Pedro Luis Pereira de SouzaEstá sendo demolida a Segunda casa — Barão de Iguape — de grande e sólida construção, com frente para a Praça do Patriarca e pelo lados com as ruas Direita e Quitanda.
Era um prédio imponente que durante muitos anos alegrou e enfeitou a Praça do Patriarca . Residindo em Paris a sua proprietária, a Condensa Pereira Pinto, enviou a planta do novo prédio a ser construído, a seu procurador Dr. Ernesto Rudge da Silva Ramos, para que este entrasse em entendimentos com os construtores —Ramos Azevedo, Severo & Comp. — hoje — Severo & Vilares S/A. Essa construção foi iniciada pela importante e tradicional firma construtora, e 1909, segundo noticiário da ''Gazeta'', 15 de outubro de 1956. Foi esse o primeiro prédio construído em São Paulo com estrutura metálica. Com esta demolição desaparece, como ficou dito, a segunda Casa Barão de Iguape. Vamos agora contar uma pequena história da primeira casa dos quatros cantos. Quando vim para São Paulo, no ano de 1889 (ano da proclamação da República), existiam 3 grandes sobradões aqui no centro da cidade, todos localizados na rua de São Bento. O do Barão de Iguape, como já contei, ficava na rua São Bento, esquina da rua Direita. O segundo ocupava a esquina da rua Direita de São Bento, também nos quatros cantos. O terceiro, na rua São Bento, esquina da rua Ouvidor, hoje José Bonifácio. O prédio do Barão de Iguape foi comprado por esse titular, em 28 de abril de 1825, com dinheiro que o Brigadeiro Jordão emprestou para essa compra (três contos e quinhentos mil réis), Rs 3:500$000, constando tudo isso do livro de contas correntes do Barão de Iguape. Ai, nesse grande casarão da parte térrea e mais um andar, tendo, em toda a sua volta, grande quantidade de janelas com escadas, todas guarnecidas de grade de ferro, e na parte térrea existiam muitas janelas com vidraças do sistema ''guilhotina'', com fechos de madeira. Na parte da rua Direita , havia um enorme portão que dava entrada para um grande pátio. Ai entravam carros de bois carregando lenha, gêneros, e também se escolhiam tropas e animais de sela. Lembro-me ter ouvido contar, pelo Conselheiro Antônio Prado, uma passagem de sua mocidade. Quando cursava a Academia de Direito, aqui em São Paulo, na largo de São Francisco, morava com seu avô, Barão de Iguape, nesse sobrado, isso lá por 1860. Nesse tempo a população da nossa cidade era muito pequena e seu avô recolhia-se muito cedo, o que, aliás, era hábito dos moradores da cidade . Recomendava-lhe ele: ''Antonico, esteja cedo em casa porque às 8 horas da noite fecho a porta.'' De fato, a grande porta de entrada na rua São Bento, era fechada com enorme chave de ferro, igual as que se usavam nas tulhas das fazendas, havendo ainda, para maior segurança, uma pesada tranca de madeira. Não contrariando as ordens recebidas, recolhia-se o estudante cedo. Depois de tomar o clássico chá das 9, muito em uso nesses bons tempos, beijava a mão do seu venerando avô, recolhendo-se ao seu quarto no andar térreo. Contava ainda o Conselheiro: ''pensam que ia deitar-me logo? Nada disso. Erguia a vidraça da janela, que era muito baixa, pulava para a rua e colocava um pequeno calço na vidraça para suspendê-la na minha volta, e assim, livre, ia reunir aos meus colegas para alguma estudantada em repúblicas de companheiros alegres''. Contava-se também um fato interessante: tinha o Barão de Iguape um velho amigo, que morava no interior do Estado, vindo de vez em quando passar uma temporada aqui em São Paulo, hospedando-se sempre no velho e acolhedor ''Hotel de França'', também nos quatro cantos, na rua Direita e fronteiro a casa do Barão. Pela manhã, chegava a janela do hotel para ver o movimento da rua, e quase sempre na sacada fronteira o seu velho amigo, com um cobertor vermelho ao redor do pescoço, pois as manhãs eram bem frias nessa época. Cumprimentavam-se e davam uma prosa, dizendo-lhe o Barão: ''porque você não vem conversar aqui em casa?'' Respondia-lhe o amigo: ''não posso atravessar a rua que está muito enlameada !'' Retorquia-lhe o Barão: ''mando botar umas tábuas e você poderá passar!!!'' Isso na rua Direita !!. O Barão de Iguape legou esse solar a sua neta e afilhada D. Anna Brandina da Silva Prado, filha do Dr. Martiniano da Silva Prado e D. Verediana V. da Silva Prado, dando o valor de Rs. 6: 000$000 . Legou também ao seu neto e afilhado Antônio Prado, por escritura pública, a ''Chácara do Carvalho'' no bairro da Barra funda, no valor de Rs. 5:000$000. A primitiva Casa Barão de Iguape foi transformada em lojas na parte térrea e os altos alugados para o Hotel de França, que ai instalou o seu anexo, cuja matriz funcionava no prédio fronteiro, solar do Brigadeiro Jordão. Os aluguéis das lojas desse prédio eram recebidos pela Companhia Prado Chaves, com a qual a Condensa Pereira Pinto, sua proprietária, mantinha suas transações. A Condensa Pereira Pinto, residindo em Paris, tinha como seu procurador o Dr. Ernesto Rudge da Silva Ramos, casado com sua sobrinha D. Marieta Chaves da Silva Ramos, filha do Dr. Elias Pacheco e Chaves, casado com D. Anesia Prado Pacheco e Chaves . Lembro-me que, nos quatro cantos, era estabelecida a tradicional firma Peixoto & Stella, dois negociantes portugueses já com sólidas raízes em São Paulo, onde constituíram família . Essa firma negociava com ferragens a varejo e era uma casa muito conhecida e considerada pelo comércio e pelo público em geral. Um dia, correu uma notícia sensacional aqui no centro. Dizia-se ter aparecido uma cobra ! Nesta loja! Talvez fosse alguma pilhéria de mau gosto, porém houve quem afirmasse ser verídica a notícia, sendo de fato encontrada a tal cobra em um amontado de ferragens velhas. Hoje em dia é o hábito andar-se sem chapéu, pois saibam que esses dois negociantes, tanto Peixoto como Stella, naquele tempo, andavam sem chapéu e muitas vezes em mangas de camisa. O mesmo fazia o velho e respeitado negociante de fazendas por atacado, Francisco Sampaio Moreira. Andavam eles pelo centro da cidade, iam aos Bancos e outras casas de negócios, sem chapéu e em mangas de camisa! Hoje nota-se muito pouca gente de chapéu e até senhoras, que eram tão rigorosas no trajar . Só as velhas é que andam de chapéu. A ''Casa Henrique '', do saudoso e adiantado negociante Henrique Sadocco, hoje instalado em vistoso e imponente arranha céu, na rua Direita, esquina com o Largo da Misericórdia, começou e esteve com a sua modesta loja na Casa Barão de Iguape, na rua São Bento, até a sua demolição . Também existia ai uma loja de luva, leques e miudezas, do Scaramella, sempre muito preferida pelas senhoras. Junto ao portão na rua Direita havia um velho gravador que também fazia carimbos. Ouvi contar que o velho relojoeiro Fox, grande especialista em consertos de relógios (é quem dava corda e acertava o grande relógio na torre da Estação da Luz), também ai esteve estabelecido na rua Direita, com pequenina loja. Finalmente foram os negociantes intimados a desocupar o velho prédio em virtude da sua demolição. Acontece que, por ocasião em que a firma Peixoto & Stella veio pagar o aluguel e fazer entrega da chave, houve uma grande surpresa; o tamanho da chave! Era uma chave de tulha de café! A tal chave ficou exposta em cima da minha mesa, causando espanto a todos e pouco se acreditou que a mesma pertencesse a uma loja aqui no centro da cidade!!! Como lembrança do solar do Barão de Iguape, solicitei pessoalmente ao Dr. Ramos de Azevedo, que mandasse retirar com o máximo cuidado a preciosa fechadura, que se achava perfeita e era colossal. Hoje acha-se a mesma no Museu do Ipiranga, sendo entregue ao seu diretor o historiador patrício Affonso Taunay, que a aguardou carinhosamente. Haviam também outras pequenas lojas estabelecidas na rua São Bento e Direita, nesse prédio. Concluída a edificação da nova '' Casa Barão de Iguape'', imponente e belo prédio de 3 andares e bonitas lojas na parte térrea, tratou a sua proprietária, a Condessa Pereira Pinto, de proceder ao respectivo arredamento. Os altos foram locados a Daniel Souquiéres, conhecido e reputado hoteleiro, que transferiu o seu excelente restaurante - Rotisserie Sportsman- que se achava localizada na rua de São Bento, onde hoje são pagos os impostos da Prefeitura. Montou Daniel seu novo hotel nesse prédio, instalando bons apartamentos e mantendo com o mesmo esmero e capricho o seu ótimo restaurante - Rotisserie Sportsman -, senpre muito procurado e frequentado pelos inúmeros gastrônomos da nossa cidade, pois era onde melhor se comia em São Paulo. Ao declinar o ano de 1913, a 19 de novembro, abria-se em São Paulo em grande prédio à rua 15 de Novembro uma pequena loja britânica denominada ''Mappin Stores'' que ocupou uma parte ocupada por ''Mappin & Weeb'' famosos e reputados joalheiros com seção de jóias finas e pratarias, sendo que esta última manteve ainda uma filial no rio de Janeiro. De 1919 a 1939 - Mappin Stores - veio ocupar todo o novo prédio ''Barão de Iguape'' transferindo sua grande loja para esse imponente prédio, abrindo na andar térreo moderna loja com vistosas e largas vitrines em volta de todo o edifício e com a facilidade de dois bons elevadores, instalou nos dois primeiros andores, variadas seções e finalmente montou e manteve , todo o tempo em que lá esteve, um ótimo restaurante, onde sua freguesia, assim como o público, que frequentava o centro da cidade, ia fazer suas refeições. Todas as lojas foram locadas e ocupadas por vários ramos de negócios, dando vida e alegrando bastante os quatro cantos. Lembro-me que justamente na esquina, onde esteve Peixoto & Stella, foi instalada uma moderna e vistosa loja de tapeçaria e móveis de luxo, pela firma Claussener & Comp., cujo chefe foi por muitos anos funcionário da ''Casa Alemã''. Falemos agora do velho solar do Brigadeiro Jordão. Como já foi dito, ficava fronteiro ao do Barão de Iguape, esquina da rua São Bento com a rua Direita. Era sobrado com lojas em baixo, tendo também grande pátio onde também entravam carros de bois, com lenha e gêneros de consumo. Conta-se que o velho Martim Francisco, muito amigo do Brigadeiro Jordão, e residindo em sua chácara em Sant'Ana, costumava visitar muito a meúdo o Brigadeiro, no sobradão dos quatros cantos. Vinha esse político e grande parlamentar, montado a cavalo, aliás a condução mais usada na época. As senhoras eram transportadas em cadeirinhas luxuosas e carregadas nos ombros de possantes negros, em geral escravos. Martim Francisco entrava diretamente no pátio do sobrado, onde apeava-se, deixando aí a sua montaria. Aí nesse velho solar do Brigadeiro Jordão, funcionou por muitos anos o Hotel de França, dirigido por Guilherme Lebeis, que residia também nesse local. Com referência a hotéis, vale a pena transcrever o que nos conta o curioso escritor patrício - Hernani da Silva Bruno - no seu interesse livro ''História e Tradições da Cidade de São Paulo'' volume 2, "Apareceram estabelecimentos maiores e melhores, como o Hotel da Europa e o do Globo, além de uma porção de pensões''. Em 1865, hospedando-se no Hotel de França - dirigido pelo francês Planet - o Visconde de Taunay, nesse tempo tenente do nosso exército, achou que as refeições eram ótimas, e o serviço excelente e a limpeza perfeita. "Era um centro frequentado" - escreveu ele ''por tudo quanto São Paulo de melhor no pessoal masculino''. Esta última anotação foi extraída pelo autor das ''memórias do Visconde de Taunay''. Depois de ter reproduzido o tópico referente ao hotel de França, do escritor Silva Bueno, tive ocasião de conversar com alguns de amigos de 60 ou mais anos atrás, para que me informassem se o referido Hotel de França já existia quando aqui esteve o Visconde de Taunay, e infelizmente não encontrei até hoje quem me informasse se em 1865 já funcionava este hotel. Recorri ao meu velho e bom amigo Affonso Taunay e mostrei-lhe o trecho referido no livro do aparecido historiador Silva Bruno. Disse-me A.Taunay ''vou ler o diário de meu pai e te darei qualquer esclarecimento sobre esse caso''. Não eram passados muitos dias, quando recebi de A.Taunay a carta que ele me autorizou a publicar:
" Pedro Luís, amigo velho-
Nota- os dados referentes ao Brigadeiro Jordão, foram extraídos do importante e útil livro " A família Jordão", título 7, págsn 509/ 521, do historiador patrício Dr. Frederico de Barros Brotero.
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