| a
a
 Fachada do Cine República na sua primeira fase. Começo dos anos 20, século XX |
|
Um cinema para a aristrocracia
Em 1929, o República anunciava
o Vitafone e o Movietone
O República nasceu em 1921 num local, a praça do mesmo nome, de antiquíssima tradição de festas e espetáculos. Duas décadas antes do seu surgimento, exatamente no alvorecer do novo século, ali apareceu, pela primeira vez, o cinematógrafo, como complemento às atrações oferecidas por uma excitante montanha-russa. Há muito tempo, porém, que as companhias circenses se revezam no lugar, criando um ponto famoso de entretenimento.
Valorização
Quando a febre de patinação estava no auge em São Paulo, Evaristo da Veiga, o proprietário do terreno, montou o seu Skating Palace. O valorizado pedaço de terra — vendido posteriormente ao fazendeiro campineiro Lupércio Teixeira pela fabulosa quantia de 400 mil contos de réis — foi ainda sede do Gaumont Palace, centro de diversões e local escolhido pela Ford para instalar sua primeira linha de montagem no Brasil.
Nessa altura, surge a figura de João Quadros Jr., ativo jornalista, que sempre esteve ligado ao chamado show-business. Quadros não se conforma em ver a tradição do local quebrada pela instalação de um negócio algo diferente do que até então lá sempre existira, e começa a planejar o cine República
Cafezinho
Nas amenas tardes do final dos anos 10 em São Paulo, o cafezinho podia ser saboreado tranqüilamente, numa mesa da afamada Casa Lebre, no começo da rua Direita. Aí, Quadros reúne-se com possíveis sócios e mostra o potencial oferecido pelo mercado da exibição cinematográfica, que ainda não atingira o público mais sofisticado, incapaz de trocar seus clubes por algumas suarentas horas passadas em locais menos aristocráticos, como os cinemas da época. Alguns acabam por convencer-se — entre eles os proprietários da própria Casa Lebre. A Ford, que já preparava novas instalações na rua Solon, não resiste às propostas, mesmo porque um incêndio na seção de pinturas a obriga a apressar a mudança. Naquela véspera de Natal de 1921, São Paulo vê Macho e Fêmea, com Glória Swanson, no mais belo cinema que o Brasil já tivera.
A companhia proprietária da nova casa, a Empresa Paulista de Diversões Ltda, mantinha também o teatro Apolo da rua 24 de Maio. eram seus sócios: Cel. Lupércio Teixeira de Camargo, Eduardo S Freire, Feliciano Lebre Mello (da Casa Lebre), Mário Amaral, Armando dos Santos Barroso, João Quadros Jr e dr. Antonio SIlveira de Melo.
Prédio de apartamentos
Só as obras de adaptação do prédio, dirigidas pelo engenheiro Filluger, o responsável pela construção do primeiro prédio de apartamentos de São Paulo (em cima do cinema) custaram 200 contos. O soalho, de carvalho português, dava ao República o ar do mais aristocrático palácio. Rodeando todo o salão, frisas, camarotes e galerias. E, como convidando os mais hesitantes, as entradas eram espaçosas e a fachada magnífica. Às terças e quintas o preço das entradas aumentava, elitizando ainda mais o público.
Danças
Eram os dias em que, numa casa anexa, especialmente alugada, rapazes e moças aguardavam o início das sessões, dançando ao som da música do famoso maestro Martinez Grau. Também a tela de alumínio, contrastando com os pobres retângulos dos outros cinemas, constituía absoluta novidade. A maior revolução, porém, estava na iluminação. Antes do República, os cinemas apagavam ou acendiam a luz abruptamente, criando perturbações no espectador. Quadros deu início ao sistema de graduação de luzes, mantendo ainda a platéia envolvida numa penumbra favorável, através de pequeninas lâmpadas azuis.
Privilégio
Não tardou, porém, para que o luxo e o requinte deixassem de ser privilégio do República. Passada a sua fase áurea, ele cede humildemente o lugar para um novo rinque de patinação, volta por breve tempo a ser cinema e, finalmente, torna-se sede da Secretaria da Fazenda. Mais tarde, na década de 50, o República voltou a funcionar até ser demolido em 1976 para dar lugar à estação do Metrô.
VOLTA - PRÓXIMA |