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Vôo de Rugerone

Ao iniciar-se o vôo do biplano Farman, de 50 HP, a multidão, presente ao Prado da Mooca, naquele dia 6 de janeiro de 1911, entrou em delírio. Às entusiasmadas saudações ao aviador Natale Ruggerone somaram-se os vivas à Itália, ao rei Vitor Emanuel, a Garibaldi, tudo em italiano.
No meio do espocar dos rojões, algumas vozes se levantaram para advertir sobre o perigo de que algum deles atingisse o aparelho. Não havia exagero. Naquele tempo os aeroplanos eram montados com hastes de bambu ou alumínio ligadas por tecido de seda recoberto de verniz.
A expectativa em torno do vôo de Rugerone começara a formar-se há algumas semanas, E, principalmente entre a comunidade italiana, brotara certo espírito de rivalidade, embora não houvesse propriamente nenhum adversário a enfrentar.
Ruggerone chegara a São Paulo no final do ano anterior, juntamente com outro aviador italiano Giulio Picollo. Ambos tinham marcado um vôo conjunto para o início de 1991, no Prado da Mooca, local amplo e apropriado para a decolagem de aeroplanos. Picollo,entretanto, morreria pouco depois de sua chegada, após fraturar o crânio numa tentativa desastrada de levantar um vôo em outro lugar, inicialmente não previsto.
Mesmo com a morte do parceiro, Ruggerone manteve o compromisso da apresentação. No dia marcado, o público começou a movimentar-se de madrugada em direção ao Prado da Mooca, embora o vôo estivesse previsto para às duas horas da tarde. De todos os lados da cidade — mas principalmente do Bexiga,Barra Funda, Brás e outros bairros que concentravam os imigrantes italianos — chegava gente em bondes apinhados. Ninguém discutia os preços cobrados pelos ingressos: arquibancada, 10$000, arquibancada de 1a ordem, 5$000; arquibancada de 2a, 3$000, ingresso simples, 2$000; prado externo,1$000.
Fazia um calor dos diabos. Água e vinho acompanhavam os lanches avidamente devorados até que um tropel de algumas pessoas em direção ao ponto da decolagem atraiu a atenção aos demais.
Ruggerone movimentou o aparelho e, como agradecimento pela calorosa recepção, executou um vôo baixo sobre o prado, acenando ao público. Ganhou depois altura, tomou o rumo norte, em direção aos contrafortes da Cantareira, para voltar poucos minutos mais tarde ao local da partida, sob o mesmo entusiasmo da assistência.
Mais dois aviadores estrangeiros compareceriam ao Prado do Mooca, O francês Planchut, não foi muito feliz, sendo obrigado a fazer um pouso forçado numa rua da Mooca. Bartolomeu Catanneo, também italiano, executou o “vôo da morte”, arriscado número acrobático criado na França pelo piloto Pegoud.
Nenhum dos dois, porém, conseguiu superar a popularidade de Ruggerone. Após outras exibições no Prado da Mooca, durante uma das quais, um cavalariano da Força Pública, repentinamente enlouquecido, atirou contra a multidão, matando e ferindo várias pessoas, proporcionou passeios aéreos pagos. Ruggerone cobrava trezentos mil réis de cada passageiro, um preço alto para a época, mas interessados não lhe faltaram. E uma interessada, Renata Crespi, que se tornou assim a primeira mulher de São Paulo a viajar de avião. Renata Crespi se casaria depois com Fábio da Silva Prado, futuro prefeito de São Paulo (década de 20).
Em homenagem ao aviador, fundou-se também em São Paulo o Ruggerone F.C.que preparou alguns craques para o Palestra Itália, o futuro Palmeiras.

Renata Crespi, primeira mulher em São Paulo a voar.


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