São Paulo de outrora - Evocações da Metrópole

Paulo Cursino de Moura

Triângulo
Formado pelas Ruas 15 de Novembro, Direita e São Bento, o velho Triângulo constitui a tradição máxima de S. Paulo . Destacá-lo, pois, das suas faces para evocar cada uma delas separadamente, seria desmembrar as moléculas que formam o conjunto harmônico da legendária Piratininga. Vive nessa excentricidade do Triângulo, que de triângulo só tem o nome , a cronologia de toda a vida comercial e social da Paulicéia.
Quantos já o descreveram! Nas crônicas elegantes, no mundanismo, ao tempo das ''anquinhas '', da flor no cabelo, das mantilhas, dos homens barbados, dos provincianos de calça branca, sobrecasaca e cartola, até às moderníssimas ''toilettes '' de fino regalo visual. Nos romances, onde já se não cita em São Paulo, mas o triângulo, o sempre aristocrático centro comercial que se eternizou na memória dos brasileiros e estrangeiros, quantos viram e perambularam por essas três vias privilegiadas que os antepassados nos legaram.
Já houve tempo clássico para o triângulo paulista. Não se cogitava do resto da cidade. Tudo convergia para a figura geométrica que fez de São Paulo, — cidade genuinamente acidentada — a propagandista forçada dos rígidos princípios da matemática.
Um único ângulo reto, desse triângulo, passou á posteridade . O da Rua de São Bento com a Rua Direita, formando a sua confluência o célebre e decantado — Quatro Cantos de que tem saudosa memória os que ali alcançaram o Hotel de França, o velho Café Acadêmico e a velhíssima chapelaria João Adolfo Schritzmayer. Com a abertura da Praça do Patriarca os — Quatro Cantos — desapareceram para a maior confirmação do absurdo do Triângulo.
Triângulo! Os beneméritos desbravadores do sertão que circundava a colina não tiveram em mira formar triângulo, ao indicar, roçando ''guexima''e carpindo ''fedegoso'', para a abertura dos caminhos: aqui será 15 de Novembro, ali Direita e acolá São Bento. A formação foi natural. Nem de compasso ou de esquadro se utilizam, confeccionando esse triângulo memorável que deveria passar à posteridade. Mero, fortuito acaso.
''Na zona da primitiva cidade, diz Afonso A. de Freitas, o relevo áspero do terreno obstou a regular constituição do nivelamento a arruamento da povoação que surgia. O vale profundíssimo que, ao dobrar dos séculos, as nascentes do Anhangabaú cavaram bipartinho e, pelo seu afluente Saracura Grande, tripartinho o maciço projetado pela Serra do Mar entre os rios Pinheiros e Tamanduateí até a margem do Tietê, obrigou o paulista a construir os Viadutos do Chá e Santa Ifigênia . A Rua 15 de Novembro delineou-se em curva pela necessidade da sua ala direita evitar, contornando-a , a barroca que desde o quintal do Colégio, hoje Rua General Carneiro, se estende até o extremo da Rua 3 de Dezembro, exigindo a construção de mais um viaduto de ligação entre o Largo de S. Bento e o Palácio, em prolongamento da Rua Boa Vista.
''O que se chama hoje centro, escreve Washington Luiz, era, por assim dizer, toda a cidade de então, com as suas tortuosas ruas serpenteando no cabeço da colina, estreitas num ponto, largas noutro, recortadas de casas baixas, de enormes beiradas de telhado a protegerem as paredes de taipa, branqueadas quando o eram, de tabatinga .''
Daí o forma-se '' no cabeço da colina'', o triângulo, como que o cocuruto chateado do cérebro piratiningano . A ''plan'história '' da nacionalidade .
Para a formação de uma rua, primeiro fazem os pés dos viandantes o trilho, o risco de terra batida na grama, nesse lugar completamente estéril, por entre ''avenidas '' de ''barba de bode'' . Depois, vem o caminho. Ai a enxada trabalhou . Os cupins foram destruídos, o mato foi cortado e a gente tem a impressão de agradável bem-estar pisando terra fofa, como tapete, sem perigo de cobras ou de "mal casados''.
Mais tarde, a estrada. Com nome, com cerca, com algum pedaço de muro, com duas ou três casas, com a venda na encruzilhada.
Finalmente, surge a rua. A cidade, então, já tem Câmara Municipal, já tem vigário, já a igrejinha, no meio do pátio, desfere, às Ave- Maria , as plangências que a nostalgia nos leva aos píncaros da lua ou ao aconchego doce de uma recordação . Na botica da esquina, já, à noite, o cavaco-tesoura, o noticiário cômico-sátiro dos magnatas da situação, onde a política é ferrotoada sob forma humana para gáudio de risadas e chocarrices. Nesta fase da construção do urbanismo, a rua é como uma dependência da casa ou do quintal da casa. É jardim, é curral, é lavábulo, é enxurro de necessidade. Ali, os três e aos quatro formam-se os grupos, onde a tagarelice transborda afiada, venenosa. Nas calçadas de tijolos ou de pedras largas e toscas, enfileiram-se as cadeiras, assim com uma arquibancada para os espetáculos de todos os dias. No meio, de canto a canto, o jogo da '' amarelinha'' pelas crianças; o de ''malha'', pelos moleques, ou a '' correria '' em animais fogosos, sobre ''lombilhos'' prateados, com que a mocidade risonha e fresca prepara os galanteios e se entontece nos namoricos sentimentais. À noite, ao luar, a guitarra, a viola, e os melosos queixumes de serenatas plangentes .
A rua é tudo... e a rua se forma assim. Assim se forma a cidade. Quantas há, nesta fase inicial, por ai a fora!
Na quadra em São Paulo circunscreveu o Triângulo, as suas ruas não foram medidas . Nasceram naturalmente, espontâneamente , como nascem todas as ruas, e estão nascendo as de Itapecerica , por exemplo, para ser, quiçá, um São Paulo no futuro.
A entrada da cidade, outrora, se fazia , de preferência, pelos lados do Glicério, a imensa várzea que acariciava os afluentes do Tamanduateí , pela subida da Glória ou do Tabatinguera . Tanto que a torre da Igreja da Boa Morte, na esquina da subida da Rua Tabatinguera, dominado a estrada do Ipiranga até perder-se ao longe do horizonte, era chamada '' torre de observação '' para a denúncia, com repique dos sinos da igreja, o qual despertava os das demais da cidade, dos presidentes da Província e bispos diocesanos que vinham do Rio após a nomeação ou sagração, entrando triunfalmente na sede da sua jurisdição .
A cidade pela lei do menor esforço foi se localizando na encosta, rodeada de grotas, ''vis-à-vis'' da igrejinha e do Colégio dos Jesuítas. No outro ponto de referência do planalto, para a descida do Miguel Carlos, localizou-se o chefe índio Tibiriçá, e o Largo de São Bento se delineou.
Do largo da Sé, o ponto em primeiro lugar atingido pelo pedestre, foi o caminho abrindo pela Rua 15 de Novembro, à direita, e pela Rua Direita, á esquerda, subindo, na confluência da primeira, a Rua de São Bento, que, unindo-se á Segunda, formou, na boa vontade dos nossos antigos, o Triângulo, o célebre Triângulo, mas na precisão geométrica dos ângulos retos, agudos ou obtusos. Alcântara Machado, no ''Vida e Morte do Bandeirante'', tem páginas empolgantes de estudo e de veracidade, colhidas através dos ''Inventários e Testamentos'', definindo a formação do ''povoado '' piratiningano e a momeclatura das ruas pelo sistema da direção e do movimento, o que vem em abono da explicação da origem da Rua Direita, torta.
Desde a localização dos imóveis nos lugares ''que são sabidos'', até á referência pelo vizinho ''junto, pegado, defronte, por trás'', a rua, à medida do seu desenvolvimento, batizava-se ''a que vai para...'', ''rua direita de São Bento para São Francisco'', ''rua direita da Misericórdia para Santo Antônio''. Quinze de Novembro foi, antigamente, Manuel Pais de Linhares, e sucessivamente, do Rosário, da Imperatriz. São Bento chamou-se, originariamente, Martim de Afonso, nome cristão do índio Tibiriçá, mas a denominação São Bento é antiquíssima, eis que da fundação do Mosteiro, no largo, ficou este nome divulgadíssimo no São Paulo antigo, como os seus colegas São Francisco, Misericórdia, do Colégio, Santo Antônio, Carmo e Sé Catedral. Tudo partia, na trajetória urbana, destes pontos de referência. E a Rua Direita sempre foi Rua Direita, apesar das variações e dos complementos: ''rua direita da Misericórdia para santo Antônio'', ''rua direita de Santo Antônio''.
Se pilhéria existe na denominação dessa rua torta, a culpa será, talvez, do órgão visual, estrábico, do primeiro intendente da municipalidade paulista, ao tempo da onça, em que, de teodolito em punho, pretendeu endireitar o ''trilho'' que percebeu ao caminho, o caminho que antecedeu á estrada, e a estrada que formou a rua. Não consta, entretanto, na história, referência alguma á intolerância dos municípios no beneplácito à confecção torta da rua que batizaram de Direita. Mas, é bem de ver, também a Rua Direita tem o porquê do seu nome. Sant-Hilaire, na pitoresca descrição que faz de São Paulo, na sua primeira viagem em 1819, apesar da constatação de que a ''cidade é muito irregular em seus contornos'', se mostra benevolente para com as ruas que ''são largas e planas e os carros podem bem transitar nelas'', sendo que ''as mais vistosas são a Rua Direita e a de Antônio Luiz''. A visão, para não dizer observação, dos nossos antepassados, se equivalia à do sábio botânico. A relatividade era-lhes sobremaneira intuitiva, talvez mais do que nos tempos hodiernos da descoberta de Einstein ... Por isso, as ruas seriam largas, tanto que ''os carros nelas transitavam '' e a Rua Direita seria vistosa, com o cotovelo da Misericórdia empanando toda a vista... do horizonte.
Damos explicação à mesma tortuosidade da Rua Direita apegados à mesma relatividade de Saint- Hilairie.
Naquele tempo pretenderam os paulistas fazer um caminho mais curto entre o largo da Sé (aliás, terreiro) e o despenhadeiro, onde hoje se localiza o Viaduto do Chá, para atravessando o Anhangabaú , passar a outra margem e subir a nova encosta, Morro do Chá.
Pois, nada mais fácil. Enveredaram pelo atalho, em direção mais ou menos reta (acuda-nos a relatividade !) e foram chamando Rua Direita, como quem queria dizer - rua direta- assim como denominavam ''rua direita que vai para São Bento '', ''rua direita que da Misericórdia vai para Santo Antônio''. Daí se deu, como a tudo se dá, empírica e historicamente falando, uma explicação à tortuosidade da Rua Direita.
Este nome é inexpressivo. Os outros do Triângulo evocam e recordam, um o fato básico da nossa vida republicana, e outro a fidalguia do Santo Beneditino, fundador de abadias, colocado ali no bronze maciço e terno, em frente á Basílica, como a proteger a cidade dos maléficos, protetor que é, na crença pública contra todas as calamidades.
Mas a Rua Direita nada diz, nada explica. No entanto, ali, daquele que se propuser endireita-lhe o nome! A Rua Direita, se, em si mesma, é banal, na sua memória, no sangue que corre pela sua artéria, é genuinamente paulista, percorrendo todas as etapas, desde a colonização, não constando que estivesse outra denominação, além de, em curto período, de Santo Antônio, motivada pela igreja do mesmo nome, e isto mesmo com o prefixo - direita de Santo Antônio. Gerações e gerações palmilharam os metros quadrados da sua extensão. Não há ali, hoje, coisa inanimada que evoque as passadas idades. Tudo se remodeleu de decênio em decênio. Mas, vibra no ar parado, por entre vãos de prédios gigantes, toda a sensação de uma vida turbulenta e estonteante, crescendo, crescendo, como se um grão de areia fosse, aos poucos, milagrosamente, se transformando num imenso bloco da cantaria.
Admirável ressurreição ! Bendita realização do engenho humano!
O Triângulo concentra em si a grandiosidade da metrópole paulista. Afigura-se-nos um rizoma enorme, cujos tentáculos, distendendo-se pelos bairros e bairros, distribuem a vitalidade da cabeça pensante que lhes dirige os movimentos. Embora se queira decepar os tendões, as tuberosidades, as radículas, estas se concentram numa resistência de aço para o, amparo dos golpes. O próprio Brás, que várias administrações pretenderam desligar do conjunto, ai está cada vez mais unido à sede, agora que a várzea do Carmo, outrora inóspita, nas imundícies do Tamanduateí, se transfigurou naquele suntuoso Parque D. Pedro II.


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