Padre Rui Pereira

Carta escrita pelo padre Rui Pereira, um dos jesuítas do Colégio em São Paulo. A carta é datada de 1560 e foi escrita da Bahia aos padres e irmãos da Companhia da província de Portugal.

"E por amor de Cristo lhes peço que percam a má opinião, que até aqui no Brasil tinham, porque lhes falo a verdade, se houver paraíso na terra, eu diria que agora o havia no Brasil. E, se eu isto sinto, não sei quem o não sentira, porque se olhamos no espiritual e no serviço de Deus, vai deste modo que lhe digo; pois, si olhamos para o corporal, não há mais o que pedir, porque a melancolia não a tem cá, sinão quem a quiser cavar e descobrir do mais alto que foi o pouco de São Roque; saúde não há mais no mundo; ares frescos, terra alegre, não se viu outra; os mantimentos eu os tenho por melhores, ao menos para mim, que os de lá e de verdade que nehuma lembrança tenho deles para os desejar; e se tem em Portugal galinhas, cá as há muita e mui baratas; se tem carneiros, cá há de tantos animais que nos matos e de tão boa carne, que me rio muito de Portugal em essa parte. Se tem vinho, há tantas águas que a olhos vistos me acho melhor com elas que com os vinhos de lá; se tem pão, cá o tive eu por vezes e fresco, e comia antes dos mantimentos da terra que o pão; pois as frutas, como quem quiser as de lá, das quais cá temos muitas, que eu com as de cá me quero. E além disto há cousas em tanta abundância, que, além de se darem em todo o ano, dão-se tão facilmente e sem as plantarem que não há pobre que não seja farto com mui pouco trabalho. Pois se falarem nas recreações, comparando as de cá com as de lá, não se podem comparar, e estas deixo eu para os que cá quiserem vir a experimentar. Finalmente, quanto ao de dentro e de fora, não se pode viver senão no Brasil quem quiser viver no paraíso terreal; ao menos eu sou desta opinião. E quem me não quiser crer, venha experimentar. Dir-me-ão que a vida pode ter um homem dormindo em uma rede, pendurado no ar como rédea de uvas? Digo que é isto tão grande cousa que, tendo eu cama de colxões, e aconselhando-me o médico que dormisse na rede, e a achei que nunca mais pude ver cama, nem descansar noite que nela não dormisse, em comparação do descanso que nas redes acho. Outros terão outros pareceres; mas a experiência me constrange a ser dessa opinião".



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