Minha mãe, Annita, tem 90 anos e, apesar de muito lúcida, anda com dificuldade devido a uma fratura na perna, ocorrida há dez anos. Ela é uma pessoa sensacional, muito alegre, forte, corajosa. Exemplo para mim e para meus filhos que com ela convivem. Ajuda meu menino a estudar, tomando a matéria dele, estimula minha filha que está na faculdade. Com o seu otimismo levanta nosso astral, inclusive contando passagens de sua vida. Emociona a gente vê-la narrar este episódio engraçado, com carinha sapeca, desta moleca de 90 anos.
Procurei não interferir na história, deixando que ela, uma pessoa que leu muito, contasse este fato a acontecido em 1918.
Antigamente, a obediência e o respeito aos pais era muito grande e assim minha irmã e eu, chamadas por mamãe, ouvimos que iríamos representar a família numa missão importante.
Não era divertido, não era nem comum mas íamos, entre contrafeitas e obedientes a um ....velório!
Era a nossa primeira experiência na área e aquilo, por nossa pouca idade, nos aborrecia e nos deixava com o coração aos pulos. E lógico que preferíamos ficar brincando mas... mamãe era de uma só palavra.
Roupa trocada, cabelos penteados, escutamos entre risos e brincadeiras as recomendações de mamãe.
Todas aquelas palavras entravam em nossa cabeça, na despreocupação dos nossos poucos risos.
Palavras ditas e lá fomos nós.
Pela rua, repetíamos o que deveríamos dizer, mas por pouco tempo...
Após uns quarteirões, a inquietude da idade, onze e treze anos, assomou. Começamos a correr, a brincar e a repetir a brincadeira das horas de alegria: "Comeu meu pão, não me deu um pedaço, comeu meu pão, não me..."
Ao chegarmos em frente à casa, muito afoguedas, paramos e sérias, procuramos nos ajeitar.
Mas oh!... desespero dos desesperos! não nos lembrávamos a frase que teríamos de dizer e que a nossa mãe nos fizera repetir muitas vezes.
Paradas no portão, olhávamos o movimento das pessoas. Resolvemos entrar; afinal, ali não poderíamos ficar por muito tempo.
Lá dentro, na sala principal, cadeiras encostadas nas paredes e bem no meio... o caixão. Era de arrepiar.
Pessoas chorando, pessoas falando, pessoas servindo café com bolo. Típico velório à moda antiga. Procuramos D. Josefina com os olhos. Lá estava ela ao lado do caixão. Chorosa.... No íntimo, não compreendíamos tanta tristeza. Afinal, ele era um canastrão! Mulherengo, metido a conquistador e sempre meio bêbado.
Entramos na fila, para falar com a desconsolada viúva. Mãos suadas... frio na barriga... Não tinha mais remédio. A cabeça vazia nada lembrava.
Uma cotovelada de minha irmã e seu olhar aflito demonstrava que ela também se esquecera. De repente, eu frente à frente com D. Josefina.
Parada, lenço na mão, ela me olha e eu hesito. Minha irmã me empurra.
Estico a mão, da minha boca seca sai uma voz que parece não ser minha, mas que diz alto: "Meus parabéns!'
Silêncio total.... O choro parou.... a conversa também.... Nenhum ruído na sala.
Depois... um risinho abafado aqui... outro ali... Cochichos...
E o olhar meio surpreso da pobre viúva.
Saímos... Alguma coisa acontecera. Mas o quê?
Na realidade, só viemos a saber depois do "croque" bem dado por mamãe, nas nossas cabeças.
Vermelha, repetia.... suas burras!. Era meus pêsames!... meus pêsames!
Annita Neves Minervino