"Peças" com "defeitos ocultos"

Ao receber duas escravas, por volta de 1700, em pagamento de uma dívida, José Ramos da Silva, homem ilustre paulistano, suspeitou de "defeitos ocultos" nas "peças", fato não notado pelos avaliadores ao fixar o preço da "mercadoria". Como um consumidor lesado, ele entrou na Justiça requerendo uma avaliação mais técnica para chegar ao preço justo: "...lhe coube a elle suplicante em quinhão de dívidas duas negras do gentio, uma por nome Maria, outra por nome Esperança, as quais foram vistas e avaliadas e como as ditas negras tem achaque intrínseco, o que os ditos avaliadores não podiam conhecer, só fazendo a dita avaliação pelo foro externo, requeresse mandasse fazer vistoria nas ditas negra pelos cirurgiões desta villa e sendo o achaque velho diminuam na primeira avaliação aquilo que a suas consciências lhe parecer justo".
Feita a perícia, confirmou-se a atilada intuição de José Ramos, pois "pelos cirurgiões João Lopes Leal e João Guilhote foram vistas as negras Maria e Esperança e debaixo de juramento dos Santos Evangelhos que receberam declararam que dita Maria padecia uma obstrução já antiga e que podia ter cura e que a dita Esperança tinha duas mulas ambas as duas abertas e uma dellas formada sobre uma banda de que podia ter cura tomando dos medicamentos necessários"
Esperança ,na casa dos vinte, avaliada primeiramente por 160$000 e Maria, ,na mesma faixa etária , avaliada por 180$000 tiveram seus preços respectivamente baixados para cem e sessenta mil réis. Valeu a luta do Zé Ramos pelo seu" direito de consumidor".



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