Massacre no restaurante chinês

Ao abrir a porta do restaurante em que trabalhava, rua Venceslau Brás, nº 75, às 7 horas da quarta-feira de cinzas de 1938, dia 2 de fevereiro, o cozinheiro Pedro Adukas começou a gritar. Três corpos dilacerados estavam à vista: os corpos dos garçons José Kilikevicius e Severino, e num canto, o do dono restaurante, o chinês Ho Fong. Quase desmaiando, Pedro ainda encontrou forças para subir ao andar superior do prédio, onde avistou o corpo de Maria Akiu Fong, mulher de Ho.
No exame dos cadáveres, a polícia concluiu que os três homens haviam sido mortos a porrete. A mulher fôra estrangulada.
O crime do restaurante chinês, como o caso foi batizado pelos jornais alavancaria a carreira de Paulo Lauro, no futuro, primeiro prefeito negro de São Paulo (28-8-1947 a 25-8-1948). Em dois julgamentos, ele conseguiria a absolvição de Arias de Oliveira sobre quem pesavam convincentes provas, e a própria confissão.
Ho Fong, apurou-se, acompanhado pela mulher, fechara o restaurante por volta das 21 horas da terça-feira de carnaval para ir acompanhar o desfile de blocos e cordões na avenida Brigadeiro Luís Antonio. Ele costumava permitir que seus empregados dormissem no próprio restaurante, se o quisessem. Todas as evidências levaram a policia a considerar que o criminoso matara para roubar. Móveis e armários estavam abertos, os bolsos do chinês foram revirados, jóias, descobriu-se no decorrer das investigações, haviam desaparecidos.
Primeiro a ser morto, concluiu a polícia, o lituano José Kilikevicius, estava dormindo. Os demais foram sucessivamente eliminados, ao serem acordados pelo barulho.
Quem matara conhecia suas vítimas e dormira no local sem lhes despertar suspeita concluiu-se também. Seria, provavelmente assim, um empregado,ou um ex-empregado do chinês.
O nome de Arias apareceu pela primeira vez nos depoimentos de Manoel Custódio Pinto, garçom e empregado mais antigo da casa. Arias trabalhara 12 dias no restaurante e deixara o emprego na sexta-feira anterior. Segundo as palavras de Manoel, o chinês lhe contara que Arias pedira para ser readmitido.
Preso, o suspeito negou várias vezes a autoria do crime, Mas, após vários interrogatórios, dia 19 de março, admitiu ter estado no lugar. O matador, segundo ele, porém, teria sido Manoel.
Arias finalmente confessou, embora inicialmente justificando-o com uma versão que se mostrou inconsistente. Pela apuração da polícia, ele gastara grande parte da noite de 3a.feira dançando num baile popular da praça do Patriarca. Passou depois pela casa de um amigo na rua Santo Antonio, indo em seguida para a praça da Sé. Num prostíbulo dali, seguiu acompanhado por três mulheres até o restaurante do chinês, encontrando os garçons na porta à espera de Ho. Quando este chegou com sua mulher, as três prostitutas já tinham ido embora. Arias perguntou a Ho se podia dormir no restaurante. Disse também à polícia que pensou em pedir um prato de comida, mas teve vergonha de fazê-lo. Dentro da casa, enquanto ajeitava o lugar para dormir, ele resolveu roubar o dinheiro do cofre do local. Foi ao quintal, pegou um caibro e, ocultando-o sob o colchão, levou-o para dentro. Matou os garçons enquanto dormiam. Ao perceber os sons de um tamanco, escondeu-se no banheiro. Era Ho que passava. Árias o atacou por trás. A mulher apareceu no topo da escada e ele a perseguiu até o quarto. Perguntou-lhe sobre a chave do cofre. Diante da sua recusa em responder, estrangulou-a. Levado a julgamento no dia 31 de março de 1939, Arias foi absolvido. O júri considerou que ele confessara um crime que não cometera.
O promotor público Rafael Oliveira Pirajá apelou ao Tribunal e conseguiu a anulação da decisão do júri. De novo em julgamento, a 3 de junho de 1940, Arias contou mais uma vez com a habilidade do seu advogado, Paulo Lauro. Foi absolvido.
Impetrado outro recurso, confirmou-se a decisão do júri, mas não por unanimidade. O desembagador Amorim Lima, em voto vencido, concluiu: ”Raramente um crime foi tão bem elucidado por um conjunto harmônico de provas”.


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