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O último morgado
Quando faleceu, a 30 de janeiro de 1878,o major Manoel Rodrigues Jordão era o representante do último morgadio estabelecido no Império. Morgadio era o sistema em que os bens do possuidor morto, proibidos de serem divididos ou alienados, passavam em geral para o seu filho primogênito.
Filho e neto de homônimos, o major Manoel Rodrigues Jordão herdara do pai, parente afim de Antônio da Silva Prado, o Barão de Iguape, considerável fortuna constituída de grandes propriedades rurais e casarões na cidade. Num desses casarões, o da esquina formada pelas ruas Direita e São Bento, dona Gertrudes Galvão de Oliveira e Lacerda Jordão, a mãe do major, já viúva, aproveitou o sábado de aleluia de 1846,para homenagear com um baile o casal imperial, em visita à cidade. Durante a festa, d. Gertrudes recebeu o título de Dama Honorária da Câmara de S.M a Imperatriz. Seu filho foi agraciado o grau de Cavaleiro da Ordem de Nº .S. Cristo.
D. Gertrudes se casara sob o contrato da mais absoluta separação de propriedades.Com a morte do marido, seu filho mais velho, ainda criança, ficou assim com todo o legado paterno, que, entre as enormes propriedades, incluía as terras onde mais tarde surgiu a cidade de Campos de Jordão.
Herdeira, por sua parte, de uma boa fortuna paterna, D. Gertrudes, certamente, não se viu às voltas com problemas financeiros diante da viuvez. A situação, todavia só se lhe tornou plenamente satisfatória depois que o futuro major Manoel Rodrigues Jordão e seus outros filhos atingiram a idade adulta e a conseqüente autonomia para satisfazerem-lhe os pedidos de maiores desencaixes de dinheiro. Na infância daqueles, porém, as coisas não correram tão bem para ela, sobretudo porque o seu marido nomeara como guardião legal das crianças, um seu filho ilegítimo, Antonio Rodrigues de Almeida.
Um incidente ocorrido logo após a morte do seu marido revela bem a reação de d. Gertrudes à privação do seu controle sobre a herança familiar. Antonio da Silva Prado, o Barão de Iguape, escreveu uma carta a Antonio Rodrigues de Almeida, na ocasião estudando em Paris, com o seguinte conselho: "Vinde tomar conta do que é vosso, que rende mais que qualquer bom lugar de letras, e sem responsabilidade"
O destinatário aceitou, de pronto, a sugestão da volta, motivado ainda pela insinuação de um possível corte em seus fundos, pois o encarregado dos seus negócios no Brasil era irmão de d. Gertrudes.
Ao tomar conhecimento dos fatos, a viúva, por sua vez, escreveu uma carta ao Barão de Iguape. Não se sabe do teor da mensagem, mas pela resposta do Barão, certamente, não se tratava de algo muito sutil. "Tais expressões" — escreveu ele — "são bem estranhas em qualquer homem ainda que de muito baixa esfera, quanto mais de uma Senhora. E podendo, responder-lhe no mesmo estilo, para o que tenho matéria vasta, mas não o faço, porque o que diriam as pessoas que vissem? O mesmo que dizem aqueles a quem tenho mostrado tão insultuosa carta".
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