Igreja N. Senhora da Penha

"Extraído do livro São Paulo em Quatro Séculos, de F. Nardy Filho,

Passamos a narrar a lenda da fundação da igreja de N. Senhora da Penha, tal qual a encontramos contada por um seu antigo vigário:
'' Naqueles tempos, dirigia-se para o Rio de Janeiro, viajando a pé, um indivíduo de nacionalidade francesa, passando por esta localidade e conduzindo consigo uma imagem de N. Senhora da Penha. Ao aproximar-se do ribeirão denominado Aricanduva, que hoje limita esta paróquia com a de S. José do Belém, parou para descansar da jornada de um dia, cujo sol era abrasador. Quando os raios frouxos do astro- rei, batendo de leve nas frondes das árvores que naqueles tempos cercavam os píncaros do morro, aquele viajor, tendo recuperado algumas forças, passo a passo, tomando a estrada tortuosa, consegui escalar o morro, já com a noite escura, e chegar ao lugar denominado Melúria, à beira do Tietê, extenuado de cansaço. Não podia ir adiante, a timidez da escuridão, a fraqueza e mais que tudo a falta da imagem querida de N. Senhora da Penha, sua companheira de jornada, que o havia abandonado, quando fazia o primeiro descanso, impossibilitou-o inteiramente. Sem tréguas volta o estrangeiro ao lugar onde estivera e aí encontra a imagem sobre um cupim. Novamente a conduz por duas ou três vezes, e com todas as precauções. Cansado de tanta luta que lhe tomara o tempo de alguns dias, resolveu o viajor construir aí mesmo na Melúria, em frente ao rio, uma pequena capela, cujos muros, corroídos pelos séculos, ainda existem, venerados pelo povo. Segundo referiam indivíduos que já tombaram o título pela idade secular, dos quais um ou outro conhecemos, o estrangeiro portador da imagem que veneramos sempre, também aqui rendeu sua alma ao Criador. N. Senhora da penha esteve naquela capela por anos, até que fosse construída a atual matriz, cujo começo data de 1774''.
Contamos a lenda, vamos agora à documentação histórica.
Dá Azevedo Marques como sendo o licenciado Mateus Nunes de Siqueira o fundador dessa capela, dizendo ainda que, em 1682, era proprietário e zelador dela o padre Jacinto Nunes, filho do licenciado Mateus. Tendo em vista o testamento do licenciado Mateus Nunes, vemos : 1 não ser ele o fundador dessa capela; 2 não ser o padre Jacinto seu filho, e sim seu irmão. Diz o licenciado Mateus, em seu testamento, terem sido ele e sua mãe fundadores e instituidores de uma '' capela do senhor na Matriz''. à qual sua mãe deixou sua terça e ele todos os seus bens; declara ainda que seu irmão, padre Jacinto Nunes, não quis, após sua morte, ficar com a administração da capela, por já Ter a que fundara e ficar a mesma distante da sua moradia, pelo que deixara como seu administrador o padre Baruel.
Pelo testamento do padre Jacinto Nunes, deduz-se Ter sido ele o fundador da capela de N. Senhora da Penha, a qual legou todos os seus bens. No livro Tombo da Sé, consta o seguinte: '' No bairro da Penha, 2 léguas distante desta cidade veneramos a imagem de Nossa Senhora com o título da Penha, nome que deu o bairro colocada em sua capela que erigiu o padre Jacinto Nunes, presbítero do Hábito de S. Pedro que dotou com os bens que constam do seu testamento aberto em 11 de fevereiro de 1684''.
Durante cento e tantos anos, esteve a imagem de N. Senhora da Penha nessa capela, recebendo as homenagens de seus devotos, até que, em 1774, resolveram estes construir-lhe uma igreja, a qual, ao ser 1796 esse bairro elevado a freguesia, serviu-lhe de primeira matriz. A atual bela e majestosa igreja da Penha não é a construída em 1774: de construção bem mais recente, foi edificada pelos padres redentoristas, quando ali passaram a residir e assumiram a administração dessa paróquia, em cuja edificação tiveram o auxílio dos devotos da Senhora.


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