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A era das Junqueiras
Paixões e vinganças, quando o café reinava
Lá pela década de 20, não havia varão brasileiro que não tremesse ao ouvir falar em dona Íria Junqueira. Abastada fazendeira na região de Ribeirão Preto (Estado de São Paulo), da família dos reis do café, sua fama de valente, irascível e vingativa corria mundo.
Beijo de mão, beijo de morte
Feroz como uma leoa na defesa de sua prole, Íria Junqueira não hesitou certa vez em despachar seus asseclas com destino à Capital paulista para vingar a afronta feita a uma de suas filhas que se apaixonara pelo amante de uma jovem famosa pela beleza. Ao ter a mão beijada pelo amante, a jovem atraiu a ira das Junqueira e por pouco escapou de ser morta a navalhadas.
A mesma sorte não teve um francês, marido de outra filha de Íria Junqueira. O casamento se dera na França, mas desconfiando das reais intenções do marido, a esposa logo voltaria ao Brasil para pedir ajuda à família no desquite. Disposto a beliscar a fortuna dos Junqueira, o francês veio atrás. E desapareceu.
Na fazenda.
Com a celeuma provocada pelo caso e alimentada principalmente por um pequeno jornal de escândalos, O Parafuso,a polícia resolveu agir. Após uma busca mais demorada na fazenda o cadáver foi localizado e dona Íria foi presa. Passou, entretanto, muito pouco tempo na cadeia.
Quem também não ficou vivo para contar a história foi Benedito de Andrade, o redator de O Parafuso. Ele foi assassinado a tiros num bar da rua XV de Novembro, em São Paulo, por três capangas dos Junqueiras.
Desta vez ninguém foi preso.
Matou jornalista mas deu no cinema
Sem intimidar-se, entretanto, um grupo de cineastas acabou fazendo um filme sobre o caso do francês. Com o nome de O Crime de Cravinhos (Cravinhos, uma cidade próxima a Ribeirão Preto, era onde ficava a fazenda), o filme foi ajudado em seu sucesso pela fama dos Junqueiras. Eles tentaram impedir por via judicial a sua exibição e conseguiram suspender uma primeira sessão marcada. Depois, derrotados na Justiça, propuseram a compra do filme aos produtores. Finalmente, O Crime de Cravinhos estreou, atraindo enorme público, em 1919, no cine Palace, na Av. Brigadeiro Luiz Antonio, em São Paulo, mesmo lugar onde se ergueu o cine Paramount.
Navalha na cortesã
Outro rumoroso caso que envolveu os Junqueira foi o atentado a navalhadas. A vítima, Romilda Machiaverni, conhecida pela alcunha de Nenê Romano, era célebre na cidade pela sua beleza e pelas paixões de despertava.
Romilda nascera na Itália e, em 1897, chegara ao Brasil com dois anos de idade. Trabalhara como camareira de hotel, mas os seus dotes físicos logo a tornaram requisitada para a companhia de milionários e políticos. Ao lado destes, ela chegou a participar de festividades oficiais dos dias cívicos, inclusive a convite do Presidente do Estado (cargo hoje correspondente a governador) Washington Luiz.
A viúva Maria Eugênia, filha de Íria Junqueira,estava apaixonada por um dos amantes de Nenê RomanoMaria Eugênia soube que num domingo, em plena avenida Paulista, o rapaz beijara a mão de Nenê e resolveu vingar-se. Para isso, mandou vir da fazenda da família três capangas que chegaram a alugar um quarto defronte à casa onde morava Nenê Romano, para melhor observar-lhe os hábitos.
Após um ataque frustrado, os três capangas foram julgados e condenados.
Maria Eugênia morreu logo depois da agressão. Nenê Romano iniciou, então, um processo de indenização contra a sua família.
Rompimento
Como seu advogado, ela contratou Moacyr de Toledo Piza, de uma ilustre família paulista, também jornalista e poeta famoso. Toledo Piza apaixonou-se pela cliente, mas a leviandade da moça não permitia um relacionamento mais feliz. Veio um rompimento traumático.
Mas pagou a corrida?
O advogado começou a escrever versos desesperado. Na noite de 25 de novembro de 1923, Toledo Piza procurou Nenê Romano em sua residência. Encontrou-a de saída e conseguiu convencê-la a conversar durante o trajeto dentro de um taxi. Quando o taxi passava pela avenida Angélica, à altura da esquina da rua Sergipe, Moacyr matou a moça e suicidou-se em seguida
Veja também:
Versos de Moacyr Toledo sobre Nenê Romano
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