Reminiscências Acadêmicas - 1887/1891

Everardo V. Pereira de Souza

Até 1890 São Paulo mantinha ainda o seu aspecto triste e pacato de cidade provinciana; o que não era de admirar, porquanto os fatores que, pouco depois, começaram a influenciar fortemente em prol de sua rápida metamorfose em grande capital metropolitana se conservavam-se inativos .
Muito limitada era sua área propriamente urbanística, e diminuta sua escassa população, quando muito, de umas 60 000 almas. Poucas ruas calçadas, e mais ainda as com paralelepípedos ; devido a isto a poeira e a lama imperavam.
Iluminação a gás em reduzidos combustores . Trânsito reduzido; bondes pequenos, tirados por muares ; vitórias velhas e avelhantados tílburis serviam o público. Todo mundo se conhecia; os comerciantes estavam a par da economia das famílias; os barbeiros faziam concorrência ao noticiário dos quatro ou cinco jornais existentes. A indumentária era disciplinada ; circunspectos cavalheiros não dispensavam sobrecasacas, cartola de feltro, guarda-chuva ou bengala, sempre com castões de ouro. Os fraques eram tolerados quando muito para uso dos solteiros. As matronas raramente não se trajavam de preto — cor esta obrigatória nas visitas, nos enterros e às missas dominicais, sempre concorridas.
Apesar de barata a vida, não faltavam os queixosos, inconformados com os exagerados preços mensais de 40 a 60$000 pelas pensões completas de cama e mesa . Só os estudantes ricos recebiam mesadas superiores a 100$000 mensais. O mais caro dos calçados era o borzeguim Clark , feio na Escócia; ao se dar uma libra esterlina por um bom parelho, como se dizia, de botinas, o negociante recusava camaradamente, dizendo ''passe pra cá uma nota de 10$000 e guarde sua moeda como tetéia''. Já naquele tempo as prestações eram usuais, principalmente pela mocidade que queria deitar elegância, passar bem e gozar de certo conforto; um bonito terno de roupa, de 80 a 100$000, era pago em mensalidades; um estudante, para gozar as delícias de confortável cadeira austríaca de balanço, ao alto do valor de 30$000, levava meio ano para resgate da dívida, as ceatas, regadas a bom vinho, raramente eram pagas à vista e, em tais casos, quase sempre, os parentes ricos dos devedores boêmios tomavam a si as respectivas liquidações. Tempos patriarcais! Famílias modestas geralmente alugavam para rapazes solteiros os cômodos de suas casas, cujas janelas davam para a rua, a fim de gozarem a devida liberdade. Em compensação, porém, ficavam eles a seco, devido à falta de banho. Os serviços de águas e esgotos, naquele tempo, deixavam muito a desejar; a caixa d'água era alimentada por uma tubagem única de trinta centímetros de diâmetro, provinda dos mananciais da serra da Cantareira; pouquíssimas as residências servidas das referidas utilidades; devido a tais deficiências esquivavam-se os estudantes de formar repúblicas em casas onde havia banheiros, pelo justificado temor da ininterrupta '' freguesia'', por parte dos colegas de alhures. Grande movimento, portanto, tinham as casas de banho, poucas aliás; a mais importante delas era a Sereia Paulista, bem montada, anexada de um pequeno restaurante, e mantida pelo Sr. Fischer , húngaro de nascimento e refratário a intimidades. O circunspecto proprietário, dentre suas originalidades, não admitia que em seu estabelecimento ninguém falasse mais alto que ele ; ciente disso, combinava a rapaziada sair cada qual, por sua vez, proferindo o clássico: ''Boa noite, seu Fisher '', por ele correspondido com uma '' boa noite, senhor '', sempre em crescente diapasão, até quase atingir a verdadeiros berros ! Grande era ali a freguesia noturna, atraída por magníficos bifes a cavalo, tenrificados a leite de folhas de mamoeiro e regados por delicioso vinho magiar, diretamente importado pelo proprietário, o qual pelos jornais andou deitando artigos defendendo seu tão apreciado néctar, devido a um perverso ter caluniado que tal beberagem era composta em uma tasca próxima ao mercado!
Triste e monótona a '' vida social da cidade ''; periodicamente despertada por apreciadas retretas pela excelente Banda Marcial da Guarda Permanente, regida pelo sargento Antão, que facilmente tocava instrumentos dos mais difíceis. Por elas atraída, às quintas-feiras e aos domingos no jardim do Palácio e no pitoresco bairro da Luz, reunia-se a ''flor da juventude paulistana'', a mocidade acadêmica e as românticas normalistas não davam ponto, e não sendo raras, entre elas, as ofertas de sonetos e madrigais, provenientes dos novéis trovadores .

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