Aparição do Cinema
Certa tarde meu pai surgiu em casa muito excitado. Reuniu seu clã — mamãe curiosa, meus irmãos atentos e eu, o menor de todos, um tanto atemorizado — e foi dizendo:
— Acabo de assistir a uma coisa extraordinária. Fui ver o que imaginava ser uma lanterna mágica e vi que, na projeção, as figuras se moviam como se fossem vivas.
Nossa curiosidade subiu ao máximo.
— Apareceu no pano branco um trem soltando fumaça, avançou até a parte dele desaparecer na tela, e depois, quando parou, saltaram do vagão as passageiros. Eles caminhavam depressa carregando as malas, pareciam falar uns com os outros...
Era o surgimento em São Paulo, do cinema. Devíamos estar por volta de 1896, terminada no Extremo Oriente, a guerra do Japão contra a Coréia. É que pouco depois papai me levou com meus irmãos, ver o fenômeno. Não me lembro — eu era muito pequeno — onde estava instalado o local da projeção.
Havia no fundo um retângulo de uns três metros por dois de pano branco o qual foi cuidadosamente molhado antes da exibição.Uma mulher gorda, sentada numa cadeira junto do pano, de voz cantada, ia explicando as cenas que refratavam na tela:
— Agora,um espião japonês...
Ia aparecendo um campo de arroz do qual emergia, com um feixe de hastes amarrado às costas, um soltado todo armado que se camuflava no imenso arrozal. Hoje as cenas me reportam às matas do Vietnã.
“Nihil novum...! Mudava a cena. E a mulher:
— Um navio japonês bombardeando o porto de...
Não me lembro que porto . O advento de uma das maiores descobertas da técnica do homem já vinha impregnado de um clima de guerra, essa fatídica constante humana presente, na crosta da terra, em todos os instantes da história..”
Menotti Del Picchia – Livro: A Longa Viagem”- 1970
“Foi ali na rua do Rosário, hoje João Brícola, há 28, 29 anos, que se inaugurou o primeiro cinema de São Paulo, num prédio de dois andares. Para entrar pagava-se...a memória anda tão ruim — mas parece que 500 réis. Antes de falar do cinema propriamente dito, detenhamo-nos um pouco na porta, onde um cavalheiro, pondo a força dos seus pulmões e toda a graça do seu engenho, dirigia-se aos transeuntes, concitando-os a entrar. Na calçada, viam-se cartazes berrantes, cujas letras desenhadas em vermelho gritavam para os olhos escancarados do povo, como o camelô gritava no ouvido:
“Novidade, novidade”
Jornal O Estado São Paulo, 15 de maio de 1929 (sem assinatura)
“Mas, não era só cinema. Havia também uma grande, fenomenal exposição de quadros. Eram cobras de todos os tamanhos, com guizos e sem guizos. Depois, então vinha o cinema. Na parede, lá no fundo, um metro quadrado de tela branca, sobre o qual se projetava umas fitinhas de cinco minutos, vindo como as cobras, não se sabe de onde. Numa delas aparecia um homem barbudo, célebre ilusionista, cuja cabeça decepada, dava uma voltinha para o ar, para voltar, depois, ao antigo e justo posto. O homem barbudo, então, virava-se para o público e agradecia sorridente, os aplausos que sempre ecoavam na platéia”.
Trecho da mesma crônica acima
“A primeira vez que ouvi falar em “fotografia animada” foi por Helena, minha prima, quando nos balançávamos na rede a um canto da sala.
Era mais velha um ano do que eu, e contou-me que tinham inventado um retrato que mexia. Era como se o retrato, balançando na rede, ficasse pendurado na parede, balançando sempre. Não era como a lanterna mágica, que só se mexia quando se empurrava um cabinho ao lado.
Comprava-se o quadro, pendurava-se na parede e as figuras ficavam mexendo sempre, como na hora em que se tirou o retrato”.
Jorge Americano – Livro: São Paulo Naquele Tempo –1895-1915