Daniel P. Kidder

Pastor metodista, Daniel P. Kidder nasceu a 16 de outubro de 1815, nos Estados Unidos, e em 1837 veio exercer o cargo de missionário no Rio de Janeiro. Um ano depois, com o fito de distribuir as Escrituras, ele empreendeu uma viagem a São Paulo, cuja descrição abaixo ocupa parte do seu livro "Reminisciências de Viagens e Permanência no Brasil". Kidder norreu nos Estados Unidos em 19 de julho de 1891.

"Passemos agora à descrição de São Paulo. A cidade está situada entre dois riachos e a cavaleiro de uma elevação cujo topo é bastante irregular. Suas ruas são acanhadas e construídas sem um traçado geral. Os passeios são estreitos e a pavimentação é feita com uma rocha ferruginosa que muito se assemelha à pedra arenosa vermelha, velha, diferindo, porém, a que se usa em S.Paulo, em que contém mais fragmentos de quartzo.

Alguns edifícios são de pedra, entretanto, o material geralmente empregado na construção de casas é a terra que, depois de levemente molhada pode construir sólida parede. O sistema consiste em cavar uma vala com alguns pés de profundidade, como se fosse uma fundação comum de pedra; depois vão deitando terra e socando-a bem. Quando a parede excede o nível do chão, constróem uma fôrma de tábuas, para manter as mesmas dimensões iniciais, armação essa que vai sendo transferida para cima, até que a parede atinja a altura desejada. As paredes assim construídas são geralmente muito espêssas, principalmente nos grandes edifícios. Prestam-se, contudo, para receber um bom acabamento tanto interno, como externo e são, em geral, cobertas com amplos telhados que as protegem contra a chuva. Conquanto seja razoável essa precaução, sabe-se de muros assim construídos que permaneceram intactos durante mais de um século, sem qualquer cobertura. Sob a ação do sol eles se tornam impermeáveis à água, como um único e sólido tijolo, e, a ausência de geadas aumenta-lhes a estabilidade.

As casas da cidade são geralmente de dois pavimentos, dotadas de sacadas que às vezes levam rótulas. As sacadas são os lugares prediletos, tanto dos homens como das mulheres que aí vão gozar do frescor da manhã e da noite ou assistir à passagem de procissões ou ainda qualquer ocorrência que desperte a atenção.

No Brasil, em geral, quer sejam as casas construídas de pedra ou de terra (taipa) são comumente revestidas e caiadas. A brancura dos prédios contrasta admiravelmente com seus telhados vermelhos, e, uma das principais vantagens que tal pintura oferece é que pode ser facilmente renovada. Em São Paulo, a cor das pintura das casas varia em alguns casos entre o amarelo palha e a rosa pálida. No geral, o aspecto externo das casas é alegre e asseado.

Já que estamos no assunto descreveremos o arranjo interno das moradias paulistas, descrição essa que se aplica também as outras regiões do império. Varia muito a divisão das casas; quase todas, porém, são construídas de forma a deixar uma área interna que serve para arejar os dormitórios, sistema esse tanto indispensável quanto é hábito generalizado manterem fechadas com pesadas folhas, as janelas que dão para a rua. Nas cidades, o andar inferior raramente é ocupado para moradia; serve às vezes para casas de comércio, outras vezes para cocheira ou estábulo. As dependências mais comuns, em cima, são: a sala de visitas e a de jantar, entre as quais existem, invariavelmente, alcovas que servem de dormitórios. A mobília da sala de visitas varia de conformidade com maior ou menor luxo da casa mas, o que se encontra em todas elas é um sofá, com assento de palhinha e três ou quatro cadeira dispostas em alas rigorosamente paralelas que, partindo de cada extremidade da primeira peça, projetam-se em direção ao meio da sala. Quando há visitas, as senhoras sentam-se no sofá e os cavalheiros nas cadeiras.

Os subúrbios e os arredores de São Paulo são muito interessantes e neles encontram-se numerosas residências elegantes, cercadas de jardins. A cidade é o centro de convergência de toda a província. Muitos dentre os fazendeiros mais abastados têm casas na cidade e só permanecem algum tempo na fazenda, pois, de S. Paulo podem melhor orientar a venda de suas safras, à medida que passam, serra abaixo em demanda do mercado.

Num dos sítios mais amenos do lugar, a cerca de uma milha de distância, fica o Jardim Botânico, fundado há mais ou menos 10 anos. Seu plano geral é de muito gosto, dispondo de alamedas curvilíneas arborizadas e um esplêndido largo artificial de águas límpidas. Suas dimensões são amplas, e, se, for bem cuidado, poderá constituir magnífico logradouro. Atualmente, porém, está um tanto abandonado por falta de recursos do tesouro provincial. Há nos arredores, diversas residências finas, e, da elevação em que está situado, descortina-se esplêndido panorama da cidade.

Sendo domingo o dia subsequente ao de nossa chegada a São Paulo, visitamos diversas de suas 12 igrejas, aí incluídas as capelas do convento. A catedral diocesana é bastante ampla, e, por ocasião de nossa visita cerca de vinte clérigos cantavam a missa. Era grande a assistência, com acentuada predominância de mulheres. Notamos dois cavalheiros entretidos em animada palestra ajoelhando-se e levantando-se alternativamente, como se pudessem ao mesmo tempo orar e conversar. Em outra igreja de muito menores dimensões, havia também grande número de fiéis, e ainda aí tivemos ocasião de notar a mesma solenidade observada em todos os atos religiosos a que tivemos ocasião de assistir no Brasil. A cerimônia a que nos referimos era uma missa de réquiem.

A 25 de janeiro festejaram a conversão de São Paulo, padroeiro da cidade e da província. Diversos dias antes havíamos lido um edital do Bispo dando ordem das solenidades em comemoração do "glorioso e maravilhoso acontecimento". Os atos principais eram: missa, sermão, procissão e exposição de relíquias. Voltamos, portanto, à catedral ao meio-dia para ouvir o sermão. Consistiu apenas no elogio da vida e do caráter de S.Paulo, mais o orador não primou pela elegância da dicção nem pelo entusiasmo. Como sóe acontecer nos púlpitos brasileiros, o padre recitou um sermão decorado. Em outras ocasiões assistimos a declamações bastante expressivas, mas, na solenidade a que nos referimos, o bom clérigo não deve ter tido tempo de se preparar bem ou, então, era dotado de muito má memória, porquanto atrás dele havia outro, com o manuscrito na mão. Entre o orador e o "ponto" havia uma cortina que o escondia do público. Quando, porém, seus serviços se tornaram necessários, precisou de mais luz e, pondo de lado a cortina, apareceu em toda a importância de suas funções.

A construção dessa igreja, como em geral das outras, no Brasil, não leva em consideração as conveniências do orador nem as do auditório. O púlpito fica de lado, e o fundo da igreja é invariavelmente ocupado pelo altar-mor. A assistência não tem onde sentar a não ser no piso de terra, de madeira ou de mármore, conforme a suntuosidade do templo. O chão é às vezes juncado de folhas, outras vezes coberto com tábuas limpas, sendo que, em alguns casos, vimos transportarem cadeiras para a igreja. Por ocasião de nossa visita, a grande área que ficava para o lado de dentro das grades estava cheia de senhoras sentadas 'à la turque', todas juntas. Assim instaladas com frente para o altar onde estava sendo celebrada a missa, não podiam olhar para o pregador conquanto tivesse ele tido o cuidado de se colocar ao lado direito.

Era realmente imponente o aspecto dessa parte da assistência. Quase todas as senhoras traziam graciosas mantilhas escuras e ao mesmo tempo chapéu e chale. Os amigos parisienses ficaram particularmente impressionados com esse detalhe, e, maior foi o seu espanto ao descobrir sob as mantilhas numerosos rostos de cor. Como bons católicos não puderam de deixar de observar que grande parte das músicas tocadas durante as cerimônias eram conhecidas em França como peças licenciosas e profanas; nem mesmo isso, porém, os impressionou tanto como a decepção que tiveram com relação à compleição das senhoras. Devemos deixar aqui consignado o fato de não terem rivais no Império as paulistanas, quanto à beleza e aos dotes as exornam, constituindo motivo de orgulho e pureza e a nobreza de sua linhagem. Não é, porém, numa reunião promíscua como a que acima referimos que se podem apreciar essas qualidades das filhas de São Paulo. Além disso o apuro do vestuário, não constitui no Brasil, índice de condição ou de nível social. As classes inferiores exaurem seus recursos em adornos domingueiros e a senhoras capricham em bem vestir suas escravas. Ás vezes o ouro e a pedraria adquiridos para refulgir nos salões, são vistos cintilando pelas ruas, em curioso contraste com a pele negra das domésticas, efêmeras e humildes representantes da abastança da família.

Às 5 horas da tarde a procissão saiu da catedral e desfilou pelas ruas principais ao som de um constante repicar de sinos. Toda a cidade estava a postos para assistir ao desfile do cortejo e as janelas e sacadas regorgitavam de espectadores, enquanto das casas das famílias ricas, pendiam finos damascos em honra ao padroeiro da cidade. Duas irmandades, uma de pretos, outra de brancos, marchavam em alas, cada irmão levando uma vela de cera de comprimento suficiente para servir também de bordão e tendo sobre o ombro uma opa branca, vermelha ou amarela que indicava a ordem a que pertencia.

As imagens eram em muito menor número que de costume. De fato só havia três: a primeira representando a Virgem Maria com o menino Jesus; a Segunda, São Pedro com as chaves e terceira, São Paulo. Fechando o séquito marchava o Bispo, assistido, de ambos os lado por antigos sacerdotes cujos vistosos paramentos eram pouco inferiores aos do Bispo. Um turíbulo queimando incenso, precedia o venerando diocesano já curvado sob o peso dos anos. Ouro e diamantes cintilavam em sua mitra, e, sobre a cabeça, abria-se o pálio de seda. Nas mãos levava um pequeno crucifixo contendo a hóstia à qual ele parecia orar devotamente. Em último lugar ia uma banda militar e cerca de cem simulacros de soldados em uniforme da Guarda Nacional".



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