O Natal dos pobres

Há mais de setenta anos, as crianças filhas de pais pobres, não recebiam presentes, já que estes não eram vistos, em parte acredito, por não haver grandes fabricantes e de outra parte, por não haver clientela que se dispusesse a privar-se de um franguinho para comprar um humilde caminhãozinho de madeira, puxado por barbante.

Embora meu pai fosse o mais abonado financeiramente, no meio de centenas de espanhóis e italianos, nem por isso, ele dava brinquedos aos seus onze filhos. E eu, sendo o caçula, via os brinquedos por um "telescópio".

Era inútil esperarmos pelo dia seis de janeiro,dia da "Befana". Essa nem sequer aparecia, deixando todas as criancinhas pobres "a ver navios". A "Befana" era o "Papai Noel" dos italianos. Para receber a sua visita, precisava-se dependurar uma comprida meia de mulher, num lugar bem visível, onde ela pudesse enchê-la de presentes. Por que não tentar? Porventura não era filho de Deus?

Surrupiei uma meia fio de Escócia de minha mãe, dependurei-a na janela, aguardando ansiosamente que a abençoada "Befana" lembrasse de mim.

Quase não dormi esperando encontrar a meia cheia de brinquedos. De manhã, fui o primeiro a levantar e de longe observei que a meia estava recheada. Oh! que alegria, a "Befana" não me esquecera. Corri feito um louco, despejei o conteúdo da meia e oh! amarga decepção. Só encontro batatas, tomates, cebolas e pão velho. Chorei — deveria ter seis aninhos, não mais, e acho que cada lágrima acendia uma estrela no céu guardando em seu bojo um caminhãozinho de madeira.

Americo Della Monica


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