Notas de Viagem

Firmo de Albuquerque Diniz (Junius)

O Grande Hotel causou-me agradável impressão: é um estabelecimento bem montado, e de luxo: na corte e nas capitais das principais províncias do império, que percorri, não se encontra um igual. Inúmeros bicos de gás, bonitos candelabros, lindas jarras de flores sobre duas compridas mesas, grandes espelhos a multiplicar os raios de luz, e objetos, que se achavam na sala, davam belíssimo aspecto àquele ambiente. Eu senti uns ares de bons hotéis da Europa; recordei-me do confortável e do bom gosto, que neles se encontram.
Findo o jantar, quando ainda me conservava à mesa, à espera do café, vi sair de uma sala contígua à que eu estava um gupo de pessoas, que se encaminhavam para o meu lado. O dr.Z..., que vinha entre aqueles cavalheiros, e eu nos reconhecemos logo: era um antigo companheiro de lides acadêmicas: abraçamo-nos com essa efusão de contentamento de amigos, que se não vêm há anos. Teve ele a amabilidade de apresentar-me às pessoas, que o acompanhavam. Feitas as saudações de cortesia, estas retiraram-se: iam ao Teatro São José, segundo disseram-me.
Ficamos eu e Z..., e enquanto tomávamos café, inquirimos reciprocamente da nossa vida durante o longo tempo, em que não nos tínhamos encontrado.
Depois, convideio a ir ao meu quarto.
Apenas entramos, disse-me ele:
-Aposto que não sabes onde estás...
-Ora essa ! Pois pode haver alguém que duvide de que estou no Grande Hotel, na imperial cidade de S.Paulo, capital da província do mesmo nome?
-Tudo isso é verdade, mas ainda não compreendeste a pergunta.
-Então fala mais claro; mesmo por que eu estou curioso qual foi o alcance do seu dito?
-Satisfaço tua curiosidade, dizendo-te que este teu aposento está na altura do antigo telhado na casa de L. da Botica; (*) é verdade, ou não?
-Tens razão: recordo-me agora a casa de L. era mais ou menos aqui.
-Afirmo-te que o Grande Hotel está edificado no mesmo solo daquela antiga casa: a loja de chapéus, que fica embaixo deste teu quarto, ocupa exatamente o mesmo lugar, onde estava a farmácia do L.; não te lembras que esta tinha duas portas na rua S. Bento e uma no beco da Lapa?
-Sim... Lembro-me
-Que boas reuniões, agradáveis conversações tínhamos na Botica do L.; ele era tão expansivo, tão jovial, muito amigo dos rapazes, e muito serviçal.
-Acrescenta a isso: era o médico de confiança da maior parte dos moços do nosso tempo: ias te esquecendo disto...
-Sim,.., é verdade, mas para certas moléstias...

*)Luís Maria da Paixão, farmacêutico famoso nos meados da década de XIX em São Paulo. Naqueles tempos, as farmácias eram pontos de reuniões para conversas.

*****

Tomei a deliberação de passar o dia visitando diversos lugares. Guiado pelas tabuletas, indicativas de seus destinos, aproveitei-me deles desde cedo até as 11 horas para percorrer os arrabaldes e as ruas, por onde passam as linhas. Fui à estrada de Vergueiro, à Luz, S.Cecília, Marco de Meia Légua e Consolação. Ao meio dia, depois de almoçar no Hotel França (que tem excelente cozinha) tomei um carro de praça, e dirigi-me aos Campos Elíseos, Chá, Campo dos Curros, Mooca, Bras e Pari, e passei pelas ruas novamente abertas. Dos arrabalades antigos uns, como a Luz, Santa Cecília, Marco de Meia Légua, Brás, Mooca e Pari ostentam-se em grande progresso: o da Consolação é o único, que conserva o velho e triste aspecto: o Chá, Campos Elisios, estrada Vergueiro eram há trinta anos lugares desertos, silenciosos, e hoje muito povoados, ornados de boas casas, algumas de construção elegante, à imitação dos chalés Suiços.

*****

Em minha passagem de bonde por várias ruas da cidade, e de carros por outras, notei desde logo a profunda diferença, que ela apresenta em relação ao tempo de minha residência. O seu aspecto é sem dúvida bem outro. Vi grande número de lojas de fazendas, de ferragens, armazéns de molhados, armarinhos, casas de moda, de cabelereiros, de chapeleiros, de pianos e outros instrumentos de música, ourivesarias, oficinas de alfaiates, sapateiros, hotéis, restaurantes, cafés, alógiso (pequenos hotéis italianos), confeitarias, fábricas de carros, depoósito de mobílias, marcenarias, e tantos outros estabelecimentos, muitos deles embelezando as ruas com as suas vitrinas, exibindo objetos de bom gosto, e de subido valor.
Também vi vários edificíos exteriormente, que no meu tempo não havia, tais como os teatros Ginásio e S. José, o Real Club Ginástico Português, o Hospital da Beneficiência, o Templo dos Protestantes Ingleses, o Tesouro Provincial, o Seminário Episcopal, além das estações das vias férreas, das quais a de mais elegante construção é a indevidamente denominada Estação do Norte.

*****

O que muito atraiu a minha atenção foi o movimento, a animação, a vida da cidade, fato inteiramente novo para mim; quando daqui retirei-me


LIVROS ANTIGOS DE S.PAULO ANTIGO - ÍNDICE

Esta página foi produzida por Maturidade Vídeo e Editora