Os fantasmas da São Paulo antiga

Miguel Milano

SÃO PAULO (Retrospecto)

Quem observa a soberba metrópole bandeirante e não a conheceu cincoenta ou sessenta anos atrás, extasia-se ante a majestade do panorama que se desenrola à sua vista, mas bem longe está de experimentar a sensação e orgulho dos que lhe acompanharam comovidos, a verdadeira escalada do progresso.
Nascida de uma simples choupana, construída por José de Anchieta no alto da colina interposta ao Tamanduateí(tributário do Tietê) e o seu pequeno afluente Anhagabaú, a 25 de janeiro de 1554 não passava de uma insignificante povoação de 133 habitantes, compreendendo 13 jesuítas e 120 selvagens chefiados por Tibiriçá Caiubi.
A sua situação privilegiada e o Colégio abnegadamente construído e dirigido pelos jesuítas não tardaram a atrair os componentes de outros núcleos coloniais, que afluíam para ela em tão grande número que em 1560 provocaram a sua elevação à categoria de vila e a 11 de Julho de 1711 fizeram-na galgar ao posto de cidade.
A fuga de D.João VI para o Brasil tornou-a a capital da província de São Paulo a 16 de dezembro de 1815 e o advento da República a 15 de novembro conservou-a como capital do Estado de São Paulo.
Trinta e dois anos depois da nossa Independência, proclamada em seu seio,a minúscula cidade apresentava a configuração característica da zona comercial de nossos dias ,conforme no-lo demonstra a planta levantada em 1854.
Os prédios, que não chegavam a 2.000, espalhavam-se pelas ruas do Ouvidor (atual José Bonifácio), do príncipe (Quintino Bocaiuva), do Jogo da Bol a (Senador Feijó), da Freira (Riachuelo), das Sete Casas (Benjamin Constant), do Rosário (15 de novembro),da Constituição (Florêncio de Abreu), de S.Bento, Direita, Largo de S. Francisco, de S. Gonçalo, (Marechal Deodoro), hoje parte integrante da praça da Sé, da Boa Vista e da Quitanda (Álvares Penteado). Vastos campos a perderem-se de vista e a extensa várzea do Carmo, hoje transformada no lindo Parque D.Pedro II, rematavam o serpenteio das ruas mal traçadas.
Como edifícios notáveis despontavam: a Sé (Catedral), a igreja de S.Bento, o palácio do Governo, a igreja e o convento do Colégio, a igreja da Misericórdia, a Cadeia e o Teatro.
A partir daquela data a cidade desceu lentamente a colina ,transpôs as várzeas e os vales e, tal como um polvo de tentáculos distendidos ,esparramou -se em direção à Consolação, Vila Buarque, Santa Cecília, Barra Funda, Bom Retiro, Ponte Grande ,Brás, Mooca, Cambuci, São Joaquim e Bexiga.
Evoluindo sem cessar, em 1887 São Paulo já era uma cidade de 45 mil habitantes, com um total de 7012 prédios, sendo 6.306 térreos,213 assobrados,479 de dois pavimentos e 14 de três.
Tais prédios, geralmente bastante confortáveis, eram todos de estilo colonial e dotados de largos beirais .Compacto no cimo da colina e nas encostas, distanciavam-se cada vez mais em ruas de abertura recente e mesmo nas simplesmente projetadas, perdendo-se alguns em largos trechos de terrenos baldios ou nas enormes chácacaras que circundavam a capital: a do Chá, que se estendia do vale do Anhangabaú (Parque Anhangabaú) ao largo dos Curros (praça da República); a das Palmeiras, no bairro de Santa Cecília; a de D.Veridiana, na Vila Buarque; a do Carmo e a dos Ingleses, pelos lados do largo São Paulo e Cambuci; a do Bexiga, no bairro do mesmo nome; a de "seu Constantino ,meu pai, na rua Paim, aquém do tanque do Bexiga; a do Martinico e a do barão do Ramalho, na Consolação; além de outras.
Das vias públicas, o triângulo central e ruas adjacentes eram calçadas a paralelepípedos de pedras bastante irregulares, havendo 291 iluminadas por 1307 bicos de gás, melhoramento inaugurado em 1872.
A antiga descida do Acu passou a denominar-se rua de São João; a do Rosário recebeu o nome de rua da Imperatriz; a de S. Gonçalo, rua do Imperador; a da Quitanda chamou-se rua do Comércio; a do Ouvidor ficou sendo José Bonifácio e a ladeira que hoje continua até o Piques ou praça da Bandeira recebeu o nome de ladeira do Ouvidor; a do Jogo da Bola foi substituída por Senador Feijó e a da Freira passou para Riachuelo.
Isto com relação ao perímetro urbano, pois seria longo, fastidioso e sem qualquer proveito enumerar as mudanças por que passaram as demais. Assimétricas e estreitas, traçadas sem as preocupações urbanísticas de nossos dias, tais ruas desembocavam ou nasciam, na sua maior parte, nos largos do Colégio, do Carmo, da Sé, do Teatro (praça João Mendes), Sete de Setembro, da Forca (Liberdade),de S. Francisco, do Piques, da Misericórdia, do Rosário, de S.Bento ,dos Curros, Arouche, General Osório, da Luz ,do Paissandu e da Concórdia.
Ninguém previa e muito menos acreditava que a cidade pudesse chegar um dia ao que é. Tanto assim que terrenos localizados na Vila Buarque, Consolação, Santa Cecília e arredores — os bairros mais promissores da época — eram recusados ao preço de 25 centavos o metro quadrado!..
Sou testemunha disso. Lembro-me da proposta dada por meu pai ao seu velho amigo Martinico Prado, quando este insistiu em oferecer-lhe àquele preço terrenos situados pouco além do Largo do Curros:
-Ora ,"seu Martinico... Quando é que São Paulo há de chegar até lá..." A morte encarregou-se de mantê-lo na falsa suposição.

O LARGO DO COLÉGIO

O largo do colégio, não há muito largo do Palácio e hoje Pátio do Colégio, era, como ainda agora, o ponto de convergência direta ou indireta da travessa do Colégio, mais tarde rua do Palácio (rua Anchieta); da rua do Tesouro, depois largo do Correio (largo do Tesouro); da ladeira Municipal, a seguir João Alfredo ( General Carneiro); da rua da Fundição (Floriano Peixoto); e da rua do Carmo. Seu edifício mais importante era o palácio do Governo, atualmente ocupado pela Secretaria da Educação.
Até 1765, quando governava a capitania D. Luís Antônio de Souza Botelho Mourão - morgado de Mateus, este edifício constituiu o corpo principal do convento do Colégio.
Transformado então em palácio governamental, de 1815 a 1877 nele também funcionaram a Secretaria do Governo e a Assembléia Provincial.
Ao lado direito do antigo casarão de taipa, na sala perpendicular ao corpo principal, até 1877 estiveram instalados o Correio Geral e as repartições iscais de província de São Paulo.
Florêncio Carlos de Abreu e Silva, presidente d província, em 1881 fez arrasar a ala perpendicular e remodelar o corpo principal do convento, mantendo intacta a igreja, conforme se vê na gravura.
Em 1886 o presidente João Alfredo Correia mandou ajardinar o largo, transformando-o em dependência do palácio.
O pequeno jardim, cercado de muro e gradil, aos domingos era franqueado ao público, que se comprimia nas estreitas aléias, atraído pelo saudosos concertos (retretas) de música do Corpo de Bombeiros e da Polícia Permanente.
O coreto, bastante amplo e aberto em concha, emergia do meio de árvores frondosas existentes na rampa do jardim, á esquerda, escondendo os telhados escuros e os fundos dos prédios da ladeira João Alfredo, que ainda hoje confinam com o palácio do Governo mas não tardarão a desaparecer, pois já foi decretada pela Prefeitura Municipal a sua desapropriação.
Pouco antes da entrada do jardim, no ângulo formado pelo largo do Tesouro e o início da ladeira, um artístico chafariz completava o conjunto, amenizando com suas escadaria o pronunciado declive do local.
O viaduto da Boa Vista e a necessidade da ampliação do largo do Palácio fizeram desaparecer aquelas lembranças do passado.
A ladeira João Alfredo (rua General Carneiro), aberta ao pé da rampa, caracterizou-se sempre pelo comércio de calçados, fazendas e ferragens, indo terminar, como agora, na rua 25 de Março.
No fim da mesma, á direita de quem desce, funcionou até 1933 o Mercado Velho, ano em que foi transferido para o Mercado Municipal. Edifício de grandes proporções, construído no Parque D. Pedro II, condizente com o progresso da nossa Capital.
No local pôr ele dantes ocupado, a Prefeitura fez um belíssimo jardim.


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