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Largo da Misericórdia
Demoliram a igreja do largo da Concórdia e a Santa Casa, proprietária do terreno, vendeu-o para que nele se construíssem os sobrados 10 a , 10b e 10c da rua Direita. O castigo viria a cavalo, disse o povo. E veio.
Uma loja se instalou num dos sobrados. Não demorou e um incêndio a destruiu. A loja mudou para outro endereço, mas o fogo veio mais uma vez castigá-la.
Algumas décadas decorreram. Os sobrados da esquina do largo da Misericórdia com a rua Direita deram lugar a novos prédios. Ao que parece, entretanto, o tempo não aplacara a ira divina. No prédio bem da esquina, funcionava uma luxuosa loja. Já se desenrolavam os anos 50 do século passado quando um rapaz, conta-se, entrou na loja e se matou com um tiro. A maldição parecia ainda pairar naquele espaço.A famosa Casa Byington, especializada em
materiais elétricos e sonoros, no largo da
Misericórdia nº 4 antigo. Eram seus sócios
Albert Jackson Byington, Jorge E Sands,
Walter Hering e Joaquim Soeiro.
Em 1972, a conceituada firma Mitidieri Paiva, que tinha sede no mesmo prédio, ostentava seu letreiro de frente para o largo da Misericórdia. Da firma despediram, sem mais nem menos, um antigo funcionário de confiança. Quando ele falou na injustiça do fato, argumentando com seus anos de lealdade doados à firma, disseram-lhe friamente os advogados desta que ali não havia mais lugar para ele, se quisesse alguma coisa que fosse à Justiça.
Fundamente deprimido, o homem, durante a madrugada, matou sua mulher, beijou o rosto da cadáver e, na manhã, dirigiu-se para o antigo emprego.
Com ar zombeteiro, os advogados, ao atendê-lo, depois de muito custo, perguntaram-lhe:
— Trouxe seu advogado?
- Trouxe, sim, respondeu-lhes o homem. Aqui está ele.
E puxando o revólver, fulminou-os a tiros. Reservou uma bala para si, mas não conseguiu usá-la porque foi desarmado.
— Seria a maldição de novo? — se perguntaram aqueles do povo que se lembravam da velha história.
Houve época em que chamavam o largo da Misericórdia de "mumioteca" por ser ponto de encontro de velhos funcionários públicos aposentados. Antes, lá pelos meados da década de 30, o largo já tinha sido ponto de encontro de grupos da comunidade negra. O acanhado espaço tornou-se pequeno para tanta gente que os excedentes se espalhavam pela rua Direita. A Direita ficou, então, conhecida como "rua dos pretos."
E bem antes, tempos e tempos antes, com a igreja da Misericórdia ainda de pé, nas suas escadarias de pedras, as quitandeiras, em altas vozes, apregoavam os quitutes dos seus tabuleiros: doces, pastéis, empadas, pinhões, cuscus... No centro, jorravam as águas do chafariz construído em 1792.
Em tempos menos remotos, simultaneamente à mumioteca, mocinhas se acotovelavam perto do largo e, aos gritos, saudavam os seus ídolos-cantores que iam se apresentar nos estúdios da rádio Record, então no começo da rua Quintino Bocaiúva. Aproveitando a ocasião, um vendedor de revistas de letras de música, no meio do largo, apregoava em voz alta a sua mercadoria, repetindo os nomes das canções em voga: Risque, Babalu, Vingança, História de um amor, A volta do boêmio...
Um dia apareceu no lugar o vendedor da apostila da nova lei do inquilinato que gritava mais alto ainda: "olha a nova lei do inquilinato. Quem não comprar vai morar no mato".
Na esquina do largo com a rua Direita, ficavam os conquistadores de calças "boquinha", o uniforme dos malandros da época. Era uma calça que afunilava subitamente à altura dos sapatos, a ponto de se imaginar como teria sido possível o encaixe dos pés. Havia um delegado de polícia, contavam, cujo teste para os suspeitos presos consistia em deslizar-lhes um limão por dentro das calças. Se o limão conseguisse chegar ao chão, o detento seria liberado. Se o limão ficasse retido na "boquinha", era prisão certa.
Veja também:
Casa Alemã
Chafariz Querido
Igreja da Misericórdia |