Às moças paulistanas que hoje me pediram versos

Martins Fontes (agosto/1932)

Como um clarim de guerra, conclamando,
Com a subitanea ardência de um fuzil,
Impertérrito, heróico, formidando,
São Paulo alçou-se em nome do Brasil!

Espraiou-se clarão da Liberdade,
No horizonte acendeu-se a nova aurora:
O clangor transmudou-se em claridade.
A radiecência se tornou sonora!

São Paulo! Madrugada. O alvor do orvalho
Prateia os cafezais no mês de abril
Ao alvorar enceta-se o trabalho,
O trabalho paulista no Brasil!

Lavra-te. A vida canta. O dia acorda.
Fogem trens. Fervem fábricas. Depressa,
Em torvelinho a multidão transborda,
E a labuta estridente recomeça.

Agricultando, pertinaz e sábia,
Vê-se a ciência, a exultar, em cada hastil,
Em plena América o Jarmim da Arábia
Embalsama os celeiros do Brasil

Manhã solar. Estuda-se. Em tumulto,
Desde a escola primária à Academia,
Nesses únicos tempos do meu culto,
O trabalho infindável se inicia.

Desde a tarde mais linda que há no mundo:
Cada poente paulista, em céu de anil,
É um sonho de arte, inédito e profundo,
Espelhando os tesouros do Brasil!

E prossegue o trabalho. A noite brilha.
O Cruzeiro desponta. Ergue-se a lua.
E, através da estrelada maravilha,
O trabalho em São Paulo continua.

Somos um povo de operários, somos
Os obreiros da gleba senhoril
Que, em vinte anos, em múltiplos assomos,
Centuplicam as Glórias do Brasil!

Bendita sejas, minha mãe Paulista!
Ao tocar-te me orgulho e me consolo!
Um filho teu não teme antagonista,
Torna-se Anteu, quando te beija o solo!

Meu Torrão, minha Pátria, minha Terra,
Dou-te o pão do meu corpo varonil,
O vinho do meu sangue em que se encerra
A cadência brilhante do Brasil!

E é por Ele, meu berço condoreiro,
Com a poalha de pólvora nas gardas,
Que entraremos no Rio de Janeiro,
Tendo flores em nossas espingardas!

Ó minha terra, boa e bela, eu te amo!
Mas de um amor fanático e viril!
E, no auge da paixão, ardo e me inflamo,
Ao pensar quanto és grande no Brasil!

Meio dia. São Paulo não descansa.
A atividade, multifária e nobre,
Em rajadas, em surtos de esperança,
Faz que a faina em mil forças se desdobre!

— Em Guanabara, sob o sol que amamos,
Rebradaremos, com bravor febril:
Nós de São Paulo rebralizamos
Os Estados Unidos do Brasil!


ALMANACK PAULISTA - PRÓXIMO

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