Lembranças de Maria: menina-e-moça paulistana
Maria Paes de Barros
No tempo de dantes
Ó boa, calma, simples e monótona Paulicéia do tempo de dantes!
Falai, recordações, falai, saudades, de vez que te não posso cantar, São Paulo, como grande vate, invocando o auxílio das formosas tágides, para que lhe dessem "um novo engenho ardente''...
Nas águas turvas do Anhangabaú, humilde regato que outrora contornava a cidade, nunca se banharam ninfas, se jamais ninfas houve... Resta-nos dele apenas o curioso nome, de legítima linhagem indígena.
Querido São Paulo, hoje tão orgulhoso de tuas esplêndidas conquistas, é com um sorriso de ironia que nos lembramos da vida singela e austera que então levavam os teus filhos. Aqueles ''honrados paulistas'', no dizer de D. Pedro, cujo caráter pacífico e perseverante induzia ao progresso, eram os esteios de tua sociedade. Mas já não era mais aquelas duas tabas indígenas, com suas miseráveis choças, de onde, tiritante, o padre Anchieta pedia que de Santos lhe enviassem velas de navios, usadas, para com elas vestir os seus discípulos. Aliás, quem seriam, afinal, esses alunos, que já naquelas eras aprendiam o latim? Filhos de tupiniquins?Ou turbulentos descendentes de João Ramalho, que tanto enfado deram aos jesuítas?
Assim nasceste, e já lá vão, sepultados e esquecidos, incidentes e cenas destituídos de interesse ... Mas eu te vi crescer, São Paulo de dantes, e por isso me são tão caras as frioleiras de tua infância. Deixa-me, pois, contar-te como eras.
Cresceras e já contavas milhares de habitantes que, à procura de terras mais férteis, iam sertão a dentro, dedicando-se à lavoura e a outras culturas. Assim se foi formando tua classe de fazendeiros, que ao fim tão rica e preponderante se tornou.
A cidade, no entanto, conservava hábitos um tanto feudais e aparência medieval. Nas ruas tristes, com passeios tão estreitos que apenas davam para duas pessoas lado a lado, não se viam senão casas baixas e pequeninas, habitadas por profissionais de vários ofícios: sapateiros, latoeiros, caldeireiros. E, qual conta disjuntiva naquele sombrio rosário, aqui e ali um vasto casarão, grave e soturno, residência de família mais abastada, com suas janelas de rótulas, sempre cerradas ...Talvez que, por trás dessas gelosias, espreitassem uns belos olhos negros, procurando divisar algum passeante...
Esperança vã, pela rua silenciosa só transitavam negros de calça e camisa de algodão, pés nus, cabeça descoberta — ou , de volta de alguma igreja, embuçada em sombria capa, furtiva, alguma senhora de mantilha. Esta vestimenta espanhola, adotada aqui pelas damas de alta posição, foi logo descendo a escala social, vindo a tornar-se o traje habitual das mendigas, para depois desaparecer completamente.
Nesses tempos serenos, a cidade pobre não oferecia diversões. Não existia, portanto, a gana pelos divertimentos; ninguém se agitava sobremaneira, nem estavam os nervos expostos, como hoje, a incessantes ruídos. A não ser para desempenho de seus afazeres, ninguém andava pelas ruas solitárias, calçadas de grandes pedras irregulares. Sobre elas rodavam, aos solavancos, as três únicas seges da cidade, pertencentes ao bispo, à marquesa de Santos e ao comendador B.
Felizes, entretanto, viviam nossos bons avós messe retraimento. A parte feminina da família, sobretudo, levava vida quase unicamente restrita do lar. A senhora só saía à rua pelo braço do marido, as meninas unicamente com os pais ou parentes idosos. O pretexto único eram as visitas, pois as compras eram feitas pelos pajens, visto que uma senhora nunca entrava numa loja. O uso das elegantes cadeirinhas, levadas por dois escravos de libré ( porém calçados ), tão freqüente nas cidades ricas, tais como Bahia e Rio de Janeiro, era raríssimo em São Paulo.
Sendo a instrução muito elementar, por não haver colégios para o sexo feminino, nem tão pouco livrarias, as ocupações das meninas cingiam-se à vida doméstica. Raramente lhes chegava ao alcance algum livro, exceto o de missa ou uma dessas narrativas de fama universal, como o Paulo e Virgínia de Bernardin de St. Pierre, que liam então, com ávido interesse. Pode-se dizer que este livro, do qual algumas de nossas avós citavam de cor algumas páginas inteiras, foi as suas delícias, o motivo de suas conversões e de lágrimas enternecidas.
Mas cresceste, São Paulo, e uma nova era surgiu com a criação da Faculdade de Direito e a abertura de uma boa livraria. De toda a parte afluíram para cá inúmeros estrangeiros, entre os quais professores de línguas, ciências, música etc. Então já estudavas, pensavas, conversavas. E, ao mesmo tempo, ias abandonando teus rudes hábitos campesinos, pelos mais apurados, de uma cidade progressiva.
Com sua numerosa família, vivia o comendador B. num grande sobrado situado um tanto fora da cidade. Ainda bem moço, casara-se com uma senhora do Rio de Janeiro, cidade em que morou algum tempo. Tendo, porém, perdido a esposa, voltou com seus oito filhos para São Paulo, onde possuía vastas propriedades. Ao cabo de alguns anos, contraiu novas núpcias com uma filha de pequenos fazendeiros. A noiva, mais moça que ele vinte anos, era bela e prendada. Trazia como dote, além de suas alfaias, um cavalo de montaria, duas mucamas e um pajem. Foi-lhe dada a alegria de contribuir para a mais completa felicidade do esposo, tendo governado sua vasta casa com a máxima proficiência.
Ocupavam os pais o primeiro andar do prédio, e as manas mais velhas, que eram três, o sobrado. Uma delas casou-se logo e viveu algum tempo na Europa. Quanto às outras duas, unidas às governantas alemã, denominava Mademoiselle e que gozava da maior intimidade na família, formavam uma espécie de triunvirato, com poder absoluto sobre a sala de estudos, dormitórios e demais dependências que serviam às filhas menores do casal.
Mas a cabeça deste governo era a '' Dindinha '', assim chamada por ser madrinha de uma das meninas. Era ela quem dispunha, ordenava, fiscalizava e dirigia - tudo com grande proficiência e dedicação. Boa e querida Dindinha! Ativa, correta e justiceira, jamais hesitava no cumprimento do que julgava seu dever. Admoestando, corrigindo com raciocínio claro e mão firme, indicava por todos os seus atos ser uma verdadeira descendente dos que '' passaram muito além da Taprobana ''.
O número das meninas sob sua jurisdição crescia à medida que os filhos do segundo casamento atingiam a idade dos estudo. Os bebês chegavam regularmente, cada dois anos mais ou menos, quando misteriosamente aparecia na casa uma boa mulata, amável e risonha, que apresentava aos pequenos um novo irmãozinho, Era este recebido com júbilo e imediatamente submetido aos excessivos cuidados habituais. Coberto o soalho de um encerado escuro, semicerradas as janelas, durante vários dias permanecia o pequenino no vasto dormitório. Nessa meia obscuridade penetrava freqüentemente, silenciosa, pés descalços, a escrava de serviço, trazendo um pequeno brasileiro de prata, com brasas vivas, junto ao qual eram aquecidas as camisinhas e outras peças do vestuário do pequeno. E, quando se julgava o ar um tanto corrompido, deitava-se um punhado de açúcar com alfazema sobre as brasas.
Dias depois, passava o pequeno para o quarto de vestir, habituando-se à luz nessa peça clara e alegre, toda forrada de acetinado papel branco, com ramos de rosas pálidas atadas com fita azul-celeste; o soalho era coberto por esteirinha fina. Mobiliavam-na, a um lado, a cômoda preta ornada de incrustações douradas e, tomando toda a parede adjacente, o vasto guarda-roupa, com seus cabides engenhosos e grandes gavetas. Ali vinham todos os dias os pequenos admirar os progressos do irmãozinho, que se desenvolvia sob os cuidados e carinho da boa Joaquina, a pajem africana. Zeloso da educação e instrução dos filhos, o comendador B. procurava proporcionar-lhes os meios de obter cultura, cousa difícil então, pela carência de bons colégios. Era costume, por essa época, as famílias abastadas mandarem estudar na Europa os seus filhos.
Muitos escolhiam a França; ele, porém, preferiu enviar os seus à Alemanha, visto Ter relações comerciais com importante firma de Hamburgo. Para lá seguiram, pois, os três rapazes mais velhos, tendo sido internados em colégios, enquanto as meninas estudavam com a Mademoiselle.
Era realmente bem dotada a professora: além de bonita, inteligente, culta e hábil em trabalhos manuais e misteres de cozinha, falava diversas línguas, tocava, cantava e desenhava bem. Afável, serviçal e insinuante, soube captar toda a simpatia e afeição das manas mais velhas, que foram logo tomadas de um sentimento feito de admiração e ternura. Elegeram-na, pois, verdadeira irmã, estabelecendo-se entre todas elas a mais completa intimidade. Dormiam as três no mesmo quarto, de onde partiam sussurros de confidências e de longas conversas. A natural expansão do afeto que as unia era vagamente pressentida pelas pequenas do dormitório contíguo . Estava-se então na época do romantismo . As emoções tingiam-se sempre de leves tons de melancolia. '' Ah, como se sofre neste mundo!''- era o queixume que, à menor contrariedade, frequentemente lhes caía dos lábios.
Grandes e pequenos, todos no sobrado falavam francês. Também era nessa língua os livros didáticos, bem como os volumes das duas estantes que se viam na espaçosa sala de estudos. Tinha esta, no centro, uma grande carteira com seis compartimento e, nas paredes, viam-se dois mapas geográficos.
No afã de ilustrar os filhos o comendador B. mandara vir da França uma boa coleção de obras para a mocidade: histórias, viagens e biografias de homens célebres. 04/02/03 As mais velhas recebiam a Revista Popular, tão apreciada das famílias, e L 'Écho des Feuillectons, publicação de novelas que as deliciavam com as façanhas dos heróis de Alexandre Dumas e as apaixonadas ternuras de Mme. Cottin.
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