O Movimento dos Aposentados e Suas Lutas

Prefácio

Pressuroso. O funcionário do gabinete abriu a porta, dando passagem à figura alta esguia, meio inclinada para a frente. Era o ministro. Olhou para aquela meia dúzia de homens e mulheres grisalhos, cumprimentou-os respeitosamente e assumiu seu lugar à cabeceira da mesa. Apresentações brevíssimas.
O ministro curvou-se sobre o documento que lhe apresentou o homem sentado à sua esquerda. Leu com redobrada atenção. O silêncio absoluto possibilitava que se ouvisse o "ruído dos seus olhos" percorrendo o papel. O outro ruído era dos corações e dos cérebros processando números e sentimentos variados. Éramos os dirigentes da Confederação Brasileira de Aposentados e Pensionistas, representando os milhões de segurados da Previdência, na luta pelos 147% de reajuste dos seus proventos.
Terminada a leitura, levantada a cabeça. Ouviu-se a palavra do governo Collor, na voz grave que lhe emprestava o ministro. Falou do irrealismo do pleito expresso no documento; da boa vontade do governo em relação aos aposentados e pensionistas; da profundidade da crise; do vazio nos cofres da Previdência. Advertiu os presentes, por fim. Nenhum dos rostos mostrou o mais leve sinal de que sujeitos da história da resistência-cidadã eram eles ali os ouvintes, resistentes, representantes, silentes.
O governo falou:
  • "É preciso que os senhores e senhoras tomem cuidado, pois esse movimento de reivindicação dos 147% está infiltrado de interesses político-partidários. Essas reivindicações que me trazem são de ordem política", acusou, por fim.

  • Do outro lado da mesa, o homem encarou o orador e falou. Sua voz ecoou seca, incisiva, baixa, contundente:
  • "Senhor ministro: representando os aposentados e pensionistas, estamos aqui tratando de estômagos. Milhares de estômagos de companheiros nossos. Aposentados, pensionistas e filhos e netos seus estão passando fome; passando fome por causa dos desmandos da Previdência nacional. Se falar de fome for fazer política, então realmente estamos fazendo política!"

  • Mas não disse, nem precisava. A partir daquele momento, o ministro e delegação do COBAP continuaram a audiência num clima de respeito mútuo.
    Assim é este homem, Oswaldo Lourenço. Sem rodeios, ele dá seu recado com a autoridade adquirida como dirigente sindical da categoria dos portuários, entidade esta burilada levando-o a ser um dos fundadores do movimento nacional de aposentados e pensionistas. Suas formas de luta de qualquer resquício de agressividade, por saber que está do lado correto das lutas que se travam no mundo contemporâneo.
    O homem, Oswaldo Lourenço, determina o estilo do autor: seu texto tem a forma da oralidade e a economia da escritura. Afirma: "Não é escritor. É um portuário aposentado que escreve. Que escreve o que fala. Que viaja e que negocia. Que briga, xinga, e ensina. Este livro compõe esta caminhada de lutas.
    Mais que a denúncia de imoralidade pública, que se concertina no trato dos cidadãos mais velhos do país, este texto é um marco. Constitui-se numa ruptura entre dois momentos na vida nacional: um tempo do primado da tecnologia, quando, para cada questão político-social, para cada gama da existência, fundava-se mais um discurso, competente, cuja lógica era a apropriação da fala e dos gritos dos miserabilizados, fazendo uma alquimia diabólica em que os donos do discurso competente se tornam donos, também daqueles que gemiam sob seu jugo político-partidário, político-institucional, político-assistencial, político-pseudocientífico.
    Aos deserdados de seus próprio gemidos e falas resgatava apenas um objetivo cunhado anos após anos do milagre brasileiro. Restava-lhes o abominável jargão – adjetivo carente.
    Para tal horror de linguagem, além da seleção do adjetivo, era preciso arranjar sus enchimentos, em nome de quem os projetos, programas e eventos compunham mirabolantes orçamentos públicos, que tornavam mais ricos os caridosos, mais pobres os carentes e mais poderosos os técnicos.
    Nesse momento em que o menor carente vão sendo substituído por meninas e meninos brasileiros, em que legiões e fundações vão descorando e surgindo em seu lugar movimentos e associações, o livro de Oswaldo Lourenço gestado numa luta de mais de dez anos, irá ajudando a apagar firme e serenamente dos textos que irão surgindo daqui por diante, as famigeradas expressões do tipo o nosso idoso, e o senescente fulano e tal, nosso velho de espírito jovem, o nosso cliente garotinho de terceiro extrato. As pessoas, a partir da leitura desta obra, terão mais razão de querer saber mais o nome dos cidadãos de idade avançada, em lugar de se dirigirem a eles com um casual "oi, tia..." "falo, vovô".
    Oswaldo Lourenço dá à sociedade a notícia de que os velhos no Brasil, ainda não são tratados como cidadãos, pelo menos já saem da categoria biológica que os reduz à sua idade cronológica, isto é, deixam de ser meros velhos.
    O livro de Lourenço focaliza uma outra dimensão das pessoas: lembra que ao longo de sua existência foram trabalhadores que produziram a sobrevivência da população, desenvolveram a tecnologia, criaram o lucro da economia e sustentaram o Estado. Os trabalhadores aposentados continuam ativos na economia quando integram a economia informal, quando cuidam das atividades domésticas para que a mão-de-obra ativa esteja liberada para sua jornada de trabalho, e sua jornada de deslocamento entre suas cidades/dormitórios e seus locais de trabalho.
    Este é o segundo momento da linguagem. Nele, o sujeito se reapropria, toma de volta para si o seu próprio discurso, antes confiscado pelos donos dos poderes.
    Esse trabalho de Oswaldo deve ser lido com muita alegria e admiração. Como quem vê a história escrita pelo sindicalista ou pelas "Lembranças de Velho" estudadas por Ecléa Bosi.
    Quando os que escrevem a história social debruçam-se sobre o Brasil deste final de século, verão o desabrochar de uma nova força responsável por mudanças radicais na forma de convivência. Com o espírito da Inconfidência Mineira, da República do Equador, de Canudos e Palmares e de todos os que alicerçaram a casa, a massa dos deserdados da opulência de hoje, os meninos, os negros, as mulheres, os cidadãos da idade avançada, os sem-terra, os sem-teto, os sem-leito, e os sem-prato, os sedentos e os famintos de justiça aparecerão como construtores dessa avalanche transformadora, hoje apenas chamada movimento social.
    Oswaldo Lourenco cria, aqui, sobre essa vastidão de forças emergentes, uma réstia de luz sobre a sociedade contemporânea. Oswaldo faz e escreve a história.
    Tomara que muitos acompanhem essa réstia de luz que você nos oferece, Oswaldo. Quanto a mim, que o li, já estou encorajada, alegre e agradecida.

    PS: A minha gratidão se estende aos que fizeram possível o contato e a cooperação com a COBAP e seus dirigentes: os ministros da cultura, profº Aloísio Pimenta e profº Celso Furtado.

    Brasília, 8 de julho de 1992
    Maria Leda de Resende Dantas