de Piratininga, como, aliás, de todas as outras do Brasil, disfarçarem-se, pintando o rosto, nas festas tradicionais.
O uso da máscara no S. Paulo colonial veio-nos indiscutivelmente de hábitos metropolitanos repercutidos das célebres mascaradas venezianas, por seu turno reminiscências recatas das orgias pagãs.
Consoante a afirmação de luso escritor, brilhante cronista a admirável "conteur", a máscara surgiu em Portugal pela primeira vez nas procissões sendo logo proibida pelas ordenações filipinas que a considera lesiva à gravidade litúrgica das cerimônias religiosas. Mas veio o tempo e relaxou o rigor da lei e " já no fim do século XVII bandos de mascarados com a cara coberta de ante face de veludo", afirma o mesmo escritor, quando, com mais acerto poderia tê-lo dito — em meado daquele século — corriam as ruas e vielas da velha Lisboa, sob o pretexto de qualquer festa, esfaqueando, roubando, exercendo vinganças, raptando mulheres, espalhando o terror e a confusão. coibindo tais desmandos e crimes, surge nova proibição com a resolução de 14 de agosto de 1654 e com o alvará de 25 de agosto de 1689 este, cominando as penas de multa, de prisão e de degredo ao contraventor, atos cuja sorte foi, tal como a repressão filipina, cair no ouvido, fim mesquinho que também tiveram a provisão proibitória de 19 de maio de 1752 e o edital de 23 de julho de1775, reaparecendo as máscaras em Lisboa pelas alturas do último quartel do século XVIII como recato de folguedos e principalmente rebuço nos crimes.
Em S. Paulo, nas eras coloniais, se não foram as mascaradas livremente permitidas,, também em tempo algum lhes pesou a proibição terminante; dependeram sempre do assentimento oficial transitório. Este nunca faltou aos impetrantes que as mascaradas daqui foram sempre burguesmente inócuas, jamais se tingindo dos rubros tons de sangue derramado nem se cobrindo de opróbrio no roubo ou servindo de capa a romanescas aventuras.
No evoluir social as danças e os disfarces intimamente ligados às festividades religiosas, foram caindo de uso, e a partir dos primeiros momentos do século XIX já não encontramos notícia nem reminiscências das primitivas mascaradas paulistas se não de mascarados avulsos e perambulantes, até aos dias não muito distantes de 1831.
No mês, derradeiro desse ano, a previdência do Presidente da Província, Rafael Tobias de Aguiar, tomando contas, num dos seus primeiros atos administrativos, ao anacrônico hábito, proíbe-o pelo justificado temor de que bem poderiam os adversários do golpe de Estado de 7 de abril de valerem do disfarce tolerado, para mais facilmente promover, desordens e cruentas represálias, cujos prenúncios vinham pressentidos na Paulicéia desde o momento da abdicação do primeiro Pedro.
" V. Ex. me informará com a brevidade possível ordena o futuro revolucionário de 42, em circular de 23 de dezembro de 1831 endereçada aos juizes de paz de Santa Efigênia, da Sé e do Brás, por que razão se permitem andarem máscaras pelas ruas nos domingos e dias santos, e muito particularmente armados, quando se pode servir deste pretexto para cometerem desacatos prejudiciais ao sossego público e à segurança individual dos cidadãos que, certos da proteção das leis, passeiam inermes pelas mesmas ruas; e no caso de ser isto autorizado pelas posturas do município, V. Ex. me informará também, como responsável pela tranqüilidade do seu distrito, se é conveniente, que pelo médio próprio, elas sem revogadas nessa parte.
Podendo acontecer, que pêlos dias santos do Natal o ajuntamento dessas máscaras, e de escravos de motivo a desordem, que alterem a tranqüilidade pública, que convém evitar, terá V. Ex. o maior cuidado sobre este objeto, fazendo rondar o seu distrito pelas patrulhas que julgar bastante..."
E como não encontrasse apoio nas leis municipais, o hábito de se velar o rosto em exibições domingueiras pelas ruas de S. Paulo, extinguiu-se sob a benéfica pressão oficial, para só reaparecer na Paulicéia com a introdução do carnaval moderno em 1857.
O Carnaval Moderno
O carnaval moderno! Acanhado e pudibundo como deveria ter sido um colegial... de 1857, apresentou ele, em S. Paulo, seus primeiros carros de platibandas altas, vedando avaramente aos gulosos olhares da multidão, as formas esbeltas e esculturais de elegantes pajens a Luís XV e de vivandeiras gentis, cujos vestidos eram , aliás, menos curtos que os da provocantes "toilettes" dos contemporâneos figurinos em suas exibições picantes do nu, sem anteparo de platibanda nem nada, ante a brejeirice lúbrica do transeunte ralé.
Mas, com o tempo, o carnaval foi tomando gosto à folia, e, num dado momento, saltou do regaço das sociedades familiares, que primeiro lhe deram o tom na Paulicéia, para a volúpia dos chamados "clubs": seus préstitos tomaram-se então da morbidez das exibições plásticas, inauguraram-se os célebres bailes "masqués" do Hotel das Quatro Nações, no Tivoli Paulistano e do Teatro S. José, então acabado de construir, e as "Cavernas" erigidas a Momo, abriram-se em formidáveis bacanais tendo por base, por essência e por divisa o grito lascivo, num gorgolejar do vício:
Mulheres, música e vinho!
Já em 1866, numa transmutação verdadeiramente cinematográfica, o carnaval paulista havia perdido inteiramente o recato e a compostura: seus bailes modificaram-se em verdadeiros pandemônios onde o mulherio fácil sepultava os derradeiros resquícios do pudor, as ceias assumiam a feição de orgias alucinantes e as danças passaram a sofrer o predomínio dos endiabrados "cancans", sobre os quaes nos fornece notícia — programa do baile realizado a 10 de fevereiro daquele ano, no Hotel das Quatro Nações: — " às nove horas romperá o baile com a grande sinfonia- " La Place". As mais belas polcas, as valsas as mais chibantes, farão dos bailes das Quatro Nações os primeiros de que haverá notícia em S. Paulo. Á meia-noite em ponto a orquestra tocará o grande e demoníaco- Galope característico- que imitará o correr de uma locomotiva acompanhada de toda a sorte de instrumentos: música diabólica, de um efeito indizível e que fará galopar os próprios reumáticos até ao inferno, e às quatro horas dar-se-á fim ao divertimento com o grande — Galope Infernal — com sinos, matracas, tiros, o que fará crer o fim do mundo e o Juízo Final."
É de notar, entretanto, que os tais bailes do "Quatro Nações" raramente chegavam ao "Galope Infernal" do programa: terminavam quase sempre antes da hora oficial em grossa bordoeira, num "banzé de cuia" indescritível onde muita cabeça se armava de "galos" e quebrada era muita costela.
Valsas
A provocadora - por Furtado Coelho
Arquejante- por Musad
Barbieri- por Q. Cunha
Guillemet- por Antonio Carlos Martins
Lanceiros- por Antonio Carlos Martins
Tomás Ribeiro
Pipilet
Polcas
Os primeiros amores de Bocage- por Furtado Coelho
Ilha do Carvalho- por Licínio Machado Torres
Crou-coru et Cri-cri- -por A . Herzog
Mimosa; Toque de recolher;
O beijo; o cassino militar
A Paulicéia; O cometa de 1857;
Os voluntários; Minha Paixão;
Polca russa; A graciosa;
Caminho de ferro; Anão;
"Souvernir" de Baía; Polidora;
O diabo a quatro; A posse do coração;
A rival grande; Medori;
Café com leite telégrafo elétrico; Amizade;
Tico- tico ( polca- lundu); " Un soir" de carnaval;
Fortunato; La sensitiva;
Os aliados; Adelaide;
Kerosena; Navarro;
Polca do grito; Les violettes;
O campesinho; Caprice, lembrança de Frankfort;
Bibi; O trem de machambomba;Sineiro; Bitu;
Minha Camélia; Fluminense;Bonito; A flor de Porto Alegre;Polcomani ; Incógnita;
Sebastopol; Meditar;
Lagra; Uruguaiana;
Lagrua la forza del destino; Bela;
Felicitadora; Cabrião ( po Emílio da Lago )
Quadrilhas
Barbe bleu- por Strauss
Belle Héléne- poor Strauss
Les bavards- por Strauss
Ante tamanha e tão brusca depressão de costumes, as sociedades familiares carnavalescas desapareceram, os bailes recatos do vetusto teatrinho do largo do Palácio, outrora pomposamente denominado da Ópera, não mais se realizaram, e as meninas que primeiro mantiveram o império do Carnaval em São Paulo, resignaram-se de boa-mente, honra lhes seja rendida, a assistir através das " rótulos", ao triunfo impudico e orgíaco das Ritinha Sorocabana, Antoninha Bella, Palmiteira, Bellona, da Ana Pérula, Izabelinha Onça, Paraguaia e da Mima, truculenta espanhola sem salero, as mais legítimas representantes do amor brejeiro da Paulicéia entre os anos de 1866-1880.
O entrudo
Desse carnaval foi irmão gêmeo o "intrúido" que, na acepção regional, não era o sinônimo do carnaval dos Auletes, Simões da Fonseca e Séguier, do simples intróito da santa quaresma, introitus, us, m, de Cícero e do Magnum Lexicon, mas restritamente designativo dos jogos d'água, da loucura das molhadelas de que todo indivíduo mais ou menos folgazão e bem-humorado se revestia, pela época das mascaradas, numa expansão muito sincera, porém, muito plebéia em sua alegria rude, de liqüefazer a humanidade à força de "laranjinhas" e das clássicas "seringas" de folha de Flandres, comportando estas, muitas vezes, mais de dois litros de líquido.
Soiré brélisienne- por Henrique Mesquita
Freijuchutz por Weber
Euridice- por A. C. Martins
Anjo da meia - noite- por A.C. Martins
As brasileiras- por Dorison
Haydée -por A. C. Martins
Novidades - por A. C. Martins
Nova quadrilha de Orphé aux enfres- por A. C. Martins
Corrupix
Cravo
Risette
Santa Cruz
Lanceiros
Desde quando existiu o brinquedo de entrudo em S. Paulo não sabemos. Em documentos do derradeiro ano do século XIV encontramos, por diversas vezes, o termo- intrúido — como limitação do tempo de fornecimento de carne à população paulistana, cada Sábado, por Domingos Luís, o fundador da ermida da Luz, e grande criador de gado nos campos de Guaré, — "que ele se queria obrigar a dar carne a este povo daqui até o intrúido"— mediante, claro está, determinada paga, que seria ajustada em dinheiro ou em "couros", ao preço que provavelmente não teria excedido de 8 réis o arratel.
O termo, por certo, eqüivalia ao de -carnaval- e lembrava a comezaina da carne e figurada licaça de folguedos num abarrotamento preventivo de antecipada compensação ao duro jejum e à rígida compostura quaresmal mas, se designaria também a brincadeira das molhadelas, dos banhos forçados, é o que ainda não conseguimos documentar.
Em Portugal já então o brinquedo do entrudo (gerado espontaneamente ou assimilado de costumes índicos ou judaicos, pouco importa esmiuçar) estava tão arraigado que o abuso e os excessos de sua prática provocaram, a partir de 1604, a ação dos altos oficiais a qual, de resto, remédio não teve senão abrandar-se e esmorecer nos seus intentos, como sempre acontece quando coincide enfrentar a vontade, aliás tão rara de se manifestar, firme e inabalável, do povo.
A 13 de fevereiro de 1604 aparece o alvará cominatório das penas de prisão e multa de mil réis" sem apelação ou agravo" diz o ato oficial, contra - " quem atirar com esguicho pelo entrudo e, sendo filho famílias não será solto sem que seu pai pague quinhentos réis e sendo escravo pagará seu senhor":- outras penas, embora menos severas, eram mandadas aplicar pelo mesmo alvará aos que, - " atirassem laranjadas"- que parece eqüivalerem às laranjinhas paulistas e aos limões de cheiro cariocas.
E não ficou por aí a energia da governança lusa: a 20 de fevereiro do mesmo ano de 1604, novo alvará proíbe os - " brincos d'elle", - ( dele entrudo), e cinco anos depois, em 1608, o alvará de 25 de dezembro toma - " providências para evitar as desordens do entrudo", - atestando assim a falta de cumprimento das disposições proibitivas anteriores. Cessasse ou não o jogo do entrudo em Portugal pelo choque dos hábitos populares de encontro à legislação contemporânea, o certo é que somente cento e vinte e seis anos depois, e, 1734 e 1735, apareceram novos atos proibitivos- " quem jogar entrudo, há de ser preso por vinte dias"- determina o aviso de 6 de fevereiro de 1734, que teve seu complemento no de 4, também de fevereiro de ano seguinte, com a declaração de que - " não seriam soltos sem ordem de usa Majestade e sem pagarem a pena, que seria arbitrária aos Ministros, e isto sem excepção de pessoas nem de menores".
É possível que por essa época já se brincasse de entrudo em S. Paulo, porém, de positivo, ainda nada encontramos exclusivamente regional nesses sentido para além da era de 1857.
Nas camadas sociais mais graduadas onde as expansões tem de se medirem, pesarem, ascenderem ou descenderem pela gama das conveniências coletivas, o entrudo era praticado, enquanto morno ia o entusiasmo, através de bisnagas perfumadas, pequenos e elegantes receptáculos, hoje exclusivamente utilizados como envoltório de tintas finas.
No auge, porém, do calor pelo brinquedo e quando esgotadas as munições de bisnagas e laranjinhas, recorriam fatal e invariavelmente os brincalhões mais desabusadas às bacias, aos barris e à inteira imersão em tintas de água, sem que poder humano tratasse ou desse mostras sequer de lhe Ter ocorrido a idéia de qualquer medida salutar de enfreamento à selvática expansão e destemperada alegria.
Durou esse desvairamento até os últimos dias do império, em que os jogos d'água se foram gradativamente substituindo pelas modernas batalhas de "confetti", de "serpentinas" e de lança-perfumes, estes muito semelhantes, porém refinadamente mais distintos que as antiquadas bisnagas, num folguedo todo consentâneo com a civilização atual embora menos emotivo e original, que as primitivas molhadelas.
Festas populares
Com a diluição dos bandos em mascarados avulsos, a prática dos outros folguedos públicos foi-se modificando, passando as procissões a serem acompanhadas pela massa popular em respeitosa atitude e devoto recolhimento, tardia observação da provisão de 1752 que, condenado o uso das máscaras, proibia também as danças nos cortejos religiosos.
Nesse período de transição que fixaremos sob os albores do século passado, as danças já eram realizadas sem o caráter público e religioso de outrora e sem o concurso indistinto das diversas camadas sociais.
As castas da população foram-se delimitando e detalhando-se os costumes até a extinção da promiscuidade de classe naqueles folguedos. Unicamente as " congadas" " batuques" sambas, os " moçambiques", ainda se realizavam pelas ruas, de ordinário no largo de S. Bento ou junto às igrejas de S. Benedito ( que os documentos atestam pertencer a S. Francisco), e do Rosário, após o recolhimento das procissões: reprimidas por anacrônicas, foram substituídas pela dança dos " caipós", arremedo dos costumes daqueles selvícolas, sem valor étnico, organização artificiosa que era, de pretos crioulos da Capital.
Por esse tempo o "cateretê " tradicional, doce perfeitamente discriminadas, bailavam à européia nos salões doirados dos palacetes patrícios: só a clássica fogueira e os espipocantes rojões continuavam formando o traço de união entre as diversas gradações do povo nos folguedos comemorativos de caráter religioso.
Ainda em época relativamente recente, nas noites de festas religiosas populares, notadamente nas de Santo Antônio, S. João e S. Pedro, pêlos quintais das casas nobres ou dos chãos humildes da Paulicéia, na frente dos casarões opulentos ou das modestas moradias, acendiam-se fogueiras em abundância tal que, em determinado momento quem, das eminências que rodeiam e velha Capital paulista a observasse, receberia a impressão de estar assistindo ao incêndio de uma cidade. Nessas horas de ardente e crepitante alegria a criançada fidalga e a petizada plebéia queimavam rodinhas, pistolões e bichas chinesas os " traques" da gíria popular, enquanto os marmanjos de todas as classes soltavam balões, espoucavam foguetes e escorvavam os célebres busca-pés de " Limagem", perigosas serpentes de fogo que em quantidade incontável rabeavam rápidas e furiosas em todas as direções, sapecando as pernas dos transeuntes e invadindo casas onde freqüentes vezes ocasionavam princípios de incêndio.
Tal como nos folguedos, que se dizem homenágicos a Mamo, S. Paulo não sentiu nunca o pesado guante das leis metropolitanas que proibiam com rigor excessivo a fatura e queima de " fogos de pólvora": - " quem as fizer ou lançar nas festas dos santos, ou em qualquer ocasião que seja, tem pena pecuniária, e de degredo" era o que, em súmula, sentenciavam em sua contextura a lei de 9 de janeiro de 1610, o alvará de 2 de agosto de 1641, a lei de 3 de agosto de 1689 e o decreto de 23 de julho de 1641.
Mas, parece que toda essa legislação não foi bastante para aplacar o ardor esfogueteante da tradição, pois o legislador luso volta a declarar, pela lei de 29 de julho de 1695, " que o caso era de devassa a qual os julgadores seriam obrigados a titrar ao menos de oito testemunhas que não passariam de doze: e que a proibição compreendia geralmente os feitores que fizessem os foguetes, e as pessoas, que os mandassem fazer e as que os lançassem, ainda sendo menores de 10 até 14 anos, a também os que fizessem estalos de papel".
A polícia de costume tentou, nos tempos hodiernos, por diversas vezes, restringir em S. Paulo a diversão, realmente anacrônicas, proibindo de preferência, embora sem as lusas ameaças de degredo, a queima dos busca-pés de limagem, que a ela provocavam especial ojeriza e ao pacato burguês, fundado pavor, e o fato é que, se em São Paulo a tradição de tais folguedos não está de todo apagada, suas manifestações não se estendem, entretanto, muito além da queima das inofensivas bichas, das clássicas rodinhas, dos busca-pés de vintém, e dos pistolões de oito ou mais balas, estes menos queimados hoje em homenagem aos santos do céu que aos da terra e nesse último caso, sempre de portas a dentro, fugindo assim à transgressão de recentíssima disposição policial que proíbe - " os fogos de artifício, tais como pistolões, craveiras, rodinhas, balões e outros quaisquer, quando lançados das janelas, de modo a ofenderem os transeuntes ou as casas fronteiras".
Nos arredores da Capital os festejos, ainda que obedecendo as linhas gerais do programa citandino, corriam mais calmos, menos afoguedos: consistiam, à tarde ou, no mais das vezes, à noite, no levantamento do mastro acompanhado de salvas de roqueira, sem honra ao padroeiro do dia, e na imprescindível fogueira (fogueira na Capital, calheira no interior) ateada no terreiro, não só para iluminar e aquecer, com também para assamento de pinhão, aipins e batatas doces com que se regalavam os foliões durante as folguedos.
A caboclada miúda traques em redor do fogo e a graúda iniciava o caterete, indefectivelmente regado a quentão, mais ou menos no momento em que, na cidade, outros descendentes de comparticipantes dos " bandos e a "ardes" coloniais deleitavam-se na ginástica estonteante das " gavotas", do solo inglês e da valsa francesa.
A classe humilde da população paulistana que, nos arredores da Paulicéia, sempre viveu e ainda vive uma vida meio bucólica, meio cidadã, é indiscutivelmente a legítima depositaria dos velhos hábitos da nossa antiga Capital. É ela quem, recebendo a civilização estranha em dosagem racional, se vai avantajando em progresso sem perda das características peculiares aos nossos avós. Mercê desse conservantismo, virtude e não prejuízo, vamos encontrar no caterete moderno e nos seus descantes ao desafio as reminiscências das danças, dos entremezes e alardes das longínquas comemorações religiosas.
No Colluvius Consuentudinum da sociedade moderna onde impera a feição internacional, a esponja da indiferença apagou todos os traços do nosso viver passado. O africano chamado, desde seu aparecimento no cenário da nossa vida de coletivamente, a compartir dos primitivos costumes não o soube conversar e nem da sua peculiar maneira de ser, deixou documentação apreciável, pelo menos na Capital onde, entretanto, até há bem pouco tempo poderia, com a mais rigorosa fidelidade, ser registrada a etnologia africana, fartamente representada por diversas e várias nações negras em S. Paulo.
O Samba
Ainda em 1860 e até mesmo em 1865, pelas festas religiosas ou dias santos de guarda, reunia-se no pátio de São Bento, obtida licença oficial, a escravatura da cidade na realização dos seus folgares religiosos que eram suas danças características.
O negrume então tantos grupos quantas as origens étnicas em que se subdividia, e as danças e os cantares rompiam ao ruído seco do reque-reque, ao som rouco e soturno dos tambus, das puítas e dos urucungos que, com a marimba solitária, formavam a coleção dos instrumentos africanos conhecidos em nossa terra.
Quis o acaso que as nações Mina, Cassange, Benguela, Moçambique, Congo, dispersas e mal conhecidas entre si, na pátria comum, tivessem sua etnologia legitimamente representada nos alçares ajuntamentos do primitivo arraial do patriarca Tibiriçá, pelas tribos negras que a traficância humana arrojou à plagas paulistas, acaso que os nossos sociólogos da época, lastimavelmente deixaram de aproveitar, nada registrando sobre as modalidades etnológicas com que os forçados colonos se apresentavam em nosso meio.
Se o fizessem teriam quanto menos, verificando que os cantares dos pobres cativos longe da alegria sincera e despreocupada, não exprimiam senão os queixumes da raça infeliz, não eram senão referências amargas, senão o histórico doloroso dos seus infortúnios.
Turi caringa e cangombe
Eh!...
Cuenda caiara
Equinama Cungira
Eh!...
Com a morte do último africano em São Paulo, desapareceram as tradições, em sua pureza, da raça negra e hoje o samba, amálgama das múltiplas danças regionais, da capoeira, do lundu, do jongo, hatucado em quase todas as fazendas e sítios do Estado de São Paulo e fundamente desfigurado pelo perpassar do tempo e da civilização, é tudo quanto resta dos costumes característicos do povo oprimido.
A pomba vuô; vuô. Sentô,
Arrebente o sanba qu'eu já vô.
Eh! Pomba! Eh"
Entoava no samba de há uns quarenta anos passados, o ébano figurante, ao som ritmado dos tambaques, adufes e chocalhos, num saracoteio infrene, em contorções grotescas, sem arte e sem estética, lúbrico, torpemente lascivo no rebulir de quadris, que era o momento calmo da dança, o " sereno da pomba", enquanto os parceiros, pretos e pretas que o cercavam em círculo, agitados em permanente peneirar de nádegas, repetiam na mesma toada, o estribilho.
Eh! Pomba ! Eh!
Retornando o dançador:
Serena, pomba, serena:
Não deixa de serená!
O sereno desta pomba
Lumeia que nem metá!
Eh! Pomba! Eh!
E o negrume gemia, em coro, na cadência dos rudes instrumentos:
Eh! Pomba! Eh!
Afinal já quase exausto, a fronte gotejando de suor, entreparava o dançador em frente à parceira que mais lhe agradara, desenvolvendo a dança em requebros de desafio até a figurante distinguida pela preferência sair a terreiro.
A pombinha vuó no chão
O amó no coração,
Eh! Pomba! Eh!
Então, entre os dois, desenvolvia-se um jogo de negaças amorosas que se desdobrava, tardia ás vezes rápido, terminando invariavelmente em recíproca umbigada, lúbrica, lescina, obscena...
Serena, pomba, serena
Não deixa de serená
Eh! Pomba! Eh!
E coro, sempre na luxúria do " sereno " respondia:
Eh! Pomba" Eh!
Levado pela curiosidade e pelo ,interesse de saber se o samba atual é o mesmo dos tempos de nossa meninice, dirigimo-nos à Pirapora por ocasião das festas padroeiras do ano de 1921, às quais acorreram romeiros dos recantos mais remotos de S. Paulo, Estados convizinhos, sambista de toda a parte.
Guiados pelo prestante cidadão Gabriel Fernandes, caboclo inteligente e afável, violeiro emérito e trovador para quem o encontro de rima não apresenta dificuldades, penetramos no abarracamento dos pretos sambistas no momento em que a dança tradicional africana, geratriz do maxixe nacional, estava no mais furioso dos entusiasmo.
Havia ali grupos de todas as procedências: de Campinas, de Guaxupé, da Capital, de S. Simão, de Jacareí....
Aproximamo-nos: em todos os grupos, alguns negros retintos, tapanhunos puro sangue; muitos negros fulos, alguns mulatos em marcha para a pigmentação caucasiana... no centro das rodas, quatro ou seis figurantes, quantos comportasse o estreito círculo formado pêlos parceiros, dançavam e cantavam acompanhados em grita pêlos da roda... O bombo corriqueiro e prosaico substituía em todos os grupos de dançadores o primitivo e característico tambu...
O' ia Maria tocano piano,
O ' ia Maria tocano piano ....
dizia o grupo campineiro em grande roda, logo à entrada do abarracamento.
Próximo aos campineiros, dançava a gente de Minas; sempre o inexpressivo bombo e a significativa mescla de pigmento.
O' ia a moda, óia a moda,
O'ia a moda de Guaxumpé,
Olelé, olelé a moda de Guaxupé.
Num dos recantos do vasto barracão moviam-se os morenos paulistanos:
Regina, Regina, óia lá!
Pôr causa do Bernardino
Creôla tá passano má.
mais além surgiam os de S. Simão, numerosos:
Eu sô ferreiro,
Maio no maiado,
Tôro comigo E' que tá enganado
e os jacareianos, mais pacholas, cantavam.
Gravata, pescoço, colete, cetim,
Tudo é à custa do " seu" Joaquim.
Olelé, olelé, olalá,
Largue o namoro e bamo sambá
Tudo novo, tudo moderno. Nada que despertasse reminiscências do ancestral africano, além da toada plangente....
Eh! Quielê!.. Quó!...
Ouvimos de repente, partido das proximidades dos jacareianos. Dirigimo-nos para ali, acercando-nos de quem soltara as vozes africanas: era um preto velho, boçal, derreado pela morbidez alcoólica, incapaz de assimilar as nossas perguntas, não lhe pudemos arrancar nada que aproveitasse aos nossos estudos e esclarecesse as nossa observações.
Infrutíferos foram todos os esforços por nós empregados para recompor a literatura africana de S. Paulo: nas tradições do povo transplantado do continente negro, nada encontramos além de ligeiras notícias sobre os costumes dos filhos de Angola e das quadrilhas seguintes que, longe de ser uma manifestação espiritual da raça a quem tanto deve o Brasil, não é senão mera crítica de origem erudita à humilde condição dos modestos colaboradores da nossa grandeza material.
Minha sinhá, minha sinhô
Eu peço poro caridade:
Ma dá minha carta me faze foro
Eu quero minha liberdade.
Abença sinhá, sô Christo nhorô
Eu vae me lavá, tirá meu boró
Não quero esta ropa de tanto riscado
Eu quero birim daquele infestado.
Eu quero uma camisa
Daquele de rinho bom
Pr'a pretinho vesti
No dia d' ano bom.
Eu quero uma guruvata
Daquela de grugurão,
E sapato de pirica
Pr'a não andá cô pé no chão.
Eu quero uma bengala
Daquela de cabo gorosso
Pr'a negrinho requebrá
Com jeito de negro moço.
O cateretê
É, portanto, entre a população que ainda se não envergonha de dançar o cateretê e de versejar sobre os temas ligados pela tradição que poderemos perscrutar os arcanos do íntimo viver do paulista de outras eras, vislumbrando-lhe a alma singela, o espírito levemente mordaz e satírico, o, gênio amorável e folgazão.
Desta missão sumamente árdua e delicada, mas labor de incontestável civismo muito grato a nosso espírito de patriota, iniciaremos o desempenho fixando neste capítulo uma das feições características da alma primitiva do nosso povo, as cenas do cateretê paulista, tal como se desenrolavam ainda há uns trinta anos passados em os arredores da Capital.
Antes, porém, de o fazer diremos, aproveitando a oportunidade do assunto, ser realmente admiração grande a sobrevivência, sem maiores deturpações, dos costumes, dos folguedos, dos cantares, da feição peculiar dos hábitos indígenas até nós, através dos embaraços, dos entraves, das barreiras levantadas pelo egoísmo luso, pela diplomacia velhaca (não fosse ela diplomacia) do reino, em fazer desaparecer tudo quanto puramente nacional parecesse; em anular, e evitar qualquer manifestação por parte do colonizado que ao indígena pudesse apresentar-se sob o aspecto de aquiescência ou de simpatia pêlos costumes autóctones. A alta política do colono metropolitano era e foi sempre a do calculado desprezo pêlos costumes e pelas origens indígenas, desprezo tácito, e também muitas vezes expresso em irritantes disposições oficiais e só pela força de resistência das raças aborígenes é que, já o dissemos algures, o cateretê, a influência do idioma, muitas das suas qualidades psíquicas fizeram-se fundamente sentir chegando até a geração atual.
Um dos documentos mais antigos e mais frisantes da repulsa oficial, pela difusão dos folguedos autóctones, aliás tanto ou mais inocentes e inócuos que as folganças ocidentais, é a proposta do Procurador do Conselho, Gaspar Nunes, apresentada à Câmara de S. Paulo em sessão de 19 de janeiro de 1583 e logo convertida em disposição legal: - " e mais requero o dito procurador do Conselho que todo homem cristão branco, que não seja negro de fora que se acha em aldeia de negros foros ou cativos bebendo e bailando do modo do dito jeito e suas merses lhes mandassem e pusessem pregão e pena contra os tais..."
Menos generoso e eqüitativo por mais radical e violento foi o procurador do Conselho de 1623, Luís Furtado propondo sem peias sequer de virgulação, em vereança de 21 de outubro daquele ano- " que se fizesse acordo sobre o gentio que nesta vila fazem bailar de noite e de dia porquanto nos ditos bailes sosedia muitos pecados mortais e esulências contra o serviço de Deus e bem como em cometer fugidas e levantamentos e outras coisas que não declaravam por não ser decentes e votado o requerimento acordação os ditos oficiais da câmara que antes da missa do dia de noite não ouvisse os ditos bailes só pena do dono do negro ou negra que for achado nos tais bailes pagar sem réis por cada negro ou negra que for achado pela qual afeito serão presos e da cadeia pagará seu senhor..."
Envolvido em plena atmosfera de premeditada indiferença, desenvolvendo-se sob a guante das disposições draconianas do juiz da indicação do analfabeto procurador do Conselho de 1583, e da do seu rancoroso e prepotente colega de 1623, claro está que a crença do pouco ou de nenhum valor do que nos pertence deveria se arraigar profundamente no ânimo do nacional, se o colono por si incapaz de levar bom êxito a empresa de devassamento do sertão, da perquirição da terra, não fosse obrigado a associar ao seus esforços como principal elemento de vitória, o indígena rude, refratário à sedentariedade, mas inigualavelmente apito na resistência máxima às fadigas das grandes entradas pelas ínvias paragens impenetradas do continente; e o aborígene que não era tão irracional quanto o supunha o dominador branco, acabou por compreender que nem tudo da sua terra era assim tão ruim como se divulgava, muito embora ainda hoje caboclo haja, requintado em civilização e brunido de snobismo que convencidamente afirme, efeminando pelo uso do espartilho, já nota pela alvura dos polainas, pelintra pelo monóculo desgraduado, só prestar o que não é nosso...
Mas o fato é que, amparada até determinados limites pela ação jesuíta, façamos a justiça de o reconhecer, a consciência, a intuição, embora tenue, do seu valor, conservar-se, manteve-se contra a expectativa maldosa dos senhores da terra, latente no espírito do indígena através de um regime que mais se assemelhava ao de uma feitoria que ao colonial, e o Gênio indômito do primitivo paulista, os seus hábitos, os seus costumes, a sua feição regional, que á cultura contemporânea do Ocidente não repugnavam, resistiríamos choques abruptos e animalizastes da ação oficial, e só mansamente é que se foram incorporando à civilização vitoriosa, num trabalho de assimilação, que perdura até os nossos dias. E assim é que poderemos dizer algo desse mesmo cateretê, ao qual o procurador Gaspar Nunes pretendia ferir, afastando-lhe o elemento ''branco que não fosse negro", em seu pitoresco linguajar.
Praticavam-se e cremos, ainda se praticam duas variantes do cateretê: uma, a mais singela e, por isso mesmo a mais divulgada, é desenvolvida por duas alas, como na quadrilha francesa, geralmente constituídas exclusivamente de homens ou, mais raramente, uma de homens e outra de mulheres.
Num dos extremos das aças, colocados em frente um do outro, postam-se dois violeiros, que rompem a função, entoando modinhas em vozes conjuntas ou ao desafio.
Nos intervalos das cantigas os figurantes das alas batem palmas e sapateiam em contratempo ritmado com as palmas, executam em seguida uma figura rigorosamente igual ao traversé da quadrilha francesa, os violeiros tornam a cantar, resoam de novo as palmas e o sapateado e assim continua a função pela noite a dentro, desinteressante e sensaborona.
A outra variante é o chamado recortado, o cateretê verdadeiramente ao desafio, que se pode dar entre dois violeiros, quando os há, ou entre o violeiro e os demais figurantes respondendo cada um de por si ao trvador único.
Desta variante, que se nos afigura ser o legítimo cateretê, é que nós vamos ocupar mais detidamente.
Na periferia luminosa da fogueira, em estirão do terreno previamente nivelado e batido, ou dentro de casa, em pavimento chão reúnem-se os dançadores.
O violeiro toma posição e os parceiros vão-se colocando a seu lado e á frente, formando duas alas, exatamente como na primeira variante.
Esta primeira organização é levada a cabo com algum trabalho do violeiro e do compadre do violeiro, que sempre os há em tais festa, e a azáfama no arrebatamento dos figurantes é entrecortado de frases pitorescas.
- nhô Tó, dexa de prosa, venha dançá!
- Zico, entra na roda, puaia"
- Compadre, tá pronto
- Tá.
- Intão bâmo
- Bâmo!
E o violeiro, temperando a viola, toma posição de caminho da roça, cavança em passo, lento, mole, preguiçoso, corpo descaído e com ele, no mesmo abandono de movimentação aluem as duas filas que se fundem em grande roda.
Completando o giro em redor da sala ou do terreiro, o violeiro firma-se no seu ponto de partida e a roda se desfaz nas primitivas alas.
Começam então os descantes à porfia e os passes da dança. O violeiro lança a primeira trova: um dos figurantes, em movimentos rápidos e sacudidos , destaca-se da linha e em dois saltos, mal tocando com os pés o solo, toma posição eqüidistante dos dançadores , executa passes sapateados ao ritmo da viola, ao retinir de chilenas que todo o dançador que se preza usa, embora não seja cavaleiro, bate palmas em contratempo oitavo, ao sapateado, entoa o descante em replica ao violeiro, com bamboleios de corpo para a direita e para a esquerda, executa de novo o sapateado e as palmas e volta a incorporar-se aos parceiros.
O violeiros de novo entoa, outros figurante responde e assim continua até que todos os parceiros hajam respondido ao desafio: então fecha-se a roda para novo giro em que a morosidade do passo é substituída por um sacudir nervoso e acelerado de todo o corpo, ao tempo que o conjunto dos figurantes, numa admirável uniformidade de movimento, executa passes algo semelhantes aos da gavota antiga francesa ou do cakewalk, firmando-se simultaneamente em um dos pés ao passo que o outro se leva e se afasta da linha do corpo em rápida e elegante curvatura de perna.
E na plagência da toada que é um queixume de nostalgia, revocativa como o rumorejar das nossas florestas no mistério da noite, retorna o violeiro ao desafio ritmado.
Do coqueiro nasce o palmito,
Do palmito nasce a palma,
Eu quero que mecê me diga
Quem entro no céu sem alma
A resposta não se faz esperar: um dos dançadores destaca-se das linhas, salta à frente e canta na mesma toada lançada pelo violeiro:
Do coqueiro nasce a palma,
Da palma nasce o palmito,
Quem entro no céu sem alma
Foi a cruz de Jesus Cristo.
Honte eu fui no céu
Hoje mesmo vim de lá
Vi alma de preto e de branco
De cabloco não vo lá.
Cabloco não vai no céu
Nem que seja rezalô,
Cabloco tem cabelo duro
Cutuca não vi lá.
Fui um dia no mercado
Comprá um pão de sabão,
Prá lavá uma nóda
Que tenho no coração.
Abaixe limoeiro
Quero apanhá um limão
Prá tirá uma nóda
Que trago no coração.
Ninguém viu o qu' eu vi
Lá véia muito feia
Conversando cô vigário.
Fui andando pr' um caminho
Muié véia me chamô
Cala boca caco véio
Que teu tempo já passou.
Seguem-se as palmas cadenciadas e o sapateado no mesmo ritmo; o primeiro figurante recolhe-se, o violeiro de novo descanta, novo figurante responde; novas palmas, novo sapateado; está ferrado o cateretê.
Está ferrado o cateretê mas o entusiasmo vai morno: os desafios são respondidos sem calor e os passes da dança executados sem a vivacidade quente do prazer. O violeiro tergiversa sobre os temas procurando a trova que desperta interesse e choque a sensibilidade dos cantadores: afinal, assunta para o amor e então, à proporção que se desdobra o descante, a função anima-se, as palmas e o sapateado retumbam com mais vigor, a movimentação dos personagens é mais rápida, as respostas ao desafio mais prontas e mais propósito, é que na alma do caipira, tão próxima da natureza virgem o amor fala mais alto que qualquer outro sentimento.
E os descantes prosseguem em apologia ou em despiques ao eterno feminismo, consoante a índole ou a humor de momento dos cantores:
Quem quisé me dá um cravo,
Há de se enquanto botão
Que depois de cravo aberto
Quarqué bobo trais na mão.
Inda o cravo tá nascendo
Logo cheira que arrecende
Não há coisa mais humilde
Que amo quando pertende
Apinchei o limão verde
Lá detrais da sacristia
Deu no ouro, deu na prata
Deu na moça qu'eu queria.
Já virando aquele morrro
Vai um passarinho avuando,
Vai dizendo cô bico
Adeus amô, inté quando!
Venho vindo de tão longe
Mandado não sei por quem,
Fui buscá não sei o que
Prá intregá não sei prá quem.
Quando vim da minha terra
Trouxe dois maracujá,
Um verde outro maduro
Cum esperança de voltá.
Quando vim da minha terra
Trouxe fama de ladrão,
Mais abraços e beijinhos
Nesta terra tamêm dão.
Quando vim daminha terra
Muita menina chorô,
Eu tamêm chorei um pouco
Pr'uma que lá ficou.
Lá do céu caiu um cravo
E no á se desfoiô.
Quem quisé casá comigo
Fale com quem me criô.
Lá no fundo do quintá
Tem um banquinho de vida
Eu fiu não sei onde
Visitar não sei quem
Saí assim não sei como
Morrendo não sei pôr quem.
Onde meu amô se senta
Quando vem falá comigo.
Lá no fundo do quintá
Tem um pé de marivia
Converso só cô a mãe
Mais o sentido tá na fia.
Bem sei que mecê é feia
Sua cara de pamonha,
Mais como o amô é cego
Quem ama não tem vergonha
Passei na ponte
E a ponte pendeu,
Quem não tem vergonha
Todo o mundo é seu.
Chegadas a estas alturas, as coisas parece declinarem para o rumo das personalidades num despique apaixonado entre os trovadores. Mais eis que surge uma voz conciliadora procurando imprimir nova feição ao desafio:
Vô-mimbora prá Minas
Minero tá chamando
Minero tem má costume
Chama a gente e vai andando.
e o violeiro começa calmo:
vô-mimbora minha gente
comigo não vai ninguém
vô corrido da Justiça
Vô amá e querê bem.
Andorinha do coquero
Daí-me nova de quem vem,
Inda não tô casado.
Já me dão os parabem.
Andorinha que voais
P'esse espaço sem fim,
Daí sodade á minha amada
Que mora em Mogi Mirim.
Abaixai-vois Serra Negra
Quero ve Mogi Mirim.
Quero se aquela ingrata
Inda se lembra de mim.
Rolinha de minha terra
Passarinho gemedô,
Que sodade que eu tenho
Do tempo que passô
Quem quisé caçá rolinha
Faça laço na capoeira,
Quem quisé moça bonita faça buia na gibeira.
Abaixai-vos, serras altas,
Quero ver toda a cidade,
Quero ver o meu amor
Que estou morto de saudade
Abaixai-vos, serras, altas,
Quero ver Guaratinguetá;
Quero ver o meu amor benzinho
Nos braços de quem está
Em dado momento os versejadores folgazões não encontrando inspiração para repicar a deixa do violeiro repontam os descantes e um deles entoa;
Tenho um cavalo baio
Minha mula pangaré
Meu cavalo fais biscoito
Minha mula fais café.
É a vitória do violeiro e este apressa-se a descantá-la chamando cavalgadura ao trovador infeliz;
Lá detrais daquele morro
Tem um pé de carrapicho.
Já vos puis a cangaia
Só farta ponhá rabicho.
A macreadeza do violeiro é recebida de mau humor pêlos cantadores; alguns deles tomam sentido da quadrinha ao pé da letra, zangam-se e o despique estabelece-se violento, áspero, remoqueante, ameaçando transformar o cateretê de cuia que era assim numa coisa muito semelhante ao moderníssimo virar frege, até surgir uma voz apaziguadora que procura aplacar os ânimos irritados fazendo o desafio descambar para novo assunto;
Toda a gente se admira
Do que vô cantá
Ei vi um grão de mio
Dá treis Quarta de fubá.
O exercício prolongado das danças e dos cantares abrevia a digestão dos foliões, cujos estômagos principiam a dar horas: surge então na rima ou outra velada reclamação contra a demora da bóia:
Eu já vi buia de prato
Já vi tijela tini.
Já tá passando da hora
Que o café tinha de vim.
e se dentre os figurantes do cateretê ou na assistência da função é divisada alguma carinha graciosa e tentadora de esbelta caboclinha os porfiantes, quatro paus no desafio, aproveitam-se da réplica para endereçar-lhe um pedido e um galanteio:
Moreninha bonitinha,
Cinturinha de retróis,
Dê um pulo na cozinha
Vá fazé café p'ra nóis.
e os cantares prosseguem embora os cantadores não sejam atendidos, mas levantando protestos contra a tagarelice feminina que retarda a hora do café, e dando larga expansão à maledicência contra o mulherio:
As mué quando se ajunta
E' pr'a falá da vida aieia,
Principia na minguante
E vai té a lua cheia.
As muié e as galinhas
Não se deixa passeá
As galinhas bicho come
As muié dão que falá.
Eu passei o Paraíba,
Imbarcado numa barsa
Os pecado deste mundo
Vem da saia e não da carsa.
E, assim, pela noite a dentro prossegue a função, até que, em dado momento os figurantes, cedendo ao cansaço, esmorecem: estabelece-se então, breve interregno, é servido café com mistura, depois uma roda de quentão e recomeça o cateretê estimulado pelo violeiro:
Minha gente roda, roda,
Que a função tá esfriando
Já mandei corre cachaça
P1ro povo s'i' squentando.
Entrei na vendaa
Jacaré tá lá
Só bebo pinga
Capilé fais má.
A cachaça é minha parenta
Quentão é meu irmão
Não há função nenhuma
Que os meus parentes não vão.
Muitas vezes a noite extingue-se, o dia surge e de novo a noite se aproxima sem que os dançadores se dispersem, e, se alguém se lembrar de lhes dizer que a grande dose de energia vital consumida nas danças prolongadas, muito melhor aplicação poderia Ter no amanho da terra, o dançador inveterado responderá, num dar de ombros desdenhoso, entoado ao som rompante da viola.
Tuda vida eu trabaei
Sempre morrendo de fome,
Mais, porém, acabei de crê
Que quem não trabaia tamen come.
Folia do Espírito Santo
Como em todo o mundo católico lusitano era a prática da folia do Espírito Santo uma das mais arraigadas na população crente do S. Paulo colonial e as próprias ruas da Paulicéia deram trânsito, até aos últimos tempos do século XIX, a numerosos e barulhentos grupos angariadores de donativos para aquelas festas religiosas.
Mas o progresso, firmando no moderno sistema utilitarista da luta pela vida, atulhando a formosa "urbs" paulistana de uma multidão que se acotovela e se comprime numa azáfama quase feroz, atravancando-a de veículos que rolam em contínuo e vertiginoso cousas e esmagando pessoas por amor à velocidade, transformaram os hábitos do povo paulistano, tornando impraticáveis na moderna Capital os velhos costumes tradicionais.
A grande massa de povo que enche de atividade febril as ruas da metrópole paulistana, no desejo e na necessidade da conquista do bem-estar, todo o esforço que cada elemento da sociedade moderna carece de desenvolver para não ser esmagado pêlos interesses adversos, exerceram funda e rápida influência nas velhas populações paulistas transformando-lhes o sistema patriarcal de existência, modificando-lhes os vestustos hábitos, dirimindo-lhes crenças, sugerindo-lhes novas idéias e novos ideais, mas trocando-lhes a felicidade sadia, despreocupada e tranqüila de outrora, pelo inferno da felicidade brilhante, candente como o ferro em brasa, do viver moderno.
A transcorrência da vida social moderna baseia-se na movimentação agitada, no aproveitamento rápido do tempo: a prática dos velhos hábitos da primitiva população cidadã paulistana, firmava-se na morosidade contemplativa; daí a transformação realizada numa rapidez cosmorâmica dos nossos hábitos e do nosso viver material no último trintênio.
A moderna agitação utilitarista asfixiou o idealismo tradicional: pena é que com os prejuízos da ronceira civilização provinciana também perdido muito das belas e extraordinárias qualidades legadas pêlos bandeirantes.
As ruas, atravancadas da atividade especuladora da multidão que se agita e luta, incessantemente movimentada, porque a imobilidade ser-lhe-ia a morte, já não comportam as manifestações do viver sedentário, as exteriorizações das crenças e dos gozos contemplativos da velha sociedade paulistana: as procissões, públicas externações da religiosidade num povo sincera e ingenuamente crente, tão freqüentes desde os primeiros tempos coloniais, temem hoje o contato com a multidão que as múltiplas exigências materiais do viver moderno obrigam a cultuar ideais nem sempre coadunantes com o desejo louvável de bem viver com Deus e de se garantir na felicidade de uma vida futura em cuja existência, seja embora uma utopia, todo o espírito bem formado se compraz em crer.
As comemorações da popular trilogia católica lusitana transplantadas e fundamente arraigadas no ânimo das populações brasileiras, foram-se reduzindo e acabaram por se extinguir na modernizada Capital da nossa terra.
Antes, porém, que tais hábitos se transformassem em monstruosos anacronismo um houve, primeiro que todos, que se ressentiu dos efeitos da metamorfose a que se estava sujeitando a velha civilização paulista, meado que foi o século passado: era a folha do Espírito Santo.
Devoção e diversão, das mais arraigadas nas classes humildes da população, foi, entretanto, o primeiro dos costumes populares feridos e esmagados na Capital pelas exigências da civilização invasora se bem que, no interior, ainda lute e reaja contra a desassimilação lenta, mas ininterrupta e fatalmente inevitável.
Na Capital, ainda no segundo quartel do século XIX, aparecia a folia ruidosamente festiva com os seus numerosos e barulhentos figurantes, mas a multidão com que a vida intensa de hoje abarrota as grandes cidades, comprimiu-se e sufocou-a nas antigas soturnas ruas da Paulicéia, acabando por exterminá-la.
Não foi sem luta que a folia desapareceu da Capital: longe de se extinguir de chofre. Foi ela se tornando menor em sua organização e pequena pela limitação de seus membros. Foi-se adelgaçando pela perda gradual e paulatina dos seus figurantes, acabando por se reduzir a um único pedinte.
Os primeiros figurantes a desaparecerem foram os moleques dos " tambores": seguiram-se os dos " ferrinhos" e os " violeiros" . o " trovador", que já se havia transformado em " porta bandeira", sentindo-se isolado emudeceu, deixando de ser " folião", para se converter em mísero assalariado, pedinte por ofício, em concorrência aos " andadores" da irmandade religiosa. O próprio vexilo cedeu lugar ao clássico pratinho de prata e o peditório em verso foi substituído pela prosaica - " esmola para a cerca do Divino"- frase que o pedinte, sem devoção, porém de obrigação, ia repetindo de porta em porta restringindo-a contraindo-a em obediência à lei do menor esforço- " esmola pra' ser Divino".
Geralmente os paulistanos e os moradores do interior de S. Paulo realizavam as festividades do Divino Espírito Santo ao decorrer do mês de maio de cada ano, com cerimônias religiosas, invariavelmente precedidas de novenário, cujo brilho e pompa dependiam das esmolas recolhidas, e de festejos profanos oferecidos pelo " imperador do Divino " aos fiéis na véspera e no dia das festas religiosas.
A festa profana constava comumente dos clássicos leilões de prendas, levantamento do indefectível " pau de sebo" e do "mastro", do Divino com as tradicionais salvas de "roqueira", queima de rojões e " fogueiras" que a sinonimia indígena converteu em " caiera", finalizando com o insubstituível " cateretê" entre a caipirada, e baile à européia para os convidados mais grados do festeiro, terminando tudo em opírapara ceia para todos, na " casa do Império", e farta distribuição de gêneros alementícios aos pobres.
A realização destas incumbia sempre a uma comissão composta de um " imperador", de um " capitão do mastro" e, algumas vezes também de um ou mais " alferes da bandeira" sorteados ou eleitos pêlos fiéis ao terminar da festa anterior.
A essa comissão cabia organizar as folias destinadas a percorrer a freguesia em que se deveria realizar a festa, na angariação de recursos de toda a espécie, para o custeio dos festejos.
E os grupos de foliões, constituídos de um ou dois violeiros, de um tocador de tambor e de diversos rapazolas tocadores de pandeiros e ferrinhos, munido cada grupo de uma bandeira vermelha de cujo centro emergia, circundada de raios solares bordados e lentejoula, a branca e alada imagem do Divino, ou simplesmente de uma haste metálica encimada por uma pomba, também de metal ou talhada em madeira, dispersavam-se , a cavalo ou, mais comumente, " calcante pede", pelas ruas da Capital e pêlos sítios e fazendas, percorrendo todos os caminhos e atalhos numa peregrinação de dias e, muitas vezes, de semanas e meses, em peditório de donativos jamais negados. Cada grupo de pedintes formava uma folia e o seu peditório característico era a particularidade mais interessante que distinguia a festa do Divino Espírito Santo das demais festas populares de tradição.
Depois de organizados seguiam os foliões, batendo de porta em porta, dos abarracados solares dos fazendeiros opulentos aos humildes ranchos do rude cavador da terra, pedindo e agradecendo tanto a espórtula avultada como a desvaliosa dádiva em espécie.
O violeiro de ordinário improvisador emérito, preferia pedir em verso a implorar em prosa e, ao aproximar-se das habitações prevenia os habitantes da folia, cantando.
Meu senhô, dono da casa
O Divino aqui stá,
Com sua divina graça
Com ela se há de achá.
Dai esmola ao Divino
Com prazer e alegria,
Arrepare qu'esta bandeira
E' da vossa freguesia.
O Divino pede esmola
Não é pôr carecê,
E' p'ra vê quem dá com gosto
P'ra deus agardecê.
E, ao receber a espórtula que se não fazia esperar, entoava de novo o violeiro, agradecendo:
Gardecêmo a esmola
Dada de bão coração,
O Divino Espírito Santo
Le Dará a sarvação.
O Divino espírito Santo
Essa pomba groriosa,
Le dará felicidade
E no céu c'roa de rosa.
E assim caminhava a folia perambulando, pará-parando na pitoresca expressão do roceiro, pelas estradas, até o crepuscular vespertino a surpreender na faina, advertindo-a do momento de descanso : aproximava-se então da primeira moradia que encontrava e pedia pouso. Nesse caso a cantilena tornava-se mais longa, proporcionando-se ao favor solicitado, muito maior que a simples espórtula atirada à passagem do bando.
Meu Divino em sua morada
Neste abençoado dia,
Sarva o dono desta casa
Sua muié e sua famia.
De sua muié e de sua famia
Meu coração se alegrô,
Arrecebeu com tanto gosto
O espírito creadô,
O espírito creadô
Chego na sua morada,
Viva o dono desta casa
Com sua famia honrada.
Bás tarde meu senhô
Bem alegre e bem contente,
Que le sarve meu Divino
Com tudo que le pertence.
Viva o cravo, viva a rosa,
Viva a frô de maçania,
Viva o dono desta casa
Com tuda a sua famia.
Meu Divino desde cedo
Em sua casa se parô,
P'ra pedi uma posada
Dependê do seu favo.
Quem le pede esta posada
E' um senhô de alegria,
Pede o poso p'ro Divino
E, p'ra tuda companhia.
Meu senhô dono da casa
Amostre sua alegria
Agasaio p'ra nóis tudo
E uma janta p'ra folia.
Veja com tá bonito
Esse abençoado dia,
O poso p'resta noite
Dê com gosto e alegria.
Bendito louvado seja
Meu Divino em suas mãos,
Ele mêmo le pregunta
Se você dá o poso o não.
Bendita louvado seja
Senhora de Nazareth,
Guardei a nossa bandeira
Té aminhã si Deus quisé.
Concedido o pouso, os foliões recolhiam-se à casa do hospedeiro gracioso, que lhes oferecia jantar e no dia seguinte, suculento almoço suplementar que, cimentado pelo uso já se subentendia no pedido de pouso.
Depois de refeição matinal a folia, aprestando-se para a partida, reunia-se à porta do generoso e desinteressado anfitrião, e agradecia:
Meu senhô dono da casa
Deus le d~e muito bão dia,
P'ro senhô com sua muié
E tamem p'ras suas fia.
Meu senhô a sua morada
Meu Divino abençoô,
Debaixo da sombra dele
O meu Divino posô.
Deus le pague o bão armoço...
Tamem o jantá d'onde, deus le dê um lugá no céu
E o meu Divino de fronte.
Deus le pague o bão armoço
E tamem o bão café,
Deus le leve lá no céu
O senhô com sua muié.
Deus le pague pelo pasto
O mio dos animá,
O Divino Espírito Santo
Que aumente seu cabedá.
Bâmo dá as dispidida
Nesta abençoada hora,
Neste instante d'alegria
Me adispido e vo- mimbora..
Bamo muito gardecido
De nos dá tão bão trato,
Meu Divino hoje carregue
Lá no céu seu arretrato.
Bamo dá as dispididas
C'uma dô no coração,
Se cantando le agravei
Contando peço perdão.
E a folia, refeita das canseiras das passadas jornadas pela generosa e reconfortante hospedagem, reenceta, com alegria e despreocupação das almas ingênuas e boas, a penosa romaria do peditório.
Após longos dias consumidos em percorrer em todas as direções o distrito designado para desempenho de sua trabalhosa missão, voltavam os foliões aos seus lares, depois de fazerem aos festeiros a entrega solene da coleta realizada.
Ao aproximar-se da casa dos festeiros, o violeiro entoava ao som dos instrumentos:
Deus vos sarve casa santa
Onde Deus tem sua morada
Onde tá o cálice bento
E a hóstia consagrada.
A pombinha vem avuando
Prô riba do corredô,
Vem dizendo viva, viva
O nosso imperadô.
A pombinha vem avuando
No bico tem um botão,
Vem dizendo viva. Viva
O nosso capitão.
À chegada da bandeira
Nesta abençoada hora,
Encontraram dois espírito
Todos dois rei da grória.
Ainda hoje é realizada em todo o Estado de S. Paulo, inclusive na Capital, a festa do Divino Espírito Santo, em dias e meses, a partir de maio arbitrariamente designados pêlos promotores de cada festa, sendo que na freguesia da Penha de França efetua-se tradicionalmente em setembro, oito dias após a realização das festas homenágicas à padroeira do lugar.
Mas as festas do espírito Santo em nossa terra, perderam toda a originalidade da primitiva comemoração profana, com o desaparecimento do peditório em folia, desassimilado pela enorme massa de imigração bruscamente fixada em S. Paulo expoente incomparável de vitalidade e de progresso,
Deus vos salve casa santa
Em que Deus fez sua morada
Onde existe o cálice bento
E a hóstia consagrada.
Não só esta como a maioria das quadrinhas consignadas neste capítulo foram colhidas de folões de Conceição dos Guarulhos. De origem diversa só registramos duas:
Daí esmola ao Divino
Com prazer e alegria, etc.
Também registrada pôr Mello Moraes em suas " Festa e Tradições " e
O Divino Espírito Santo
Essa pomba gloriosa, etc.
mas também elemento poderosamente modificador de usos e de costumes: daí, talvez, Ter-se originado, modernamente, a série de proibições conjuntas do poder eclesiástico com o secular que, a partir do bispo D Antônio de Mello, vem apressando o desaparecimento da tradicional prática.
Não fosse a rápida avolumação de povo em tradicional desenvolução do progresso, e tais proibições não teriam podido, pôr si nós, aniquilar velhos costumes que pôr ventura ainda estivessem fundamente vincados na vida popular, pela óbvia razão de serem as leis, quando sábias, natural decorrência do grau de civilização de cada povo e não seus fatores originários como parece ter acreditado certo povo muito de nosso íntimo conhecimento copiando, para seu uso e gozo, leis de civilização exótica em diversa e mais adiantada etapa.
A folia do Espírito Santo, costume e uso transplantado do mesmo tronco que nos deu o monjolo, as paredes de pau a pique, as coberturas de palha, as mascaradas, o entrudo de esguicho, os fogos de pólvora e a trilogia dos santos populares, teve também sua legislação metropolitana, letra morta como as demais, em referência ao Brasil, uma vez que se não referia ao fisco famélico.
O alvará de 25 de dezembro de 1608 derrogando implicitamente proibições anteriores, determina que se " não podem esmolar licença, e nunca com imagens nas mãos pelo pouco respeito com que as tratam", e esclarece, sobre " as circunstâncias que se devem primeiro averiguar e as restrições com que depois se hão de conceder tais licenças". A carta régia de 14 de junho de 1728 fez privativa dos capitães- generais a concessão de licença para o peditório em folia.
O " conselho do governo de S. Paulo" ceifando em seara evidentemente alheia e em falta talvez de mais transcedental assunto a tratar, determinou, em sessão de 10 de " Outubro" de 1825. Ao presidente da Província que jamais deferisse em qualquer circunstância, pedidos de licença de tal natureza, determinação a eu o pachorrento e calmo Congonhas do Campo deu cabal cumprimento até o derradeiro momento de sua administração em 1827. Nesse ano e no mês de outubro a desabusada senhora D. Leonor Nóbrega de Jesus, visivelmente inspirada de algum espírito santo forense, vai até ao Conselho e requer permissão para esmolar pôr diversas vilas em benefício e proveito das festividades do Divino, recheando sua petição de citações eruditas e de argumentos incisivos contra a deliberação imposta ao Presidente pelo Conselho de 1825.
Ao inefável promotor do movimento absolutista de Taubaté, ao doutor, coronel e comendador de extensíssimo nome e mais amplo renome, o torvo e sombrio Juiz de Fora Manuel da Cunha de Azevedo Coitinho Souza Chichorro, de quem mais tarde, Líbero Barbaró teria oportunidade de dizer, através do " Observador Constitucional", coisas que não seriam doces, coube, qual arrependida Madalena expurgando pecados grandes, invocar respeito às leis em vigor, defendendo o pedido da foliona requerente: barafustando pelas ordenações e pelas ordens régias, afirma, mui judiciosamente, aliás, que, " vigorando ainda a tal provisão de 1728 à vista do que preceitua a carta de lei de 28 de outubro de 1823, devia ser considerada, em observância dela, improcedente e sem vigor a deliberação do Conselho de 1825, ficando assim livre à presidência dar ou negar as referidas licenças, pôr ser isso de sua privativa competência, como sucessora que era dos capitães- generais".
Seja como for, a verdade é que o poético bucolismo do peditório perambulante do Espírito Santo, estava virtualmente condenado pela avassaladora civilização cidadã à extinção em S Paulo, e hoje pertence às coisas do passado a organização das andejas folias: a alva pomba do Espírito Santo voou, fugiu no versejamento ingênuo do caipira, das nossas práticas populares de religião, nos centros bafejados pela civilização moderna, indo aninhar-se no mais longínquos lugarejos do sertão, ainda não atingidos pelo progresso revolucionário:
O Espírito Santo!
Vuô!... Vuô!...
E só tristezas
Aqui deixô.
enquanto nas novenas das festividades realizadas na Capital ou em Santo Amaro, em Itapecerica ou em S. Bernardo, ainda é invocado em verso, o retorno do Espírito Santo:
Vinde Divino Espírito
Vinde Dom da Ciência,
Dispor que eu seja
Digno de vossa assistência.
Vinde Divino Espírito
Vinde Dom de piedade,
Acender meu coração
Inflamar minha vontade.
Vinde Divino Espírito
Dar-me santo temor,
Para que todo eu ponha
Só em vós o meu amor.
Vinde Divino Espírito
Vinde pomba imaculada,
Para em meu coração fazerdes
Pura, santa morada.
Extraído do livro "Tradições e Reminiscências de S.Paulo", de Afonso de Freitas