Feliz a idéia de reunir experiências de vida de homens e mulheres das faixas etárias mais altas. São relatos simples, sem muita pretensão literária e, por isso mesmo, espontâneos, sinceros e comoventes. Muita gente teve a oportunidade de relembrar momentos marcantes e inesquecíveis em suas vidas.
O livro tem história incríveis, como a do piloto que perde o vôo porque dorme profundamente depois de doar sangue a uma criança. Ao acordar, é informado da queda do avião que iria pilotar. Outra personagem escapa de um acidente fatal, porque vende a passagem de avião e viaja de ônibus para financiar a viagem de um desconhecido sem dinheiro.
Lembranças de uma infância feliz e despreocupada pelas ruas sem trânsito e sem violência de grandes e médias cidades brasileiras ocupam uma boa parte dos depoimentos. Travessuras ingênuas como roubar mangas no terreno do vizinho ou colocar um espelhinho no chão da sala de aula para ver as pernas da professora bonita. Num tempo em que não havia televisão, videogame ou Internet, a molecada divertia-se em carrinhos de rolimã ou brincando de "cowboy", cavalgando cabos de vassoura e imitando os heróis da época, como Zorro e seu amigo Tonto, Roy Rogers e Hopalong Cassidy.
Algumas reminiscências mostram uma São Paulo bucólica, sem poluição e o trânsito infernal dos dias de hoje e, quando se podia pescar no rio que passava pela avenida Nove de Julho, catar amoras silvestres, araçás e caraguatás no Vale do Pacaembu e de Vila Mariana ou caçar a estilingue bico- de- lacre, papa- capim, pintassilgos e sanhaços nos bairros próximos ao centro, dominado por chácaras. Nas águas claras do Rio Tietê — imagine-se !— havia competições de nado e de barcos.
Histórias do primeiro amor e dos namoros tímidos e respeitosos têm espaço privilegiado na memória dos autores e autoras. Um apaixonou-se pela filha do leiteiro que passava diariamente com sua carroça; outra pelo maquinista do trem que via freqüentemente: muitos iniciavam os flertes nas viagens de bonde ou nas matinês do cinema aos domingos.
Há muitas lições de vida: pobres que estudaram e venceram na profissão, mulheres que reconstruíram a vida depois de um casamento fracassado ou os que enfrentaram com garra doenças sérias, a morte de um filho e outras tragédias pessoais.
Quem está nas fases mais maduras da vida também diverte-se com referências a produtos e curiosidades da época: o emplastro Sabiá, que aliviava as dores, os carroções-baús da mudança da "Lusitana", puxados a cavalo, farmácias que vendiam sucos de fruta no balcão, o shampoo "Musfield" etc.
Mesmo histórias simples, ensinam a arte de viver.