Homossexualismo

Vindos não sabem de onde, "homens em trajes de mulheres" aproximavam-se de São Paulo em 1623, alarmando os nobres vereadores da Câmara Municipal, que viam a cidade prestes a ser invadida por aquela caravana do pecado.
O estranho cortejo, porém, como antevendo a recepção, preferiu tomar um atalho, no seu aparente caminho para as minas de ouro, evitando o contato com o pudico burgo. Foi pena, pois os seus integrantes se furtaram de ver seu nome brilhar na história entre os pioneiros dos travestis paulistanos.
Por aquelas épocas remotas, a inquisição de Lisboa fumegava a plena vapor e previa para o homossexual a pena de ser "queimado e feito em pó". Tinha também braços compridos. Em 1646, suas garras, através dos prepostos locais, chegaram a Luiz Gomes Godinho, culpado do crime de sodomia e refugiado em São Paulo.
As chamas do fogo sagrado, contudo, não chegavam a intimidar aqueles que se deixavam arder sob o calor do amor que não ousava dizer seu nome. No século XVIII, vários mestres do colégio da cidade elegiam alunos seus para uma inusual mancebia. A crônica registrou a identidade de alguns daqueles heterodoxos pares: padre Manuel dos Santos com o estudante Antonio José, padre Inácio Ribeiro com o músico Ignacinho, Pedro de Vasconcelos e Joaquim Veloso.
No mesmo século, apareceu em cena Maria Antonia. Se era nome real, ou pseudônimo, tornou-se um mistério. Se real o nome, Maria Antonia correu o risco de seguir um destino parecido com o de Joanna D´Arc, pois conseguiu engajar-se numa expedição militar. Se falso o nome, ainda assim, confirmar-se-ia a semelhança dos destinos, pois neste caso, Maria Antonia, por ser um homem passando por mulher, seria queimado vivo como a heroína francesa.
Descoberta(o) naquela expedição militar Maria Antonia foi recambiada(o) para São Paulo. Submetido(a) a exames para a identificação do sexo verdadeiro, ele(ela?) ,estabeleceu-se a discórdia entre parteiros e cirurgiões da cidade. Duas parteiras concluíram ser ela(ele?) do sexo feminino, enquanto dois cirurgiões acharam que ele(ela?) era do sexo masculino.
Surgido o impasse, o Governador da Capitania, Luis Antonio de Souza achou de bom alvitre ordenar novo exame pelo o cirurgão-mor Jerônimo Roiz com a presença de todos os cirurgiões e parteiras da cidade. O governador assim procedeu para que "todos em presença de testemunhas assentem no que acharem na verdade e para esta se verificar melhor lhes defiráo juramento dos Santos Evangelhos e fará novas perguntas ao referido indivíduo..."
O resultado daquela inspeção médica é desconhecido. Entretanto, o caso alertou o governador para a necessidade de maiores cuidados no recrutamento, com atenção voltada o para que o candidato "não seja afeminado, nem altamente vicioso..."



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