Barão João Tiago von Tschudi"Os caminhos estavam encharcados e escorregadios, e já eram bem umas duas horas da tarde, quando chegamos em São Paulo. Hospedei-me no Hotel Palm, que me fôra recomendado por diversas pessoas. Os aposentos eram medíocres, mas a recepção, atenção dispensada aos hóspedes e a boa mesa, compensavam a lacuna. O proprietário do hotel, um alemão, era um antigo colono. Durante alguns anos, tivera um albergue na estrada de Santos, depois do que viera estabelecer-se com um hotel alemão na capital da Província. Nessa mesma tarde, recebi a visita de alguns conhecidos da minha viagem anterior, e, em breve, formou-se um pequeno círculo alemão, que se animou com a palestra, agradável e alegre do major Von Sukow. Um dia depois de minha chegada, visitei o presidente da Província, que já fôra informado de minha presença na cidade. Fui convidado a um passeio até a penitenciária, que não ficava longe da cidade. Nesse estabelecimento correcional encontravam-se dois colonos de parceria suíços, presos havia quase dois anos. Eram culpados de graves e repetidos excessos na colônia Laranjal, perto de Campinas, de onde, finalmente, haviam fugido. Tinham sido recapturados e o tribunal de Campinas os condenara a trabalhar na penitenciária durante o tempo necessário para pagar, com o produto do trabalho, as dívidas deixadas na fazenda. Ao folhear os autos, tive a oportunidade de verificar que o processo correra normalmente, mesmo porque o advogado dos colonos era um inimigo figadal do proprietário da fazenda Laranjal. A sentença estava de acordo com o código penal, mas não com os dispositivos legais que regiam os assuntos atinentes aos colonos. Segundo os dispositivos de que falo, o colono que foge deixando dívidas, em caso nenhum poderá ser condenado a mais de dois anos de prisão, e o produto do trabalho efetuado na prisão, deve ser aplicado no pagamento da dívida contraída. Ora, de acordo com a sentença proferida pelo tribunal em Campinas, os colonos em questão teriam de ficar toda a vida na prisão, pois suas dívidas eram consideráveis, e o dinheiro que se ganhava na penitenciária, muito pouco. Uma vez informado sobre a verdadeira legislação, entreguei o caso a um advogado hábil, que apelou contra a sentença do tribunal de Campinas, e tomei, ao mesmo tempo as providências cabíveis, tanto nessa cidade como em São Paulo, onde o presidente me prestou eficaz auxílio, que acelerou o desenlace da questão. Tudo foi resolvido satisfatoriamente e os colonos foram libertados poucas semanas mais tarde, após cumprirem os dois anos de reclusão. A penitenciária me surpreendeu em alto grau pela sua organização pratica e eficiente, e não exagero se a comparo com os melhores institutos congêneres existentes na Europa, sendo que os sobrepuja, mesmo alguns dos mais afamados de entre eles. Em toda a parte reinava grande ordem e asseio. Os dormitórios e as oficinas eram amplos e bem ventilados. Nas oficinas os presos trabalhavam em vários ofícios, tais como o de alfaiate, sapateiro, ferreiro, encadernador, etc... Quem não soubesse de nenhum ofício ao entrar na penitenciária, devia escolher um. Cada oficina era dirigida por um mestre livre. Os presos podiam unicamente conversar com ele, limitando-se a observações, perguntas relativas ao trabalho. Mais tarde, visitei ainda, por duas vezes, a mesma penitenciária, e tive ocasião de assistir à refeição principal. A comida era farta e boa, de tal modo abundante que alguns detentos não chegavam a consumir toda a ração. O aspecto físico dos presos, cuja maioria era composta de gente cor, era excelente. No hospital, encontrei apenas quatro enfermos, sofrendo um deles de peratonite e um outro de artritismo e dois restantes de ferimentos leves, recolhidos nas oficinas; um destes era um hamburguês, que tinha um prego cravado no pé. Os dois referidos colonos suíços, com os quais conversei durante certo tempo, manifestaram-se favoravelmente sobre o tratamento que lhes era dispensado na penitenciária, salientando antes de tudo, a bondade do diretor. Ambos se dedicavam a trabalhos leves, no jardim e na horta, e tinham ainda a regalia de receber a visita de suas esposas, que se tinham estabelecido na cidade como lavadeiras. Assuntos de importância prenderam-me por alguns dias em São Paulo, dando-me o ensejo de ficar em contacto mais íntimo com o presidente da Província. Era ele um desses homens de poderes efêmeros que vivem e morrem com Ministério ao qual devem o cargo, e evitam com grande habilidade cair no desagrado de uma ou outra facção política, manejando com grande cuidado a nau incerta em que embarcaram. Mas tais manobras pouco adiantam geralmente e lhes asseguram nem posição estável, nem influência. A atitude bastante ambígua e duvidosa do então presidente da Província ficou patente para mim, quando ele me ofereceu, por ordem do Governo Imperial, as cartas oficiais de recomendação para as autoridades e fazendeiros cujas colônias de parceria eu tencionava visitar. Ao tomar conhecimento do conteúdo de tais cartas, cheguei à conclusão de que elas de nada serviam, dados os fins que se destinavam. Não pude, pois, deixar de fazer uma observação bastante enérgica ao senhor presidente, o que não lhe agradou, pois exigi que fornecessem cartas com redação diversa, de acordo com o rascunho por mim sugerido. Recebi estas cartas nas vésperas de minha partida, e tive a satisfação de notar depois que surtiram em toda a parte o efeito desejado. Um pequeno exemplo vai servir de amostra de quanto se explora toda e qualquer atitude de um presidente da Província, no terreno das lutas e paixões políticas. O presidente convidara a mim e aos major Von Sukow, que já conhecia havia anos, para uma festa. Num círculo pouco numeroso, encontramos algumas personagens de destaque na vida da cidade, e divertimo-nos o quanto é possível alguém divertir-se nas severas e cerimoniosas reuniões brasileiras. Semanas mais tarde, remeteram-me um recorte de um jornal do Rio de Janeiro, no qual encontrei para grande surpresa minha, um artigo enviado de São Paulo, no qual se relatava que o presidente convidara o embaixador da Suíça e o major Von Sukow para sarau e que, quando esses dois senhores compareceram encasacados, de gravata branca e luvas "Jouvin!, o ajudante de ordens de informou que o presidente já se achava em seus aposentos particulares e não receberia ninguém. Não satisfeito em forjar um caso absolutamente imaginário, o correspondente insultava ainda o presidente, observando mais que o Governo não podia manter por muito tempo no poder um homem de tão pouca educação, que tratava de tal forma o representante de um país amigo. Aí estava o fundo da história toda, o articulista caluniava o presidente afim de propor seu afastamento do cargo, pensando na máxima fundamente de toda a calúnia: semper aliqui haeret. No decorrer da minha permanência em São Paulo, fui visitado por um grande número de colonos suíços, que tinham abandonado seus contratos de parceria depois de haverem pago as dívidas contraídas ou de se haverem delas esquivado por meio da fuga. Estes últimos pediam minha intervenção a fim de lhes por em ordem a situação e livrar-lhes da constante ameaça de uma ação judicial contra eles. Todos se mostravam muito satisfeitos com os ofícios que então exerciam: uns já haviam conquistado posição econômica estável, outros lutavam ainda contra grandes adversidades, mas sentiam-se homens livres. Alguns, entretanto, viviam na mais negra das misérias, entregues ao vício do álcool. Encontrei também alguns colonos da antiga colônia Santo Amaro, gente de caráter bastante esquisito. Por ordem do Imperador D. Pedro I, o presidente da Província de São Paulo recebeu a incumbência por intermédio do decreto ministerial de 8 de novembro de 1827, de tomar todas as providências necessárias afim de poder abrigar um número considerável de colonos alemães, os quais chegaram, efetivamente, no ano seguinte à capital da Província. Tratava-se de 149 famílias, compreendendo 926 indivíduos, incluindo 72 não casados. Na colônia Santo Amaro, foram localizadas 336 pessoas. O Barão de Antonina ficou com 238, fundando mais tarde, na província do Paraná, a colônia Rio Negro. Na vila de Conceição de Itanhaém ficaram 39 pessoas, e 57 em Cubatão de Santos. Os restantes não foram para nenhuma empresa colonial, permaneceram na cidade e dedicaram-se a diversos trabalhos e ofícios. Os colonos que foram localizados em Santo Amaro eram, na sua maioria, prussianos-renanos, da região de Hundsrueck, e tiveram no Barão, mais tarde, Marques de Santo Amaro, um protetor benevolente. Parte deles, especialmente os católicos, aceitaram as propostas do Governo, que eram as seguintes: 1) Cada família receberia uma doação de 400 braças quadradas de terra; 2) Cada pessoa adulta receberia, durante um ano e meio,160 réis diários em moeda. Cada criança receberia metade dessa quantia; 3) Bois, cavalos, ovelhas seriam fornecidos pelo Governo ,devendo o valor desse gado, em moeda ou espécie, ser restituído dentro de quatro anos; 4) Os colonos que tivessem vindo por conta do Governo teriam isenção de impostos por 8 anos e, os que tivessem pago suas passagens, por dez anos; 5) Os colonos ficavam na obrigação de tomar armas, quando em caso de perigo fossem convocados pelo Governo; 6) Recrutamento obrigatório para as crianças; 7) O governo ficava obrigado ao pagamento dos honorários de médicos e padres, durante ano e meio. Outros colonos, geralmente os protestantes, não aceitaram essas condições e preferiram adquirir terras para cultivá-las logo que se apresentasse a oportunidade. Adquiriram, efetivamente, uma sesmaria que antes pertencera ao jesuítas, a algumas léguas de distância de Santo Amaro, perto da aldeia de Itapecerica. Estes colonos não receberam subvenção nenhuma do Governo, mas ficaram entregues à própria sorte, o que os levou a um desenvolvimento vagaroso, mas seguro da colônia. Decorridos alguns anos, os colonos já tinham adquirido certa independência e bem-estar, cultivavam suas terras e continuavam a trabalhar sem desfalecimentos, nas suas lides agrícolas. Nenhuma família deixara a colônia, corservaram seus trajes tradicionais e muitos dos mais velhos vestem ainda hoje, aos domingos, o fraque azul com que foram confirmados na pátria distante. Esses alemães gozam de grande estima em toda a redondeza. Vendem seus produtos na vila de Santo Amaro ou no mercado de São Paulo. Segundo informação que colhi, o número de colonos em Santo Amaro e Itapecirica era de 5000 indivíduos em 1860. Não posso afirmar, entretanto, que estes dados sejam exatos. Esta foi a tentativa de colonização mais barata que se fez, no decorrer dos tempos, em todo Brasil. O elemento alemão em São Paulo é numeroso. Há na Província homens eminentes, de origem germânica. Na capital, encontramos alemães em todas as camadas da população, sendo que a maioria deles aí se estabeleceu recentemente, em conseqüência da colonização. Os protestantes possuem seu templo próprio. O pastor que ali estava, ao tempo de minha visita à cidade, era o pastor Hoelzl, austríaco de origem. Um dia depois de minha chegada a São Paulo, fui procurado por um certo português, que se apresentou como o dr. Lopes. Já dois anos antes, este homem despertara a minha atenção, na mesa do hotel, tanto pelos seus traços fisionômicos marcantes, como pela sua conversação exaltada. Informaram-me que se tratava de um médico homeopata, bastante excêntrico em suas idéias, mas absolutamente inofensivo. O motivo de sua visita era dos mais estranhos. Depois de um preâmbulo muito animado e confuso, durante o qual me fez uma exposição da vida brasileira, frisando sempre as injustiças cometidas pelos brasileiros contra os imigrantes portugueses e europeus em geral, abordou um inesperado desfecho. Disse que não havia outro meio de dar cabo a tais iniquidades senão declarando guerra ao Brasil. A Inglaterra e a França não se interessariam pelo caso, a Alemanha não apresentava seu poder unido em face de uma nação transatlântica; assim sendo, nada restava, pois, senão uma aliança entre Portugal e Suíça, para dar início a esta guerra. Portugal forneceria frota, a Suíça as tropas. Acrescentou ainda que já elaborara os planos até nos seus mínimos detalhes, e pedia meus bons ofícios para transmitir o projeto ao meu Governo. Quanto a ele, não duvidava um só instante de que a Suíça iria aproveitar com prazer a oportunidade para castigar o Brasil. O êxito era seguro e ambos os países aliados se cobririam de louros. O dr. Lopes ficou muito desapontado quando lhe declarei que não podia me entusiasmar por um projeto tão fantástico e louco; por isto deixou de enviar seus planos já elaborados. Entre os inúmeros episódios que me relatou para ilustrar os aspectos da vida brasileira, vou reproduzir um, sem contudo afiançar pela sua autenticidade, pois ninguém mais pôde confirmá-lo, não obstante minhas pesquisas para averiguá-lo. Eis, pois, a história do dr. Lopes: Perto de Moji-mirim, na província de São Paulo, viviam dois fazendeiros amigos. Um deles, ainda moço, travou relações íntimas com a filha do outro, embora fosse já casado. O pai suspeitou do ocorrido e a moça viu-se forçada a confessar-lhe que das suas relações com o rapaz tinham advindo conseqüências comprometedoras. Dirigiu-se, então, o pai à casa do amigo e disse-lhe laconicamente. "Tens que casar com minha filha." "De muito bom grado — retrucou este — mas, como sabes, já sou casado". "Nada tenho a ver com isto" — tornou o outro". Repito: "Tens que casar com minha filha" E dito isto partiu, sem acrescentar mais uma palavra, sequer. Passado pouco tempo o jovem marido empreendeu uma viagem de negócios a Santos. Durante sua ausência, perfurando o teto do quarto de dormir de sua esposa, dois capangas penetraram assim no seu aposento e estrangularam de maneira mais bárbara a pobre mulher. Dois dias mais tarde, foi sepultada a vítima, dizendo-se que sucumbira de um ataque cardíaco. O pai da moça pretendente ao recém-viúvo acompanhou a cerimônia do enterramento, mostrando-se nessa ocasião um dos mais dedicados amigos. Quando o outro voltou da viagem, tudo já estava acabado. Recebeu as condolências de praxe e, tempo depois, casou com a filha do amigo."
|