Companheiras de infância

Foi memorável o dia em que encontrei Hanna pela primeira vez, no pátio de nosso grupo escolar. Estávamos com oito anos e começávamos a cursar o segundo grau. Hanna despertou minha atenção porque era a única criança que não participava das brincadeiras com as colegas, nas manhãs de recreio, mas sentava-se quieta, com um livro nas mãos, absorta na leitura.

Magrinha, loira, de olhos escuros no rosto pálido, ela não passava de uma frágil estrutura de ossos visíveis e de músculos quase invisíveis. Entretanto, aquele corpo delgado abrigava uma inteligência rápida que impressionava suas professoras pelo vocabulário, fluência, a urgência de conhecimentos, o vigoroso desejo de aprender, de enriquecer-se por amor aos livros.

Cheia de curiosidade, aproximei-me dela e começamos a falar de nossas leituras em casa, história de fadas, de animais, de índios, seres mitológicos, e aventureiros nos mares. Éramos velozes e passamos a emprestar, uma à outra, os poucos volumes que possuíamos.

Muito cedo, ela me propôs um negócio: iríamos juntas à biblioteca circulante, cada uma pagaria sua mensalidade, levaria um livro para casa, terminaria a leitura em uma ou duas horas e nos encontraríamos para trocar, entre nós, os volumes alugados. Assim, ela leria o meu, e eu o dela, até o fim do dia. Hanna descobrira que poderíamos ler dois livros pelo preço de um, numa única tarde! Às vezes, quando Hanna adoecia, eu lia os dois livros ao lado de sua cama e ela fazia o mesmo quando eu é que estava de "resguardo".

Até o fim daquele ano, nosso negócio prosperou. Como eu também era muito magrinha, ficamos conhecidas na biblioteca de aluguel como "os dois cabides". Sentiamos, uma pela outra, admiração, respeito, agradecimento. Nossos pais nunca interferiram em nosso amizade. A família de Hanna era judia e a minha, católica. Muito cedo na vida aprendi que homens e mulheres podiam ser amigos responsáveis, apesar de nossas igrejas diferentes.

Hanna foi minha primeira amiga de verdade. Este formoso companheirismo interrompeu-se quando o governo desapropriou as casas de nossas ruas, no bairro judeu do Bom Retiro para ali concentrar uma zona de meretrício. Foi um cataclisma. Todas as famílias tiveram de mudar. Perdi Hanna, em termos físicos, mas ela vive para sempre em meu coração e entendimento.

Adelaide Petters Lessa


Esta página foi produzida pelo Instituto Maturidade de Estudos do Desenvolvimento Humano